Watchmen – 1×04: If You Don’t Like My Story, Write Your Own

Watchmen – 1×04: If You Don’t Like My Story, Write Your Own

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Introduzindo novas peças ao intrincado quebra-cabeça que a série de “Watchmen” tem se tornado a cada semana, o episódio 4, “If you don’t like my story, write your own”, nos apresenta a uma personagem que, se ainda não tinha dado as caras, certamente já lançava pistas de sua presença. Lady Trieu (Hong Chau) é a trilionária vietnamita que adquiriu as empresas de Adrian Veidt (Jeremy Irons) após seu desaparecimento. Sua entrada, logo no início do capítulo, é enervante e fulminante, para dizer o mínimo, e lança as bases do que a personagem representará no universo da série.

No quarto episódio da série da HBO, acompanhamos um dia na vida de um pacato casal de fazendeiros na zona rural de Tulsa. É madrugada quando o senhor e a senhora Clark escutam o tocar da campainha, tentando compreender que tipo de pessoa apareceria por ali naquele horário. Quem está na porta é Trieu.

AVISO: o texto contém spoilers do quarto episódio de “Watchmen”

Interessada no terreno do casal, a mulher saca uma ampulheta e contabiliza três minutos para que os Clark decidam se abrem mão da propriedade ou não; para completar a barganha, a magnata (que detém empresas de manipulação genética) tomou a liberdade de gerar um bebê biologicamente pertencente ao casal, tendo em vista o histórico de esterilidade da esposa e as tentativas infrutíferas de engravidar. A criança, e todo dinheiro destinado aos gastos com sua educação, será dos Clark, desde que aceitem a proposta. Em cirúrgicos três minutos de negociação (em uma cena de prender a respiração), o casal aceita.

Uma presença silenciosa em “Watchmen”

Lady Trieu (Hong Chau) em Watchmen
Lady Trieu (Hong Chau) em “Watchmen”. (Imagem: HBO / reprodução)

O fato de que Lady Trieu poderia passar a qualquer hora do dia, mas escolhera a madrugada, ou de que projetou um bebê especialmente para a barganha, diz muito sobre a personagem. Em poucos minutos de tela, podemos compreender o tipo de calculismo necessário à detentora dos conglomerados industriais de Veidt, e até onde é capaz de ir se deseja algo.

Trieu já era uma constante disfarçada nos episódios anteriores: sua filha, Bian (Jolie Hoang-Rappaport), aparece comprando exemplares da revista Nova Express no episódio 2; seu nome está impresso nas cabines telefônicas conectadas a Marte que Laurie Blake (Jean Smart) tanto frequenta; e o agente especial Dale Petey (Dustin Ingram) cita suas palavras quando na inauguração do Relógio do Milênio em Tulsa – ironicamente, um trecho do poema “Ozymandias”, de Percy Shelley.

Embora não seja necessariamente um episódio temático centrado em uma personagem específica como o anterior, o capítulo desta semana certamente se debruça sobre o mistério e as intenções de Trieu em Tulsa, e suas relações com tudo de estranho que tem ocorrido na cidade desde o assassinato de Judd Crawford (Don Johnson).

Angela Abar (Regina King) em Watchmen
Angela Abar (Regina King) no quarto episódio de “Watchmen”. (Imagem: HBO / reprodução)

Definitivamente instalada na cidade para a investigação (assumindo o posto de chefe de polícia), Laurie Blake (Jean Smart) descobre que o mecanismo utilizado para içar o carro de Angela Abar (Regina King) é viável apenas por intermédio de aparelhos das indústrias de Trieu.

Sob o pretexto de investigar quem teria levado o carro de Abar, a policial mascarada e a agente do FBI decidem questionar a trilionária em sua sede na cidade. Trieu convida as duas para seus aposentos particulares, revelando a Angela que possui ligação com Will Reeves (Louis Gossett Jr.), inquirindo-a acerca do vidro de pílulas deixado pelo idoso no porta-luvas do carro.

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O quarto episódio termina plantando novas dúvidas, muito mais que alimentando respostas, na medida em que nos é confirmado que Trieu e Reeves não apenas estão ligados entre si, mas colaboram conjuntamente para um plano misterioso prestes a se desvelar para o mundo em três dias.

