Watchmen – 1×09: See How They Fly

Watchmen – 1×09: See How They Fly

Nove episódios depois, a série da HBO baseada na homônima graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons chega a seu derradeiro fim. Sem deixar a desejar para todo o caminho traçado até agora, o nono e último episódio de Watchmen, “See how they fly”, fecha pontas soltas e soluciona conflitos, mas não sem abrir novos questionamentos e intrigar sua audiência com um último mistério.

AVISO: o texto contém spoilers do nono episódio de “Watchmen”

“Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!”

See how they fly
Bian (Elyse Dinh) em Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

2 de novembro de 1985. Em sua fortaleza de Karnak, na Antártida, Adrian Veidt (Jeremy Irons) grava a fita a ser entregue ao futuro presidente Redford, e não nota quando Bian (Elyse Dinh), uma auxiliar de serviços gerais, adentra o escritório principal do local, acessando as amostras do sêmen de Veidt estocadas por trás de um gigantesco quadro de Alexandre, o Grande no centro do aposento. Recitando as palavras atribuídas a Bà Triêu, a guerreira vietnamita do século III, Bian se insemina com o material do patrão e foge para a sua terra natal.

Anos depois, em 2008, Lady Trieu (Hong Chau) caminha rumo a Karnak. Veidt inicialmente recusa a entrada, mas Trieu reconhece seu ego e logo o parabeniza por ter matado mais de três milhões de pessoas e, por consequência, salvo a humanidade em 1985, o que é suficiente para chamar a atenção do velho Ozymandias.

Uma vez dentro do complexo, contudo, Trieu aponta: programando as ocasionais chuvas de lulas para manter as aparências, Veidt tem executado o mesmo plano há mais de vinte anos. Genial como tenha soado à época, talvez já não seja suficiente. É necessária uma nova estratégia. Assim, a mulher mais inteligente do mundo não apenas revela ser sua filha biológica, como também conhecer da localização de Dr. Manhattan (Yahya Abdul-Mateen II) em Europa, tudo isso para expôr seu próprio plano ousado: matar e absorver os poderes da entidade para si, e assim resolver definitivamente os problemas da humanidade.

Adrian Veidt (Jeremy Irons) e Lady Trieu (Hong Chau) em Watchmen
Adrian Veidt (Jeremy Irons) e Lady Trieu (Hong Chau) em Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Trieu conta que construiu um satélite que deverá orbitar em torno da lua de Júpiter dali a quatro anos, fotografando a superfície do local, e confirmando o paradeiro de Jon Osterman. Embora tenha projetado o mecanismo necessário para a absorção de seu poder, ela não possui os meios de executar o plano, o que leva à sua visita: ela pede que o pai a auxilie financeiramente. A resposta é um sonoro “não”.

Descobrimos, no entanto, que a visita de Trieu ganha uma nova luz diante do exílio de Veidt. Momentaneamente abrindo mão de seu orgulho, o ex-vigilante se aproveitou da informação da visionária a respeito do satélite para criar o chamado de socorro com a pilha de corpos mostrada no quinto episódio. A frase é mostrada por completo como “Save me daughter” (“Salve-me, filha”), uma concessão feita por Adrian após ter dito enfaticamente que jamais trataria Trieu como sua prole.

O chamado é atendido anos depois. Observamos o sétimo e último ano da estada de Veidt em Europa, aguardando o resgate da trilionária, que não tarda a chegar. Após um breve embate com o Guarda Florestal — que se revela, na verdade, fiel serviçal tornado oponente com o objetivo de entretenimento –, o ex-vigilante embarca na nave, que o conserva durante a viagem com um material que o assemelha a uma estátua dourada.

Adrian Veidt, afinal, está entre nós desde o quarto episódio, como a estátua mantida no vivarium de Trieu que Laurie Blake (Jean Smart) e Angela Abar (Regina King) visitam. Retomando ao tempo presente, Veidt é “descongelado” de seu estado para testemunhar a consecução do plano da filha.

Os últimos instantes antes do derradeiro fim, em Watchmen

Watchmen 1×09 - crítica com spoilers
Cena de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

É notável a diferença deste último capítulo dos demais presenciados até então. O ritmo frenético, com pouquíssimas digressões à exceção do início, segue em uma linha reta, sem interrupções ou tramas paralelas, em um único plano de ação.

Junto com Laurie Blake e Wade Tillman (Tim Blake Nelson) — que se infiltrara entre as fileiras da Kavalaria –, escutamos a fala do senador Joe Keene (James Wolk) antes de replicar o acidente termonuclear que criou Manhattan. A despeito dos trejeitos cômicos e cartunescos, o discurso de Keene frente à alta cúpula dos Ciclopes é perigosamente similar à fala racista e reacionária tão frequente nos últimos anos.

