Mulheres nos Quadrinhos: Germana Viana

Mulheres nos Quadrinhos: Germana Viana

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Germana Viana traz em seu galeão uma tripulação de dar inveja aos piratas mais experientes da nona arte: “Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço 1 e 2, “As Empoderadas, “O Verão do Papa-Angu e “Gibi de Menininha – Historietas de Terror e Putaria 1 e 2″. A embarcação carrega também baús de coletâneas como “SPAM (Zarabatana Books), “Amor em Quadrinhos (independente) e “Marcatti 40 (Ugra Press). Porém, antes de comandar um galeão, Germana se aventurava em estantes durante a infância, já dando uma ponta da personalidade punk que viria pela frente.

Sempre tive muitos quadrinhos em casa, o pai e a mãe sempre compraram muito gibi da Disney e do Sítio do Pica-Pau Amarelo pra mim quando eu era criança (era uma maneira de me manter em casa e não no carrinho de rolimã com os meninos da rua, eles eram superprotetores… (risos) veja o resultado que pais superprotetores conseguem, mas meu pai tinha a coleção do Fradim, do Henfil, e guardava super no alto de uma estante, daí eu, com uns 9 anos mais ou menos, ia escondida e escalava a estante pra alcançar as revistas (olha o perigo daquela porra cair em cima de mim!)”.

O interesse profissional viria mais tarde, por volta dos 13/14 anos, quando descobrira em uma banca de jornal as capas de duas edições das revistas em quadrinhos “Superaventuras Marvel“, com mulheres em primeiro plano: “vi dois daqueles formatinhos da Abril, num deles tinha a Elektra erguendo a máscara do Demolidor com a sai e, na outra, a Jean Grey vestida de Fênix Negra. Saí da banca direto pra casa de dois meninos da minha rua que eu sabia que colecionavam quadrinhos de super heróis e devorei tudo que me emprestaram. E ali eu soube que se não trabalhasse com quadrinhos, de alguma maneira, não seria completa”.

Germana Viana
Capas que deram o clique interno em Germana (Imagem: Guia dos Quadrinhos)

Germana não se lançou ao mar da nona arte em navio próprio logo de cara, primeiro foi tripulante de outras embarcações durante a década de 90, onde trabalhou como ilustradora de livros infantis e revistas de RPG. A aprendiz soltou as velas para aproveitar o vento e no início dos anos 2000 se profissionalizou como designer gráfica, direcionando-se para os quadrinhos em si. As habilidades da artista nos bastidores dos navios a colocaram como assistente de Joe Prado na Art&Comics, ficando responsável por gerenciar profissionais da área para o mercado norte-americano.

“Se você aplica o que vai aprendendo, vai criando métodos que se adaptam melhor a você. E trabalhar diretamente gerenciando artistas para o mercado gringo e ter como mentor um profissional como o Joe Prado me ensinou uma disciplina e uma capacidade de fragmentar etapas, ainda que seja eu quem as faça no final, que me ajudam muito”.

Germana Viana
Germana por ela mesma (Imagem: reprodução)

Tudo sob controle para Germana se tornar a capitã do próprio navio, exceto o fato de ela mesma não acreditar nisso. Foi preciso um empurrão do veterano dos mares, George Pérez, durante sua ancoragem no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), de 2013, para que Germana assumisse a própria embarcação e levantasse a âncora.

Eu já trabalhava com quadrinhos há algum tempo, mas nos bastidores, com letras, design, agenciamento, não fazia os meus quadrinhos, e estava numa angústia porque queria, mas achava não estar pronta. Daí, um amigo — o Coveiro, do Universo 616 — mostrou meu material pra ele (George Pérez) e, cara, ele virou pra mim e perguntou: “com uma arte dessas o que você está fazendo fora do mercado?”. Daí, comecei a gaguejar, meu marido respondeu algo gentil pra ele que eu nem sei dizer o que foi porque nesse momento eu esqueci como se falava português, que dirá inglês, e fui pra um canto chorar… Chorei de desidratar e prometi pra mim que não sairia dali sem começar a pensar no roteiro pras minhas personagens que estavam engavetadas”.

Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço
Piratas que dispensam apresentações (Imagem: reprodução)

A artista soltou as amarras e foi mar adentro com quatro mulheres cheias de personalidade: Deus, Fran, Lambretinha e a líder, Lizzie Bordello, nome que partiu da mistura de “Gorgol Bordello”, banda norte-americana de gypsy punk, com a personagem Lizzie Bennet (“Orgulho e Preconceito“, de Jane Austen).

As quatro personagens criadas por Germana, por volta de 2006/2007, conheceram o mar após o empurrão de Pérez, em 2013, e vivem aventuras que transitam pelo humor, romance, sci-fi e sexo. Lugares ainda hoje vistos como “exóticos” quando desbravados e dominados por mulheres. “A sociedade como um todo ainda tenta fazer as pessoas caberem em rótulos que ela consiga entender, sem perceber que esses rótulos são verdadeiras metralhadas nos pés”.

E para “elogios” do tipo “seu trabalho é tão bom que parece feito por um homem”, Germana traz experiência na resposta: “se percebo que a pessoa fez por hábito machista arraigado, mas que tem o coração no lugar certo, eu respiro fundo, sorrio e explico. Explico direitinho. Afinal, estamos todos aprendendo a nos expressar sem magoar as pessoas em volta. Eu, como feminista cis branca e bi, tenho que ter consciência que possuo privilégios e que posso e vou errar e serei sempre grata se alguma militante negra, trans, genderfluid me corrigir e me ensinar. Agora, se percebo que o comentário é por maldade, ah, beibe… Eu sou muito fã de um diretor chamado John Waters e ele é escárnio puro e meu role model pra vida (risos) daí, o lado shade evil bitch rola solto”.

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O bom humor de Germana e a experiência colecionada ao longo dos anos no mercado editorial de quadrinhos refletem em sua habilidade na hora de escolher a melhor estratégia durante as invasões de seu navio por comentários tóxicos e pedidos de remoção de ilustrações nas redes sociais. 

Então, tem uma situação que também te mostra se você está no caminho certo e que aprendi com uma professora de português que tive no colegial — ainda chama colegial, gente? Eu vim da Idade Média, acho que vocês chamam agora de ensino médio. Ela dizia que tem um certo tipo de pessoa que, se não gostar do seu trabalho, te mostra que você tá fazendo certinho. É isso. Preferia que o mundo estivesse mais evoluído e com pessoas que abraçam a diversidade, preferia… Mas se algumas escolhem um caminho que espalha ódio e elas não gostam do que faço, bom… Chega a ser um elogio!”.

Germana Viana
A bandeira do navio de Germana é a da representatividade (Imagem: reprodução)

E para fundamentar seus registros de bordo, Germana não se limita apenas às suas experiências, mas recorre também a outras mulheres desbravadoras das águas do feminismo.

Veja, não estou dizendo que é o certo a se fazer e sim que é o certo pra mim, não existe método certo pra fazer quadrinhos, existe o método que funciona para o quadrinista, mas preciso das duas coisas, fontes teóricas e vivência, especialmente porque gosto de usar a cultura pop como ferramenta para chegar em quem está lendo e jogar umas discussões e reflexões misturadas ao entretenimento. Se não tenho uma base teórica, fica oba-oba demais, pesquisa é importante pra mim – mas se não coleto experiências e vivências tanto minhas quanto de amigas, militantes, pessoas em volta, não consigo me aproximar o suficiente para que você leia algo meu e diga “olha, parece comigo, com minha irmã, com minha amiga”, saca?”.

A troca entre quadrinista e leitoras é a bússola que norteia a navegação de Germana, muito mais que prêmios e títulos.

Ganhar um HQMix é um reconhecimento espetacular, é estar no mesmo palco de ídolos meus, mas não é o que me mostra estar no caminho certo. O que me mostra estar no caminho certo é quando uma mulher chega pra mim e me diz que se viu em algum personagem meu, ou que resolveu algo que a angustiava porque alguma personagem minha passou pelo mesmo e ela não se sentiu sozinha, ou ainda quando um cara branco hétero percebe que ele pode ser um aliado das mulheres e da comunidade LGBTQ porque leu algo meu e aquilo o tocou de alguma maneira”.

