Estúdio Ghibli – Reino de Sonhos e Loucura: arte, sensibilidade e cotidiano

Estúdio Ghibli – Reino de Sonhos e Loucura: arte, sensibilidade e cotidiano

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Sensação de amplidão, de tempo dilatado, de vastidão. O andar de uma gata, ou as flores vergando ao vento, ou as crianças indo para a escola. Silêncios são estendidos enquanto admiramos as nuvens multicores do pôr do sol. Essas são algumas das impressões que nos enchem de assombro e maravilhamento ao assistir a um filme como “Viagem de Chihiro” ou “Meu vizinho Totoro“.

Também são esses os sentimentos que temos ao assistir ao documentário sobre o Estúdio Ghibli intitulado “Reino de Sonhos e Loucura”, feito em 2013, dirigido pela cineasta Mami Sunada. O cotidiano do trabalho no estúdio é mostrado tendo como foco Hayao Miyazaki. Acompanhamos seu dia, desde o desjejum, passeamos com ele pelas ruas vizinhas ao estúdio em busca de inspiração, sofremos com as suas angústias e nos identificamos com as pequenas contradições de seus ciclos.

Estúdio Ghibli: o Reino de Sonhos e Loucura

Hayao Miyazaki, Toshio Suzuki e Isao Takahata
Pôster de “Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura”. Na foto: Hayao Miyazaki, Toshio Suzuki e Isao Takahata

Estúdio Ghibli é uma empresa de animação japonesa, responsável por famosas criações, como “Meu vizinho Totoro”, “Ponyo“, “Viagem de Chihiro”, “Princesa Mononoke”, “Serviço de entregas de Kiki”, entre outros. O documentário mostra o produtor Toshio Suzuki e os talentosos Hayao Miyazaki e Isao Takahata, mas o foco é em Miyazaki. Naquele momento, Takahata trabalhava em “O Conto da Princesa Kaguya” e Miyazaki criava o filme “Vidas ao vento”.

Devemos tentar viver

Em “Reino de Sonhos e Loucura” é mostrado não apenas o cotidiano de trabalho, mas as pequenas coisas que permeiam o dia entre uma atividade e outra; são mostrados momentos em que há a divagação por uma questão, sem se chegar a uma conclusão; e é mostrada uma cena em que Ushiko, a gata que mora no estúdio, aguarda até um humano abrir a porta para ela sair.

As cenas se detêm em placas para que possamos ler recados como “anime-se! Você consegue” e também outros mais contundentes, como “Por favor, saia se você: 1. Não tem ideias; 2. Sempre depende dos outros; 3. Foge da responsabilidade; 4. Não tem entusiasmo”. E o foco não é apenas em Miyazaki; seus colegas diretores, produtores e os desenhistas também têm voz.

Reino dos Sonhos e da Loucura
Cena de “Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura” (Imagem: reprodução)

O documentário ocorre no período de um ano e sete meses depois do acidente nuclear de Fukushima e questões políticas são pinceladas nos comentários de Miyazaki. Talvez por conta dessa tragédia e também pela aproximação do fim de sua carreira e pelo tom melancólico de “Vidas ao Vento”, as divagações de Miyazaki são sempre em direção a questões como o que é a felicidade e o que buscamos na vida.

Uma frase de Paul Valéry é inspiradora para o filme: “o vento se ergue, devemos tentar viver”. Em consonância a essa mensagem do filme, no documentário também há várias partes que remetem a essa mesma urgência, o que lembra a frase de Machado de Assis, em “Iaiá Garcia”: “a arte de viver consiste em se tirar o maior bem do maior mal”.

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Nunca desistir

Reino de Sonhos e Loucura
Cena de “Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura” (Imagem: reprodução)

Em outro documentário, “10 Years with Hayao Miyazaki“, o mestre da animação do Estúdio Ghibli nos dirige recados como “criar é como jogar uma linha de pesca em seu cérebro” e percebemos que seu gênio é fruto de talento, mas também muito trabalho e dedicação, em uma constante atmosfera de desassossego. O narrador nos diz que “ele [Miyazaki] cria em meio a uma constante nuvem de dúvida e ansiedade”.

A carreira de Miyazaki também teve dissabores. Ele teve vários de seus projetos recusados no início de sua caminhada, propôs várias animações para TV e estúdios, sempre recusadas. A primeira versão de “Princesa Mononoke” era a de uma menina apaixonada com um grande gato (em uma história que lembra muito o conto da Bela e a Fera). Miyazaki não desistiu; continuou a reformular sua história até chegar a uma narrativa original e bem mais significativa que sua ideia original.

Um lugar muito além

Hayao Miyazaki
Cena de “Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura” (Imagem: reprodução)

Miyazaki diz que o objetivo em suas criações é a de alegrar as pessoas, fazê-las felizes. Ele próprio – que já foi um garoto de saúde frágil, que viu a mãe passar quase toda a vida doente e acamada – também descobriu seu lugar quando começou a desenhar e depois quando conseguiu trabalhar sua arte profissionalmente.

No documentário, ele indica alguns elementos para se criar uma boa história: ter base no mundo real e, depois, se tornar real para o artista (“eu desenho o que é real. Tenho que acreditar nisso“). Ele continua dizendo que não basta ter uma boa história, tem que ter tempero, ter personagens e uma história com espírito e personalidade.

Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura
Miyazaki e a gata Ushiko, mascote do estúdio. Cena de “Estúdio Ghibli: Reino de Sonhos e Loucura” (GIF: reprodução)

Uma constante nos documentários sobre o Estúdio Ghibli e sobre Miyazaki são as cenas em que a equipe se agrupa no terraço do prédio do estúdio, ao final do dia, para contemplar as cores, as nuvens e a sensação de encontrar (mesmo que no frenético ritmo de trabalho) tempo para apreciar o mundo.

Na cerimônia em que anunciaria sua aposentadoria, Miyazaki chama Mami Sunada e aponta para a paisagem, casas e outras construções e narra ali uma cena tirada de sua imaginação, dizendo que ali, naquele telhado, alguém poderia pular, depois correr para o outro, sob os fios, e ser levado para um outro lugar, que, imaginando isso, é como se fôssemos transportados para outro ambiente.

“Não é divertido ver as coisas desse jeito? É como se você pudesse ir para um lugar muito além. E talvez possa.”

Miyazaki


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Autora

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Érica Bombardi é escritora e freelance em edição de texto. Publicou livros e vários contos, como os livros “Canto do Uirapuru” (2016) e “Além do deserto” (2012), e os contos “A Caçadora de Dragões D’Água” (2015) e “Por dentro” (2014), além dos ebooks “Nunca pare no acostamento” e “As chaves do invisível” (Amazon, 2018). Tem algumas premiações literárias, como o livro “Canto do Uirapuru”, que receberam o Prêmio Literário Biblioteca Nacional, categoria juvenil (RJ, 2016).
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