Ao tratar com desprezo a gestão Redford, o senador acusa-o de tê-los obrigado a “pedir desculpas” por crimes que, em sua visão, nem ele e tampouco seus companheiros cometeram. Afinal, que culpa teriam eles de nascerem brancos? Não teriam sofrido de uma tremenda injustiça ao se verem obrigados a tomar parte na reparação histórica dos danos sofridos pela população negra nos Estados Unidos? Antes que Keene continue, Angela Abar surge para avisar dos planos de Trieu e tentar impedir que tomem curso, mas é inútil. Logo o supremacista branco adentra a câmara na qual se sucederá a transformação.

É quando Trieu surge, juntamente com sua filha/mãe Bian (Jolie Hoang-Rappaport) e Veidt, que servem como plateia à exposição da mulher mais inteligente do mundo. Abrindo a escotilha da câmara, revelando uma massa de sangue no lugar de Keene, Lady Trieu lê um texto escrito por Will Reeves (Louis Gossett Jr.), apontando as atrocidades genocidas cometidas pelos Ciclopes contra a população afro-americana. Sem hesitar, Trieu desintegra todos os membros do culto racista ali presentes.

Dr. Manhattan em Watchmen
Dr. Manhattan em Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Em meio a tudo isso, Jon Osterman não deseja estar sozinho ao morrer, um importante eco à sua primeira morte, em 1959, descrita na graphic novel. Na ocasião, o cientista pede à então namorada e colega de trabalho, Janey Slater, para que fique com ele enquanto se desintegra, e ela se recusa, incapaz de testemunhar.

Em 2019, é Angela quem se recusa a se afastar. Em sua segunda morte, Jon não está mais só. A policial o pergunta onde está naquele momento, no que a entidade responde que está em todos os momentos vividos pelos dois até então. “Eu te amo”, diz antes de desaparecer para sempre.

Teletransportado por Manhattan para Karnak, Veidt programa para que as lulas, que normalmente chovem sem grandes efeitos colaterais, se congelem e despenquem em Tulsa, arruinando o Relógio do Milênio no qual Trieu se posiciona para absorver os poderes de Manhattan. A máquina é completamente destruída, soterrando a magnata no processo.

Reconexão dos elos perdidos e a herança ancestral em Watchmen

Watchmen 1×09 - crítica com spoilers
Cena de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Abar corre até o teatro no centro da cidade para se abrigar da chuva. Mais cedo, Jon teleportara os filhos até lá para junto de Will Reeves. Ao entrar, encontra as crianças dormindo, e o avô no exato lugar em que estiver há quase cem anos, antes do massacre de Greenwood. Tendo vivido na pele todo o sofrimento de Reeves, a policial está pronta para aceitar suas raízes.

Há uma atmosfera de reconciliação — Angela entra em termos com sua ancestralidade, tanto quanto Reeves parece finalmente estar em paz consigo mesmo e com todas as dores que vivenciou. Perguntada sobre o que sentiu ao vestir o manto de Justiça Encapuzada sob o efeito da Nostalgia, Angela não hesita: “Raiva”. Meio século depois, Reeves confessa que, na verdade, sentira um profundo medo. Máscaras cobrem feridas, ele entende. “Mas feridas precisam de ar”, complementa, ou jamais se cicatrizarão.

Sua noção de vigilantismo complementa duas outras expostas na série. Retomamos à ideia de que máscaras escondem traumas. Neste episódio final, Adrian Veidt afirma ao Guarda Florestal que “máscaras fazem homens cruéis”. Não são noções divorciadas entre si, mas aspectos diferentes de um mesmo estigma: uma vez oculto por um disfarce ou persona, o vigilante pode realizar toda a sorte de atos cruéis que hesitaria em cometer com a face exposta; grande parte destes atos por sua vez, é motivada por questões mal resolvidas do passado que necessitam ser encaradas de frente e expostas.

>> De Watchmen a Sintonia: as melhores séries de 2019
>> De “Fruits Basket” a “Carole e Tuesday”: os Melhores Animes de 2019
>> De Agnès Varda a Patty Jenkins: os melhores filmes dos últimos 20 anos dirigidos por mulheres

Evitar dar nome aos fantasmas só os torna mais fortes, e evita que as feridas ocultas efetivamente cicatrizem, gerando uma nova onda de traumas e crueldades. Não por acaso, o universo de Watchmen possui vários exemplos de vigilantismo perpassado pela lógica geracional: além da relação entre Reeves e Abar, o quadrinho original ainda trouxe o drama de Sally Jupiter, Edward Blake e Laurie Juspeczyk/Blake. Aliás, é a própria Laurie que levanta a questão traumática em sua visão do vigilantismo.

No ato de se tornar aventureiro mascarado, um indivíduo paga o preço de multiplicar a dor que julga combater ao assumir uma persona heroica. O preço de Reeves é a perda de sua identidade e de seus laços familiares, resultando no afastamento da esposa e do filho. Assim, o maior ato de resistência do ex-vigilante, diante de uma América profundamente envenenada pelo pecado original do racismo institucional, é se reconectar com seus elos familiares e dar continuidade ao seu legado através da neta.

