Why Women Kill: traições, mortes e a importância do feminismo

Why Women Kill: traições, mortes e a importância do feminismo

Why Women Kill“, série de Marc Cherry, traz a história de três mulheres e seus respectivos casamentos, em épocas diferentes e, consequentemente, com costumes diferentes. Beth Ann (Ginnifer Goodwin) é casada com Rob Stanton (Sam Jaeger) em 1953, e é uma dona de casa dedicadíssima ao marido; Simone (Lucy Liu) é uma socialite que já se divorciou duas vezes e no momento é casada com Karl Grove (Jack Davenport), cuja história se passa em 1984; e Taylor (Kirby Howell-Baptiste) é bissexual e feminista, casada com Eli (Reid Scott), com quem tem um casamento aberto em 2019. A segunda temporada da série já foi confirmada e deve estrear em 2020. 

Why Women Kill” relata com clareza e sensibilidade os costumes de cada época, fazendo com que o público compreenda como é ser mulher em décadas muito distintas. Em 1953, era comum a mulher se dedicar exclusivamente ao marido e a família de maneira geral, abrindo mão de seus gostos e interesses pessoais caso o cônjuge os julgasse fúteis e sendo responsável por tudo o que acontecia com seus filhos. Já em 1984, com mais direitos conquistados, a mulher já não era colocada nesse tipo de posição de submissão e dedicação total à casa, embora os olhares para quem fosse divorciada eram sempre de preconceito e estigma. Em 2019, as relações afetivas tomam outra dimensão, sendo a poligamia melhor aceita, assim como a orientação sexual e a posição mais ativa da mulher na busca e conquista de seus direitos.

Why Women Kill
Beth Ann (Ginnifer Goodwin), Simone (Lucy Liu) e Taylor (Kirby Howell-Baptiste) são as protagonistas de “Why Women Kill”. (Imagem: Matthias Clamer/CBS)

Todos os relacionamentos retratados em “Why Women Kill” abordam algum problema comum, assim como a casa em que moram também é a mesma, passada entre as três gerações de casais. As semelhanças entre os conflitos são interessantes para mostrar como os homens continuam sendo socializados e ocupando a mesma posição de “macho-alfa”, galanteador e viril. A série mostra também como a reafirmação da masculinidade é feita apenas através da virilidade, como se não houvesse satisfação completa com suas esposas e os maridos precisassem de uma terceira pessoa.

A traição, problemática trazida em todas as épocas, é retratada principalmente como falta de confiança, portanto, mesmo em um casamento aberto, a noção de traição acaba sendo abordada da mesma forma em que os outros relacionamentos, já que consiste principalmente em quebra de confiança entre o casal. É a traição que motiva as principais reações das mulheres em “Why Women Kill“. 

AVISO: Contém spoilers da 1ª temporada da série

O casal de 1953 e a submissão feminina

Beth Ann (Ginnifer Goodwin) em cena de "Why Women Kill"
Beth Ann (Ginnifer Goodwin) em cena de “Why Women Kill”. (Imagem: reprodução)

Beth Ann é uma mulher comum dos anos 1950, socializada para servir ao lar e ao marido: está sempre bem vestida para agradar o marido, faz questão de preparar o jantar e deixá-lo à mesa quando o marido chega do trabalho. Além disso, é responsabilizada por tudo o que acontece com a filha. Ao não trabalhar fora de casa, sente-se honrada em servir o marido e é totalmente devota à ele. Portanto, na sua visão, é impossível que Rob a decepcionasse de alguma forma, pois ele jamais a trocaria por outra mulher, muito menos a trairia. 

Um belo dia, Beth Ann é açoitada pela informação de que seu marido estava a traindo. Por influência da vizinha, decide então confrontar a amante, mas acaba criando um laço afetivo com a garota, com quem passa a construir uma amizade. Beth Ann se passa por Sheila, e assim constrói e vive uma mentira para convencer April (Sadie Calvano) a largar seu marido, até que a jovem descobre que está grávida e decide abortar.

Beth Ann (Ginnifer Goodwin) encontrando-se com April (Sadie Calvano) em "Why Women Kill"
Beth Ann encontrando-se com April, a amante de seu marido. (Imagem: reprodução)

 

Na década de 1950, o abortamento seguro nos Estados Unidos não era um direito das mulheres (só foi legalizado no país em 1973), o que faz com que a personagem procure informalmente alguém que faça o serviço. Enquanto está na casa de alguém aguardando o procedimento ser feito na cozinha, April acaba desistindo por conta de Beth. É interessante e aflitivo pensar que no Brasil, nos dias de hoje, o aborto ainda é feito da mesma forma que foi nos anos 50 nos Estados Unidos: em clínicas clandestinas colocando a vida de mulheres pobres (principalmente negras) em risco.

Ao longo dos episódios, Beth Ann se afunda mais nessa mentira que, mesmo com os diversos ganhos secundários para a personagem, transforma sua vida em uma bagunça: quando pretende dizer ao marido que sabe de sua amante, acaba contando que está doente, o que faz com que Rob peça April em casamento, já que ela está grávida. Ou seja, toda a mentira para consertar seu casamento vai por água abaixo. 