A prisão misteriosa de Ozymandias

Claro que o “Watchmen” reserva ainda alguns minutos para as desventuras de Adrian Veidt. Descobrimos de onde vêm os diversos clones humanos utilizados por Veidt – em uma cena tão bizarra quanto curiosamente cômica, o milionário pesca bebês cabeçudos em uma espécie de pântano; retorna à sua mansão e induz o crescimento de dois deles através de uma máquina. Saem dela os novos sr. Phillips e sra. Crookshanks, para quem Veidt adverte que, embora seja o mestre de ambos, está bem longe de ser o criador. Depreende-se, portanto, que os clones não foram projetados por Ozymandias, mas fazem parte do exílio.

Adrian Veidt (Jeremy Irons) em "If you don’t like my story, write your own"
Adrian Veidt (Jeremy Irons) no episódio “If you don’t like my story, write your own”. (Imagem: HBO / reprodução)

Também fica subentendido que Adrian Veidt não está na Terra (ou, ao menos em condições normais da Terra), quando este catapulta os cadáveres dos clones mortos em direção ao céu e os observa desaparecer. Para além deste indício, também circula a teoria de que cada retrato do cotidiano do homem nos episódios equivale a um ano no local – o que parece coincidir com a fala do ex-vigilante de que reside ali há quatro anos. Se este é realmente o caso, não nos resta escolha senão esperar os próximos capítulos da série.

Se não gosta da história dos vencedores, escreva a sua própria

Para além de apresentá-la como uma personagem a quem se deve temer, a série ainda abre possibilidades diferentes para que enxerguemos Lady Trieu. Muito já foi comentado nas análises anteriores sobre como, ao longo de seus episódios, “Watchmen” tem tecido uma narrativa contundente acerca de grupos marginalizados. Se “Watchmen” (o quadrinho) se debruçava sobre os “vencedores”, “Watchmen” (a série) é explicitamente sobre os grupos “vencidos” na lógica neoliberal e colonialista norte-americana, para além de englobar as vozes ignoradas do quadrinho.

Dito isto, o papel de Trieu no universo da trama toma novos ares quando compreendemos as origens de seu nome em uma guerreira do Vietnã, a Lady Trieu original conhecida como “Trieu Thi Trinh”. Nascida no século III d.C., Trieu foi responsável pela articulação da resistência de seu povo contra a invasão do Estado chinês de Wu Oriental, que intentava ocupar o território que futuramente se tornaria o Vietnã. Chamada de “Joana D’Arc vietnamita”, Lady Trieu é muito mais que uma heroína nacional, mas sim um símbolo de resistência às forças externas.

Cena do quarto episódio de Watchmen
Cena do quarto episódio de “Watchmen”. (Imagem: HBO / reprodução)

De tal forma que há todo um peso simbólico quando a filha da trilionária, Bian, acorda de um pesadelo e corre para relatar à mãe, ao fim do episódio: homens invadiram e queimaram o vilarejo em que morava, forçando-a (junto com os demais moradores) a caminhar para longe. Em meio à angústia, Bian confessa que ainda sente seus pés doerem, mesmo que a situação toda não passasse de um sonho.

Em se tratando de uma série baseada em um quadrinho no qual a vitória dos EUA na Guerra do Vietnã possui um papel crucial para todos os acontecimentos do futuro, e tendo em mente o significado político do nome de Lady Trieu, não deveríamos ignorar as implicações deste sonho. Na graphic novel, acompanhamos algumas das memórias da experiência de Dr. Manhattan e do Comediante no Vietnã. Enquanto a entidade elimina seus inimigos com a mais calma indiferença, Edward Blake se deleita em queimar vilarejos e assassinar quem quer que seja. É angustiante a cena em que o vigilante assassina uma mulher vietnamita grávida com quem teve um caso no local, não desejando assumir a criança.

Diante deste pano de fundo, é notável como os acontecimentos trágicos da guerra que levaram à anexação do Vietnã como o 51º Estado americano são meramente reconhecidos por Manhattan (o vencedor) e logo ignorados pelo resto da obra, salvo por suas implicações geopolíticas. O que Lady Trieu e e Bian parecem nos mostrar, no entanto, é que ainda há uma história prestes a ser contada.

Como parte do projeto narrativo da série, extensivamente comentado por aqui em que pese a representação das minorias políticas, as maquinações e planos da magnata parecem possuir uma dimensão simbólica própria. Fazendo jus ao nome do episódio, Lady Trieu parece estar escrevendo sua própria narrativa, em contraposição àquela que já presenciamos.

Você vai se lembrar de mim, você vai se lembrar do meu povo”, é o que diz a ex-amante vietnamita de Edward Blake antes de ser assassinada. Trinta anos depois da história idealizada por Alan Moore e David Gibbons, estas palavras nunca pareceram tão proféticas.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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