Precisamos falar sobre estupro romantizado nos mangás do gênero yaoi

Precisamos falar sobre estupro romantizado nos mangás do gênero yaoi

É muito complicado discutir acerca de aspectos problemáticos que vemos em certas obras culturais, como filmes, livros, seriados, animes, mangás e desenhos animados, porque afinal, em princípio, o artista é livre para criar o que bem entende e esse é um direito dele que não podemos desrespeitar. Além disso, também não podemos dizer a ninguém do que deve ou não gostar, por mais duvidoso que seu gosto nos pareça. Porém, se o artista é livre para criar e os que consomem suas obras têm direito a ler e a assistir ao que bem entendem, não podemos nos calar diante de certas coisas que percebemos estar muito erradas; uma delas é o estupro romantizado, presente em obras como “Cinquenta Tons de Cinza”, seriados, mangás shoujo e yaoi (de relacionamento entre homens).

As consequências do estupro na vida de quem o sofre

Por que devemos falar sobre estupro romantizado na ficção? Bem, não dá para se responder com poucas palavras, porque o estupro é algo extremamente complexo e envolve inúmeros aspectos, mas o que ninguém pode negar é que estupro, seja contra mulheres, homens ou crianças, é um crime abominável e um desrespeito à liberdade e à dignidade de um ser humano. Toda pessoa que sofreu estupro ou qualquer outro tipo de abuso sexual fica com sequelas físicas e psicológicas e muitas nunca se recuperam. A pessoa que foi abusada desenvolve depressão, falta de autoestima, estresse pós-traumático e muitas vezes fica estigmatizada, devido ao problema da cultura do estupro, que tende a culpar as vítimas pela violência sofrida. Muitas vítimas não denunciam os agressores por medo e vergonha.

Como o estupro deve ser mostrado e relações abusivas

Infelizmente temos visto obras de ficção romantizando o estupro, como se ele fosse algo bonito, normal e aceitável. Não é. Estupro é crime, violência, um ato abominável. Algumas pessoas, ao ouvir sobre esses aspectos problemáticos, usam a desculpa de que é apenas ficção, algo para satisfazer a um fetiche sexual. Está certo que não é porque alguém vê estupro sendo retratado como um ato romântico que fará igual, porém isto não significa que ele deva ser mostrado como se fosse uma coisa banal e que não causa danos.

Estupro deve ser retratado como realmente é: uma coisa desrespeitosa, uma violência. Imaginemos uma vítima dessa covardia vendo-o de forma romantizada. Como ela se sentiria? Da mesma forma, uma vítima de bullying tem todo o direito de odiar ver o bullying sendo mostrado como uma brincadeira inofensiva, especialmente nos dias de hoje, em que psicólogos, educadores, pais e sociólogos têm discutido os danos que o bullying causa em suas vítimas, suas implicações sociais no ambiente escolar e medidas para preveni-lo e combatê-lo. Ainda que colocar estupro romantizado não estimule alguém a agir de forma igual na vida real, é evidente que apresenta uma versão distorcida e irreal de como se desenvolve um relacionamento entre duas pessoas e um desserviço nestes tempos em que tanto se tem debatido acerca de como se combater o abuso sexual.

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Outra coisa é que estupro romantizado na ficção legitima relações abusivas. Podemos ver bem que o sexo feminino é mostrado como dócil, submisso e sem dignidade, aceitando passivamente os caprichos brutais do masculino. Esta é uma situação bastante comum nos mangás shoujo, em que vemos com frequência os rapazes avançando sobre as moças, que parecem sempre umas bobocas indefesas que se permitem ser bolinadas mesmo nas ocasiões mais impróprias.

O gênero yaoi

Um gênero que merece ser mencionado é o yaoi, porque, apesar de mostrar homens se relacionando, tem padrões tipicamente heteronormativos. Assim, o seme (ativo) costuma ser mostrado como a figura masculina da relação e o uke (passivo) como a feminina. Este gênero, normalmente, não se preocupa em desenvolver histórias que retratam relacionamentos de forma verossímil, mas em reproduzir tipos idealizados para satisfazer aos fetiches sexuais do público leitor (predominantemente constituído por mulheres). O seme representa o estereótipo do homem dominador e o uke o da mulher submissa e sem vontade própria, sempre aceitando ser usado para que o seme alcance seu prazer.

Viewfinder: romantização do estupro

Viewfinder: romantização do estupro

Um mangá yaoi que merece ser citado é “Viewfinder“, de Yamane Ayano, que conta a relação do chefe yakuza Asami com o fotógrafo Akihito. A relação já começa de forma bem abusiva, com Asami sequestrando o fotógrafo e estuprando-o com instrumentos de fetiche sadomasoquista. Entretanto, a autora coloca como se Asami estivesse estuprando o fotógrafo por estar apaixonado, justificando com afirmativas de que o rapaz “faz seu coração pular” e que Akihito “é lindo demais para que ele o deixe ir”.