Rob Stanton (Sam Jaeger) e Beth Ann em cena de "Why Women Kill"
Rob Stanton (Sam Jaeger) e Beth Ann em cena de “Why Women Kill”. Imagem: reprodução

Com todas as desconfianças em relação ao marido e a impossibilidade de reajustar a relação, Beth havia decidido sair de casa. De mala pronta, vai ao escritório do marido para avisar que está de partida e acaba descobrindo que nunca foi culpada do evento que mais se culpou ao longo da vida e que imaginava que tinha sido o começo do fim de seu casamento: a morte da filha.

A visão que tinha de seu marido como aquele homem bom, provedor, carinhoso, trabalhador é completamente transformada graças a ele mesmo. É com tanta repressão, subordinação e humilhação que Beth constrói um plano de homicídio. Sua história mostra como pequenas violências, durante muito tempo, acabam se tornando grandes monstros assombrosos, que exigem uma ação reativa para que a vida continue sustentável de alguma forma.

Os anos 1980 e as transformações sociais

Simone leva uma vida finíssima ao lado de Karl, seu terceiro marido. A série mostra o olhar preconceituoso que Simone recebia sempre que o assunto casamento vinha à tona. As fofocas se espalhavam rapidamente pela vizinhança e a socialite começa a suspeitar que seu marido está a traindo, quando mais tarde o flagra beijando seu antigo cabeleireiro. O fato de Karl ser homossexual desperta grande choque na maioria das pessoas que conviviam com o casal, retratando o enorme tabu acerca da sexualidade na época, mesmo já tendo grandes ícones pop que assumiram ser gays.

Com muitos atritos, o relacionamento dos dois pode ser considerado um proto-casamento aberto, uma vez que, ao invés de efetivarem o divórcio, escolhem que cada um pode ter seu respectivo namorado, decisão que inclusive melhora abruptamente o relacionamento dos dois.

A série também trabalha a relação afetiva entre idades distantes e como a mulher mais velha é sempre vista enquanto corruptora do homem, não importa o quanto ele diga que o interesse partiu dele, como é o caso de Simone e Tommy (Leo Howard), filho de sua melhor e mais chantagista amiga.

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Karl (Jack Devenport), Simone (Lucy Liu) e seu amante/namorado Tommy (Leo Howard) em um jantar
Karl (Jack Devenport), Simone (Lucy Liu) e seu amante/namorado Tommy (Leo Howard) em um jantar. Imagem: reprodução.

Outro tema abordado com maestria é a AIDS. No início dos anos 1980, a doença estava começando a ser estudada profundamente, mas ainda não se sabia ao certo como era transmitida, muito menos o tratamento: havia sido identificada em 1981, contudo o primeiro tratamento ocorreu em somente em 1987.

É emocionante acompanhar Karl na luta contra a doença, que faz com que ele perca amizades e inclusive seu sustento em decorrência do preconceito dos outros. O estigma vivido pelo homossexual soro positivo era desestruturador, acabava com seu convívio social e suas relações afetivas, além de estar na eminência da morte a todo instante. 

O casal revela que as bases do casamento vão além do sexo por si só, colocando em primeiro plano a parceria e o amor sincero que sentem um pelo outro, amor aqui representado como companheirismo e cumplicidade. Esse se mostrou o verdadeiro casal “até que a morte nos separe”.

“Why Women Kill” e o relacionamento nos tempos atuais

Taylor é uma mulher negra, ativista, bissexual, formada em direito e casada com Eli, um roteirista. Por anos, Taylor foi a provedora do lar devido ao bloqueio criativo do marido. O casamento inter-racial e a questão monetária, além da própria orientação sexual de Taylor, mostram como os relacionamentos passaram por transformações ao longo dos anos, deixando de ser tão opressor quanto em 1953.

Graças à inúmeras lutas feministas, as mulheres podem expressar sua sexualidade de forma aberta, podem ter uma formação e se dedicar ao trabalho, assim como manter as despesas da casa em dia com o próprio salário, conquistando independência financeira em relação ao marido.

O relacionamento aberto pode até significar, para algumas pessoas, uma libertação da monogamia relacionada ao patriarcado e ao domínio dos homens, mas mesmo dentro desse tipo de relacionamento podem haver traições e decepções. O casamento de Taylor e Eli possuí acordos que devem ser respeitados por ambas as partes para que a instituição funcione, quando esses acordos não são seguidos, também pode-se caracterizar traição.  

Um rompimento de acordo é o que acontece quando Jade (Alexandra Daddario) é inserida na vida do casal: enquanto se relacionava casualmente com Taylor, estava tudo dentro dos acordos dos casamento, mas quando passa a morar com os dois, paixões e segundas intenções acabam pesando a relação, que quase ruí de vez quando Eli tem uma recaída. 

Taylor (Kirby Howell-Baptiste), Eli (Reid Scott) e Jade (Alexandra Daddario) - o relacionamento nos tempos atuais
Taylor (Kirby Howell-Baptiste), Eli (Reid Scott) e Jade (Alexandra Daddario) quando passam a morar todos juntos. Imagem: reprodução.

Partindo da perspectiva histórica de mudanças sociais, a narrativa de “Why Women Kill” faz refletir sobre como o feminismo é necessário na vida de todas as mulheres, principalmente para que assumam seus papéis independentes de qualquer fator externo aos seus desejos, seja um homem ou uma socialização que as ensine submissão e cuidado da prole desde muito novas. A posição do homem também pode ser amplamente discutida a partir da série, retratando desde o mais dependente e opressor ao homossexual não assumido por questões sociais, além do homem que compreende ser importante respeitar a sexualidade de sua parceira e não a manter apenas numa relação heteronormativa. 


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
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