Watchmen -1×01: primeiras impressões da nova série da HBO

Watchmen -1×01: primeiras impressões da nova série da HBO

Em maio de 2018, em meio a especulações e dúvidas acerca do que se trataria uma adaptação televisiva com o nome de “Watchmen”, Damon Lindelof (“Lost”, “The Leftovers”), seu showrunner, publicou uma longa carta em seu perfil no Instagram, destacando seu profundo respeito pela emblemática obra em quadrinhos projetada por Alan Moore e David Gibbons em 1986, reconhecendo os entraves entre Moore, DC e Warner Bros. ao longo dos mais de trinta anos de publicação da graphic novel.

Definindo a vindoura série como um “remix” da trama original, Lindelof permite-se fazer um comentário que, embora não seja o principal ponto da carta, é suficientemente importante para que tome um parágrafo inteiro: a questão da representatividade feminina, racial e LGBT em “Watchmen”. Comenta-se sobre o empenho de fazer com que a série, sua estrutura e seus temas reflitam as angústias e questões de nossa década, ao mesmo tempo em que se preza pela fidelidade temática ao material de origem. Fala-se numa expansão dos horizontes da obra a partir da perspectiva das minorias políticas, e do comprometimento de honrar estas perspectivas tanto em frente, quanto atrás das câmeras.

Watchmen - Alan Moore e David Gibbons
“Watchmen”, quadrinho de Alan Moore e David Gibbons. (Imagem: reprodução)

Ainda é cedo para afirmar, com todas as letras, se “Watchmen”, a série de 2019 que ousa carregar o pesado nome da trama homônima (considerada um dos 100 Maiores Romances de Língua Inglesa, em lista publicada na revista Time), efetivamente cumpre com este juramento dúplice: honrar a mensagem original, ao mesmo tempo em que se compromete com os grupos marginalizados sutilmente negligenciados pela obra. Trata-se, contudo, de um começo certamente promissor.

Importante avisar que este texto contém spoilers do quadrinho original de Watchmen

Uma cidade racializada: a linha tênue entre realidade e ficção

Deixando claro a quem quer que ainda tivesse dúvidas sobre o “viés ideológico” desta adaptação (para o choro e ranger de dentes dos nerds puristas que provavelmente estacionaram na adaptação cinematográfica de 2009 e ali permaneceram), o episódio piloto de “Watchmen” nos situa em 1921, em Tulsa, Oklahoma, durante os massacres conhecidos como “Distúrbios raciais de Tulsa” (Tulsa Race Riots), promovidos por membros da Ku Klux Klan e demais grupos racistas.

Cena do piloto de “Watchmen”. (Imagem: HBO/reprodução)

A despeito do viés de “história alternativa” que “Watchmen” (HQ) comumente incorpora a partir do surgimento dos aventureiros vigilantes, a tragédia retratada de fato ocorreu, gerando a completa aniquilação do distrito de Greenwood, que abrigava a maior comunidade negra dos Estados Unidos até então. Duas crianças negras, um menino pequeno carregando um bebê, são quem nos guiam por estes primeiros minutos de tensão.

Corta para 2019. Ainda estamos em Tulsa e, ao que tudo indica, não sairemos de lá tão cedo. Quase cem anos após o massacre não fizeram muito para mudar o panorama racial do local. Policiais (especialmente policiais negros) são mortos a uma frequência absurdamente banal, de modo que os protetores da lei e da ordem agora ocupam o lugar outrora cativo dos vigilantes encapuzados. Utilizando-se de máscaras e codinomes, a polícia opera na escuridão. A principal ameaça? O grupo supremacista branco conhecido como a “Sétima Kavalaria”, que toma o vigilante falecido Rorschach como um mártir e modelo a ser seguido.

Grupo supremacista branco conhecido como a Sétima Kavalaria em "Watchmen", nova série da HBO
O grupo supremacista branco conhecido como a Sétima Kavalaria em “Watchmen”, nova série da HBO. (Imagem: reprodução)

Um 2019 pós Dr. Manhattan e companhia em “Watchmen”

Desde este início conturbado de “Watchmen”, já resta claro que a série se situa trinta e quatro anos após os acontecimentos do quadrinho. Sim, ocorreu o “ataque alienígena” em escala global projetado por Adrian Veidt, o Ozymandias. Sim, as entradas no diário de Rorschach detalhando o plano de Veidt foram publicadas pelo jornal de extrema-direita “New Frontiersman”. Nada disso, contudo, nos prepara para o profundo sentimento de estranheza deste 2019 pós-catástrofe-pós-Guerra-Fria que a série apresenta.