Como se ser estuprado por uma pessoa não fosse azar suficiente, Akihito é sequestrado pelo chefe mafioso chinês Feilong, que o leva para Hong Kong, forçando-o a uma vida de servidão sexual, tatuando-o para dizer que ele é sua propriedade, como quem marca gado, colocando-o numa jaula e lhe dando alimentação insuficiente. Ao vermos o sofrimento e as humilhações sofridas pelo rapaz, perguntamo-nos como ele não enlouqueceu. Porém, a autora quer que gostemos de Feilong, colocando que ele age assim porque tem uma dor de cotovelo não resolvida com Asami (os dois foram amantes sete anos atrás) e se sente solitário. Será que existe justificativa para isso?

Viewfinder, uma romantização do estupro

Depois, Feilong se afeiçoa ao rapaz e até pede para que se torne seu amante. Isso não chega a acontecer porque Asami – o primeiro estuprador do pobre Akihito – vai a Hong Kong e resgata o jovem. Como vemos, Asami, de estuprador, virou um herói, um príncipe encantado. Há uma cena que ocorre pouco antes do resgate e que é particularmente revoltante. Feilong e Akihito estão num navio, indo de encontro a Asami, já que Feilong tinha concordado em devolvê-lo ao yakuza. Nesta cena, Feilong, muito gentilmente, pergunta se Akihito não quer se divertir um pouco no cassino. Muitos que leram comentaram que, se fossem o rapaz, teriam dito: “Por que tal gentileza agora? Como se isso apagasse o que você fez comigo”.

Um estuprador adorado por fãs de yaoi

Depois que Asami resgata Akihito e o leva de volta ao Japão, Feilong se arrepende de ter agido como agiu, dizendo que, se não houvesse feito o que fez, talvez o rapaz houvesse concordado em ficar com ele. O que fica parecendo? Que ter escravizado sexualmente o pobre rapaz foi ter agido sem pensar, metido os pés pelas mãos. Ora essa, estuprar alguém não é agir de forma irrefletida, é ser um monstro, é agir de forma desumana.

Feilong em Viewfinder

No entanto, Feilong é um personagem amado por muitas fujoshis (garotas fãs de yaoi). Talvez o amem por ele ser jovem e lindo. Se ele fosse velho e feio, com certeza não seria tão adorado. Uma vítima de estupro que leu o mangá – que não terminou por se sentir revoltada – disse que se sentiu mais horrorizada ao ver Feilong reencontrando Akihito em Tóquio, algum tempo após o resgate, e dizendo: “Akihito, você não respondeu aos e-mails que mandei”. O que fica parecendo? Que o fotógrafo esteve em Hong Kong se divertindo, que ser estuprado não foi nada grave. Imaginemos uma vítima de abusos ouvindo isso de seu abusador na vida real.

Banana Fish: um retrato realista da servidão sexual

Um outro mangá que relata situação parecida, mas com outra abordagem, é “Banana Fish“. Embora os personagens sejam masculinos, é um mangá shoujo que conta a história do delinquente juvenil americano Ash Lynx e do fotógrafo japonês Eiji Okumura. Ash foi “criado” por Golzine, um mafioso que abusou sexualmente dele inúmeras vezes, obrigou-o a fazer filmes pornô e o treinou para ser seu sucessor. Muito diferente de Akihito, que não fica com nenhum trauma mesmo depois de ter sido abusado tantas vezes, Ash é bastante traumatizado. Diferentemente de “Viewfinder”, em que a escravidão sexual a que Feilong obriga o fotógrafo é vista como aceitável, em “Banana Fish” temos uma ideia perfeita de como Golzine e outros fizeram o pobre Ash passar horrores.

Banana Fish

Numa cena muito tocante, ao desabafar sobre todos os abusos que sofreu, Ash diz como se sentia humilhado, privado de sua liberdade e humanidade, vendo-se reduzido a um objeto, dizendo que foi usado como uma privada particular por cada um que o estuprou. O que podemos concluir? Que não dá para se retratar estupro como uma coisa normal, porque não é. Nesta cena, Ash parece à beira da loucura. O estupro, além de causar danos físicos, provoca sequelas emocionais muitas vezes irreversíveis.

O que se pode concluir

Portanto, se não podemos proibir ninguém de consumir produtos culturais que romantizam estupro, podemos pelo menos tentar despertar a consciência das pessoas que os consomem ou possam vir a consumi-los. Nenhuma relação, seja real ou fictícia, pode ser pautada na dominação e desrespeito, em que a parte dominada é tratada como um ser sem dignidade e amor próprio.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Atenéia Rocha mora em Campina Grande, PB. Tem licenciatura em Letras, com habilitação em Língua Inglesa. É escritora de vocação, escreve desde criança e, no momento, está escrevendo uma fanfiction baseada no mangá Viewfinder. Acredita no poder da leitura e da escrita para mudar as pessoas.
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