O retrato de Lady Trieu: a que monta tempestades e mata tubarões no mar aberto

Cena de Watchmen (Imagem: HBO / reprodução)

Se há um único defeito no final, este defeito é o desenvolvimento um tanto quanto apressado de Trieu e de suas motivações para pôr seu plano em ação, algo que o showrunner Damon Lindelof já admitiu em algumas ocasiões, e não é difícil entender o porquê. Em resenhas anteriores, comentamos sobre o potencial anti-colonialista da personagem, tendo em vista o impacto da conquista norte-americana do Vietnã para o universo da trama. O próprio desprezo da Bian original por Veidt, bem como as próprias reminiscências da jovem Bian da destruição de seu povoado, pareciam indicar este caminho.

Neste último capítulo da série, que deveria sedimentar seu lugar como vilã, motivar suas ações como apenas narcisismo (nas palavras de Veidt) parece um tanto raso. Pois mesmo que compartilhem da mesma megalomania, Lady Trieu e Adrian Veidt partem de locais sociais e culturais distintos. Este, de origem alemã, conquistou seu império vindo “do absoluto nada”, exceto pela manutenção de seus privilégios sexuais e raciais; ademais, apropria-se da iconografia de Alexandre, o Grande — uma figura da história ocidental símbolo da sujeição dos povos mais fracos aos mais fortes — como modelo de vida. Trieu, por outro lado, é criada no Vietnã, tendo a guerreira que lhe empresta o nome como modelo — símbolo da libertação vietnamita da dominação chinesa no século III. Portanto, “Lady Trieu” é um nome tão evocativo quanto “Ozymandias” (o nome grego do faraó Ramsés II).

Segundo sua visão de mundo, Trieu quer livrar a Terra de toda e qualquer dominação. É esta herança histórica, junto ao citado narcisismo, que a faz crer ser capaz de mudar o mundo com os poderes de Manhattan. E, embora a mensagem final seja a de que aqueles que almejam o poder de um deus são os que jamais devem obtê-lo (em consonância com as questões de vigilantismo e autoritarismo já discutidas até agora), tratar das origens e motivações de Trieu lhe conferiria mais profundidade, e tornaria seu final ainda mais dramático.

A juíza de toda a Terra

As luzes azuis refletidas em Angela Abar no pôster de Watchmen! <3 (Imagem: HBO / reprodução)

A última cena, na qual Abar engole um ovo deixado por Manhattan na noite anterior e arrisca caminhar sobre as águas, é de um potencial gigantesco. A entidade já dissera ser capaz de transferir seus poderes a outra pessoa, e o simbolismo do ovo estivera presente por toda a temporada. Entender este potencial, portanto, muito mais tem a ver com a jornada traçada por Angela até aquele momento, que efetivamente saber se a policial afundou ou não (e, ao que tudo indica, não afundou).

Cena do piloto de “Watchmen”.

Considerando o que era capaz de fazer, ele poderia ter feito mais”, diz Will Reeves ao se referir a Dr. Manhattan. Ambos sabiam que Angela era capaz de fazer mais: mais que Jon, que passara anos como um mero fantoche do tempo e do espaço, sem tomar ação; mais que Reeves, que, sozinho, não poderia fazer frente às estruturas do racismo. Tendo feito as pazes consigo mesma, com seu passado e suas origens, Abar não deseja se tornar uma deusa, mas se aproximar de seu amado.

Em entrevista a IGN, Regina King entende a decisão da policial como uma forma de manter Jon Osterman perto de si de alguma forma. Assim, que tipo de Dra. Manhattan ela poderia ser? De maneira precisa, a trama se encerra neste ponto.

O legado de Watchmen para a década

Entre protestos de nerds reacionários, piadas e memes racistas com a aparência de Dr. Manhattan (uma confirmação de tudo aquilo que a obra intentou denunciar), Watchmen se firmou como uma série que captou as perturbações da década, traduzindo-nas em um trabalho que honra e subverte o material de origem, além de provocar o incômodo político necessário àqueles que ainda negam as origens genocidas e colonialistas, não apenas dos Estados Unidos, como da cultura ocidental moderna de um modo geral.

Arte de Butcher Billy. (Imagem: reprodução)

Ao longo de nove episódios, a série da HBO não hesitou em transpor os conflitos raciais e as instituições racistas que os permeiam, expondo as lacunas do não-dito no quadrinho original, e ousando não apenas intensificar sua mensagem antifascista, como também expor as lacunas da graphic novel, culminando em um final tão inequívoco quanto provocativo em suas implicações. O resultado é uma obra-prima que, em diversos aspectos, ultrapassa a HQ em sua ousadia, e retira as espectadoras de sua zona de conforto, deixando um recado muito claro: não apenas nada nunca termina, como está apenas começando.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

20 Textos

Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
Todos os textos
Follow Me :