Germana Viana
Difícil é não se encontrar nas personagens da artista (Imagem: reprodução)

Com a Comic Con Experience à vista, a oportunidade de atracar no cais para trocar ideias com leitores, fãs, atuais e futuros profissionais da área não poderia ser melhor. “Foi uma surpresa maravilhosa ser uma das convidadas deste ano da CCXP, ainda fico sem chão”. Não é só a artista que fica sem chão, mas nós também com essa lista de lançamentos para a CCXP 2019, em primeira mão para o Delirium Nerd:

Gibi de Menininha 2, com:

– Rebeca de Puig/Germana Viana

– Camila Suzuki/Robera Cirne

– Clarice França/Renata C B Lzz

– Milena Azevedo/Ju Loyola

– Katia Schittine/Fabiana Signorini

– Dane Taranha/Sueli Mendes

Catecismo de Mama Jellybean – Minha Vida no Convento “será uma das recompensas da campanha do financiamento coletivo. Além desse meu, terá ainda um escrito por Flávia Gasi e desenhado por Ursula Dorada e um escrito por Ana Recalde e desenhado por Mari Santtos, mas estes vocês encontrarão nas mesas delas – se o coven todo for aprovado na CCXP, vai ser um sonho!”

Gibi de Menininha
O Catecismo de Mama Jellybean vem aí! (Imagem: divulgação)

Gibi de Menininha Apresenta – A Princesa e as Flores – “escrito e desenhado por mim, este pode ser que tenha ou não, porque será uma meta estendida da campanha do Gibi de Menininha; é a história de uma princesa romena que se muda para uma vila em Florença, com sua amante norte-americana, em 1895. Essas duas mulheres existiram de verdade, mas minha história é apenas baseada no fato que achei o máximo essa premissa de duas mulheres se mudarem para Florença e uma delas, a romena, nunca ser vista em público de dia e sem véus! Não é biográfico, é terrorzinho aventuroso com umas putariazinhas aqui e ali.”

O Verão do Papa-Angu – Volume 1reunindo o prólogo e os capítulos 1 e 2, que estão na internet, e um terceiro capítulo, ainda inédito.

O Verão do Papa-Angu
Capítulo inédito de O Verão do Papa-Angu a caminho da CCXP (Imagem: reprodução)

Com tanta experiência nos mares da nona arte, Germana enxerga mais mudanças positivas do que negativas nessas águas, mas isso não quer dizer que navios-fantasmas deixaram de existir.

Hoje temos avanços maravilhosos por conta da internet: como enxergarmos que tem muita mulher fazendo quadrinhos e que não estamos sozinhas num universo que até então se achava ser majoritariamente masculino e, ainda, a popularização do feminismo não aplicado apenas num ambiente acadêmico ou entre uma suposta elite intelectual (falta chegar em muita gente ainda, mas já teve um avanço legal). Mas, por outro lado, ainda temos que brigar por questões que mulheres como Trina Robbins brigava nos anos 70”.

Germana Viana
Germana não foge da briga (Imagem: reprodução)

E para as meninas que não se sentem capazes de levantar a âncora e se aventurarem nos sete mares dos quadrinhos, Germana avisa às navegantes:

“o mesmo conselho que Amy Poehler deu dia desses para novas diretoras: não espere estar pronta para começar. Faça! “Ah, mas meu desenho…” faça, seu desenho vai melhorar eternamente, você estará com 89 anos e vai perceber que está melhor do que quando vocês estava com 88! “Mas meu roteiro…” escreva, estude, leia, mas FAÇA! Não existe estar pronto quando se trabalha com qualquer expressão artística, seja mainstream ou alternativa. Só faça!”.

Você pode acenar para o galeão da Germana e subir a bordo para bater um papo pelo Instagram @germana_viana_comics.


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Autora

Rafaella Rodinistzky é graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC Minas e atualmente cursa Edição na Faculdade de Letras da UFMG. Participou do "Zine XXX", contribuiu com a "Revista Farpa" e foi assistente de produção da "Faísca - Mercado Gráfico". Você tem um momento para ouvir a palavra dos fanzines?
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