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Em uma de suas primeiras cenas, Angela Abar (Regina King) assiste, de dentro de seu carro, a uma tempestade de lulas chovendo no céu. Quando traz o filho de volta para casa após uma briga na escola, e o proíbe de assistir televisão como castigo, é que a estranheza se intensifica: onde estão os celulares, smartphones, tablets? Cal Abar (Yahya Abdul-Mateen II) chama a atenção da esposa por ter esquecido seu pager em casa.

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Regina King em "Watchmen", série da HBO
Regina King em “Watchmen”, série da HBO. (Imagem: reprodução)

Pagers? A despeito da enxurrada de referências ao quadrinho (desde os jargões de Rorschach repetidos pela Sétima Kavalaria, até os anúncios televisivos de uma espécie de “American Crime Story” envolvendo os Minutemen originais), é nestes detalhes mais sutis que entendemos os desdobramentos da trama original: o avanço técnico acelerado proporcionado por Dr. Manhattan no século XX é substituído por um desenvolvimento muito mais tímido, decorrente de um temor geral associado ao “ataque alienígena” e à associação entre a tecnologia de Manhattan e possíveis efeitos cancerígenos. Não há celulares ou computadores avançados em 2019, e não por acaso.

Seguimos não compreendendo muita coisa, além do fato de que Angela leva uma vida dupla como a policial mascarada “Sister Night”, que auxilia a polícia chefiada por Judd Crawford (Don Johnson) na localização e eliminação de possíveis células dos grupos da “Sétima Kavalaria”.

Watchmen - HBO
Cena de “Watchmen”. (Imagem: HBO/reprodução)

A despeito de pontuais referências à figura do próprio Dr. Manhattan (que, até então, permanece em seu exílio em Marte) e a uma longa aparição de Adrian Veidt (Jeremy Irons), resta claro que a série intenta expandir um dos aspectos mais ricos da graphic novel: as histórias dos seres humanos comuns, ordinários, que vivem diariamente as consequências de se coexistir em um mundo de vigilantes mascarados e uma entidade quase divina.

Invertem-se, portanto, os papéis. Enquanto que “Watchmen” (quadrinho) se debruça sobre os vigilantes e seus dilemas, construindo uma narrativa mais sutil no que tange às pessoas comuns, “Watchmen” (série) busca ampliar as bases desta narrativa. E o faz tendo discussões políticas e sociais relativas aos grupos minoritários como seu carro-chefe, doa a quem doer.

Promessas com o passado e comprometimentos com o futuro

No geral, deve-se esperar um pouco mais para ver no que tudo isso vai dar (embora talvez nem o próprio Moore tenha os colhões para criticar o retrato que a série faz de Rorschach, como o incel racista que sempre foi, após gerações de adolescentes brancos heterossexuais tratando-o como herói).

Supremacista branco com a máscara do Rorschach
Supremacista branco com a máscara do Rorschach. (Imagem: HBO/reprodução)

Para um primeiro episódio, contudo, a série deixa uma forte e peculiar impressão, seja em quem já conheça o universo da obra, ou para quem entra em contato pela primeira vez neste momento. Fiel à própria construção narrativa de Moore entre os capítulos de sua graphic novel, a série conta com materiais adicionais detalhando um pouco de sua realidade e dos acontecimentos situados entre o final do quadrinho e o início da série, organizados na chamada “Peteypedia”.

Também fiel à promessa de representatividade, a série conta com um elenco diverso e dois primeiros episódios dirigidos por Nicole Kassell (“The Woodsman”, “Vinyl”). Ao que tudo indica, talvez o material de origem não esteja assim tão batido e rebatido para ser revisitado.

Talvez, desta vez, as palavras ressoadas por Dr. Manhattan nos últimos capítulos façam algum sentido: nada nunca termina.


Edição realizada por Isabelle Simões.
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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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