Fernanda Young e a esquisitice que precisamos

Fernanda Young e a esquisitice que precisamos

Difícil descolar a figura de Fernanda Young do imaginário de quem cresceu no Brasil dos anos 90. De certa forma ela sempre esteve presente, seja pelo roteiro de “Comédia da vida privada” (1995), seja pelo consenso do que foi “Os Normais” (2001-2003). Ou por aquela vez que ela posou nua para a Playboy aos trinta e nove anos. Claro que sempre esteva implícito o fato de ela ser uma mulher muito bonita, tatuada e com um humor ácido. E então ela morre jovem demais aos quarenta e nove anos com uma parada respiratória em decorrência de uma crise de asma. A internet se reuniu para exaltá-la, e nesse momento como em muitos outros sensíveis vividos pelo Brasil, de alguma forma nos sentimos talvez um pouco mais próximas.

Fernanda Young
Fernanda Young. Imagem: reprodução

Mas quem era de fato Fernanda Young?

Na wikipedia, ela é apresentada como escritora, apresentadora, diretora e atriz. De fato, em sua jornada desde a Niterói dos anos 70, e da posterior descoberta na pré adolescência de sua dislexia, Fernanda fez muito. Foram 14 livros, participações como atriz ou apresentadora em 10 programas de TV, e roteirista de 16 shows. Fernanda também teve quatro filhos, as gêmeas Cecília Madonna e Estela May e os irmãos adotados Catarina Lakshimi e John Gopala. Apesar da imagem que era oferecida pelo mainstream como sendo uma mulher revoltada e fora dos padrões, Fernanda é descrita pelos amigos e familiares como uma mulher muito maternal e até mesmo doce.

Sua conta do twitter foi herdada por uma de suas primogênitas, Estela May, e ninguém melhor que ela para nos apresentar Fernanda. Após a morte de sua mãe, ela escreveu em sua conta do Instagram: “Mamãe era obcecada por chiclete bubbaloo (não só bubbaloo, balas em geral. os chicletes e balas mais barra pesada que cê (sic) pode imaginar). Era bilionária de ideias (boas, ruins, impossíveis). Tinha sempre um neosoro (julinho, para íntimos) no bolso. Falava inglês com um sotaque russo (e ficava brava quando a gente ria). Me ensinou disciplina.  Me ensinou que excentricidade é legal. Me ensinou seus truques pra sair bem em foto (por mais que eu ainda tenha que treinar). Me ensinou que biscoito maisena com uma camada fina de manteiga é a coisa mais deliciosa que existe. Me ensinou ética, higiene, gentileza. Me ensinou saudade. (…)” 

Fernanda Young com seus filhos
Fernanda com seus filhos. Imagem: reprodução

Ser criativa e exercer a performance da não doçura

No programa “Provocações” de 2006, ainda apresentando pelo também falecido Antônio Abujamra, podemos presenciar não somente sua inteligência, mas algo de uma timidez e fascínio ao ser entrevista por aquele homem. Ela já falava a mais de dez anos sobre a ideia de “cafonice”, assunto que retratou em seu último texto para a coluna do jornal O Globo.

Para Fernanda Young ser cafona não tinha nada a ver com a forma de se vestir, tinha a ver com a gentileza, o que não deixa de ser a forma mais altiva da beleza. Para ela, o Brasil já estava cafona há muito tempo, com sua imoralidade e falta de cuidado para com o nosso patrimônio público e cultural.

Além de fazer história em termos da dita opinião feminina, Fernanda Young também acabou atraindo muito ódio por suas ideias que eram fortes porque eram ditas por uma mulher que não aceitava o rótulo compulsório da agradabilidade.  E ela ainda era também uma mulher frágil, e conta que própria Marisa Orth falava sobre a necessidade de se criar uma couraça quando se é uma figura pública.

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Fernanda Young
Fernanda. Imagem: reprodução

Vani e as Fernandas

“Os Normais” foi uma série que transformou as possibilidades de se fazer humor no Brasil durante um tempo mais curto do que gostaríamos, de 2001 a 2003. Pelo forte apelo dos fãs, a série seguiu ainda em dois filmes “Os Normais: o filme” (2003), e “Os Normais 2: a noite mais maluca de todas” (2009). Fernanda Young escreveu a série com seu marido e parceiro recorrente,  Alexandre Machado, quem a incentivou desde o início na profissão de roteirista.

Boa parte do sucesso da série se deve a incrível química dos protagonistas Luis Fernando Guimarães (Rui), e Fernanda Torres (Vani), sob a direção geral José Alvarenga Jr. Tinha até um último bloco em todos os episódios em que os atores improvisavam uma cena, além da quebra da quarta parede que voltamos a ver recentemente na série britânica: Fleabag. Mas é inevitável pensarmos que a alma da série é a personagem interpretada por Fernanda Torres, Vanilce, completamente neurótica e adorável.

Existe aquela ideia de que tudo que mulheres criam é necessariamente auto-ficção ou autobiográfico, o que é extremamente limitante, da mesma forma que dizem que existe uma “literatura feminina”. Fernanda Young já concordava com essa questão em uma entrevista para a Revista Caras: “Eu sou biográfica o tempo inteiro, não há nada que não seja biográfico em mim (…)”.

É interessante pensar que um casal que esteve junto durante anos criou um casal fictício muito apaixonado e que não tinha nada do amor românticotantas vezes repetido na mesma emissora que os exibia. E mesmo que haja resquícios da antiga gordofobia e homofobia em “Os Normais“, ao revermos a série nos dias atuais ainda conseguimos nos divertir com o ridículo das situações cotidianas e sociais, reinterpretadas sob os olhos do casal.

Detalhes das relações amorosas, como a ansiedade de encontrar um outro casal para passar a noite de sábado, ou a dificuldade de decidir onde passar a véspera de Natal, são retratados neste clássico da TV. Mas para além de todas as questões do humor no início do séc. XXI, “Os Normais” mostra a trajetória de duas pessoas que estão em um relacionamento, mas seguem se interessando por outras pessoas, e que muitas vezes enjoam de conversar uma com a outra.

Os Normais
Cena de “Os Normais”. Imagem: reprodução

Para quem mais vamos olhar?

Em uma foto de sua casa em Gonçalves no interior de Minas Gerais, no dia 25 de agosto, algumas horas antes de sua morte, ela escreve: “Onde queres descanso, sou desejo“. Desde então estamos pensando nela e quando teremos uma figura pública parecida por aqui. Gostamos de olhar para a amizade que ela teve com a Rita Lee, outra brasileira admirável que agora é reclusa e feliz na sua casa com o seu marido e diversos animais. No programa “Irritando Fernanda Young”, também do GNT, fica claro o carinho e a similaridade entre essas duas mulheres “esquisitas” e adoráveis. Fernanda Young representa a esquisitice que precisamos nos tempos atuais.

Fernanda Young e Rita Lee
As amigas Fernanda e Rita. Imagem: Reprodução.

Edição realizada por Isabelle Simões.

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Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Formada em comunicação social, publicitária em atividade e estudante de Filosofia. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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