Grey’s Anatomy: a importância de Callie Torres na representatividade bissexual

Grey’s Anatomy: a importância de Callie Torres na representatividade bissexual

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A série Grey’s Anatomy possui uma gama diversificada de personagens, bem como um enredo dramático que proporciona à sua audiência várias emoções. A nível de representatividade, a autora da série sempre apresenta ao seu público histórias que criam empatia e que também possam tirar o fôlego da telespectadora. Calliope Iphegenia “Callie” Torres é uma personagem que representa diversidade dentre quase todos os aspectos de sua existência.

Callie Torres (Sara Ramirez), como é conhecida no Seattle Grace Hospital, atua na área ortopédica, vem de uma família rica do sul da Flórida, tem descendência latina e é bissexual. A personagem é um agregado de diversidade complexa que merece uma análise justa. Além de ser latina e bissexual, a personagem não tem o corpo midiático, colocando a querida médica em um ponto delicado, em se tratando de representatividade.

AVISO: O texto contém spoilers a seguir

A princípio, devemos situar que a primeira aparição de Callie Torres foi em 2006, e que sua bissexualidade não foi evidenciada logo de cara. No início, Callie era residente em ortopedia e estava interessada em George O’Malley (T.R. Knight). A entrada de Torres no seriado e seu relacionamento com O’Malley, demonstra como o Seattle Grace Hospital se assemelha à um high school tradicional de ficção norte-americana, com a tríade de garotas más sendo Meredith, Izzy e Cristina.

Callie Torres

Com tempo, as meninas malvadas de Seattle aprendem a aceitar a colega da ortopedia, e o relacionamento de Torres com O’Malley transformou em um casamento que teve fim após George trair Torres, com ninguém menos que Izzie (Katherine Heigl). O relacionamento do casal era um tanto quanto esquisito e forçado, devido aos segredos de Torres, que vinha de uma família rica e ainda assim morava no porão do Hospital. Muitos diriam que o casamento de Torres foi, de certa forma, um relacionamento abusivo, dado ao fato de que George permitia demasiada intervenção de suas amizades em seu relacionamento, bem como não respeitava a privacidade do casal, contando quase tudo para Izzie.

Não é de se esperar que ambos se separassem. Muitos segredos foram guardados, intervenções desnecessárias, e uma certa imaturidade na forma de se relacionarem, além da rivalidade criada entre mulheres. Mas a evolução da personagem em si demonstra a telespectadora que pessoas podem mudar, portanto a evolução de Torres de uma menina para uma mulher é um tanto escancarada.

Descobrir-se sexualmente no ambiente de trabalho

Todos os fãs de Grey’s Anatomy sabem muito bem que todo personagem da série já teve alguma experiência sexual no ambiente de trabalho, o que, infelizmente, romantiza o ato sexual em lugar público. Contudo, Callie possui uma experiência um pouco diferente das demais personagens. Inicialmente, após seu divórcio, Callie conhece Erica Hahn (Brooke Smith), a nova chefe do hospital de cirurgia cardiotorácica. Elas se tornam grandes amigas e passam a se identificar com a falta de habilidade sociais uma da outra. Um triângulo envolvendo as duas se torna óbvio quando Torres, para abafar de forma inconsciente sua atração por Hahn, começa a se envolver apenas sexualmente com Sloan (Eric Dane).

Callie Torres

Assim, o desenvolvimento do relacionamento das duas muda, quando dentro de um elevador Erica beija Torres com intuito de provocar Sloan. O casal lésbico de Grey’s Anatomy dura pouco tempo devido a outra traição. Desta vez, Callie trai sua primeira namorada com Sloan. Essa dinâmica de traições em Grey’s Anatomy demonstra como a autora usa o recurso para causar drama e deixar a audiência perplexa. Infelizmente, no caso de Callie, o recurso é falho. Por ser bissexual e trair, não uma, mas duas namoradas com o mesmo homem,tal fato cria uma certa imagem de que bissexuais são indecisos.

A representatividade de Callie Torres dentro da comunidade LGBTQIA+ tem muitos furos. A principio, seu relacionamento com Erica é novo, ela está se descobrindo novamente no âmbito sexual, proporcionando a centenas de pessoas que não entendem essa atração, a capacidade de poder se sentir confortável ao ver que não é um bicho de sete cabeças. Entretanto, o relacionamento de Callie com Robbins é desconfortável de assistir.

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O casamento de Callie e Arizona

Callie Torres

É importante salientar que o casal lésbico de Grey’s Anatomy é importante sim e que a representatividade do mesmo existe. Portanto, como trata-se de um casal homossexual criado por uma pessoa hétero, em um ambiente fictício e com viés dramático, essa representação tem suas falhas. A primeira falha do relacionamento de Arizona (Jessica Capshaw) e Callie é o desinteresse de estarem juntas diante das diversidades, como, por exemplo, a mudança repentina do caminho profissional oferecida a Robbins, que  foi um recurso reutilizado pela autora na saída de Callie da série.

Em seguida, Torres engravida e novamente o triângulo com Mark Sloan é criado, dessa vez, com a pediatra. A sensação é que em um relacionamento de uma bissexual e uma lésbica sempre tem de haver um homem hétero no meio, é uma sensação muito desconfortável e uma falha na representatividade da comunidade bissexual. A gravidez é um plot tão mal construído, que pouco tempo depois Sloan morre em um acidente de avião.

Torres e Robbins se casam, tem uma filha, vivem suas adversidades, separam-se, reatam-se, sempre em um vai e volta inoportuno, por mais que queiram estar juntas, não conseguem se comprometer o suficiente para fazer o relacionamento aflorar. A sensação transmitida pela narrativa de Callie Torres é de que ela é uma mulher forte, determinada, que consegue viver a sua própria vida de uma maneira genuína,  e que ao longo da sua história desenvolveu uma capacidade de ser ela mesma, mas que deixa audiência na dúvida.

Callie Torres é realmente dona do próprio nariz e age abertamente em relação a sua sexualidade, ou ela age de forma imprudente por ser bissexual? A problemática que envolve Callie não é o fato dela ter uma orientação sexual diferente da heterossexual, a problemática é a estereotipização da bissexual como indecisa, que não sabe o que quer e, por isso, quando em busca de refúgio, sempre procura algo fora do relacionamento.

Mesmo de forma estereotipada – e talvez a utilização de uma personagem bissexual tenha sido para não criar tanta polêmica nos primórdios da narrativa de Callie -, nada muda o fato de que histórias como a de Callie Torres são importantíssimas para a representatividade na cultura pop, não só em questões de poder proporcionar diálogo e acolhimento aos que se conectam com a personagem, mas bem como permitir que falhas e erros sejam devidamente corrigidos no futuro, para que a representatividade se torne cada vez mais ativa e melhor na produção de seriados, filmes e livros.

Autora convidada: Marina Furtado é mineira, estudante Letras, um pouco geek, e precisava escrever para manter a insanidade intacta. Passa a maior parte do tempo criando mundos imaginários, desenvolvendo teorias mirabolantes e sendo terapeuta de personagens fictícios.

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