Valéria: a complexidade dos relacionamentos modernos na série da Netflix

Valéria: a complexidade dos relacionamentos modernos na série da Netflix

Quatro amigas em uma cidade grande, envolvidas por relacionamentos complexos. De fato, o formato de “Valéria“, série espanhola da Netflix, não é uma grande novidade. Já vimos esse formato em Sex and The City, por exemplo. E como ponto em comum, também uma protagonista confusa, envolvida por relações heteronormativas complicadas e questionáveis, e com a escrita como meio de escape. Contudo, separadas por mais de 1 década, Valéria traz contextos contemporâneos, inclusive com discussões sobre o feminismo. E mais do que isso, apresenta personagens que já não encantam por um estilo de vida invejável na Big Apple, mas por sua capacidade de despertar identificação, diante de problemas tão comuns na sociedade.

Diana Gómez, Silma López, Teresa Riott, e Paula Malia em "Valéria" (2020)
Diana Gómez, Silma López, Teresa Riott, e Paula Malia em “Valéria”. Imagem: divulgação

AVISO: O texto abaixo contém spoilers da série

Valéria, série da Netflix: a naturalidade das relações contemporâneas e dos contextos das mulheres na sociedade

A protagonista Valéria (interpretada por Diana Gómez) é quem dá nome a série. Pela sinopse de Valéria, descobre-se que se trata de uma mulher de 28 anos, com problemas no casamento e que deseja terminar um livro. Quanta coisa, no entanto, se esconde por trás desse resumo. Isto porque, Valéria é a jornada de uma escritora se descobrindo para também descobrir a sua escrita, entre uma mistura de desejo, resignação e manifestação de insatisfação com o rumo de sua vida. E para isso, então, ela precisa ir a fundo na sua fantasia, até mesmo através da traição.

O que a sinopse também deixa de revelar, entretanto, é que a história das amigas de Valéria são tão boas quanto a da própria. Lola (Silma López), Carmen (Paula Malia) e Nerea (Teresa Riott), cada uma possui seu arco, desenvolvido mais cedo ou mais tarde no decorrer da primeira temporada.

Nos primeiros episódios, a sensação é de que a série deixará em aberto esses enredos, pontas solta em uma trama que poderia ser mais, o que indigna diante da potencialidade de cada personagem. Ao decorrer da série, no entanto, essa expectativa negativa é desfeita. E as críticas realizadas inicialmente são, dessa forma, respondidas.

Entre o apoio e abusividade: o limiar da toxicidade nos relacionamentos heterossexuais

O plot principal, como explicado, gira em torno de Valéria e seu relacionamento com Ádrian (Ibrahim Al Shami J.) e Victor (Maxi Iglesias). Casada aos 22 anos, Valéria era a mulher definida por uma relacionamento. Impulsiva, mas também ardente, descobrimos aos poucos uma mulher que tenta se descobrir como mulher também. Ainda que muitos digam que 22 anos não é uma idade tão jovem, é o início de sua fase adulta. E todos os seus sonhos passaram, desse modo, a ser perseguidos no contexto de um relacionamento conturbado, precoce e não planejado.

Seis anos depois, Valéria tenta finalizar um livro, entre desistências de empregos fixos e falta de perspectiva para o futuro. Ao mesmo tempo, busca o apoio de seu marido, Ádrian, o que não encontra. Por outro lado, todo o sonho de Valéria é financiado por Ádrian, em uma ausência de responsabilidade dela também. E quando Ádrian perde o seu emprego, não é apenas o sonho dela que precisa pensar em aspectos reais, mas também os dele.

De fato, Ádrian não dá o apoio que Valéria espera. É difícil, contudo, culpá-lo por todos os problemas enfrentados no relacionamento, já que falta maturidade a ela também, até mesmo para perseguir seus sonhos. E este é, então, o aspecto mais positivo da série da Netflix. Quando se fala de relacionamentos tóxicos, abusividade, ou apenas de incompatibilidade, é preciso ter em mente que um relacionamento é uma via de mão dupla. As pessoas aceitam aquilo que vivem até que percebam o quão mal aquilo lhes faz, em uma dinâmica simbiótica, de uma naturalidade do caos.

Valéria (Diana Gómez) em Valéria, série espanhola da Netflix
Valéria (Diana Gómez) em “Valéria”. Imagem: reprodução

Valéria, Victor, Ádrian: um triângulo amoroso que vai além do clichê

Victor surge, então, como um catalisador da desordem entre Valéria e Ádrian. É o homem bonito, charmoso, galanteador, que parece preencher todas as qualidades do clichê “cafajeste” do entretenimento, o que também serve ao propósito de Valéria para tomá-lo como inspiração para se livro. No entanto, ele genuinamente se apaixona por Valéria, contrapondo todas as expectativas.

O que choca, no entanto, é ter de concordar com Ádrian de que não precisaria ser ele: poderia ser qualquer um. Isto porque não é Victor o agente que promove todas as ações nesse triângulo amoroso, mas Valéria. Valéria, a mulher que é tanto subestimada e ignorada por seu marido, quanto a mulher que busca em outros homens preencher essa ausência. Valéria, que não é vilã nem mocinha, mas apenas uma mulher complexa, como todas são – como todos os seres humanos são.

É interessante observar como Valéria é dua. Coloca-se numa posição de objeto, mas também usa dos demais em seu entorno para suas próprias ambições, em uma mistura da criação da ficção e do desejo de novas vivências. Ao longo da série, torna-se difícil defender as atitudes dela sob um ponto de vista moralista. Contudo, não é preciso buscar muito para encontrar histórias semelhantes na prática. Tampouco é preciso muito para também entender o que se passa na mente a protagonista. Isto não significa aceitar ou apoiar suas atitudes, mas entender os contextos e as razões.

Mãe e filha: a desconcertante figura da maternidade na construção do indivíduo

Ainda que não tão profundamente, Valéria também se preocupa em explorar parte dos contextos familiares das personagens. A única que talvez não tenha seu contexto abordado é Carmen. O que se ressalta, no entanto, é principalmente as dinâmicas entre mães e filhas. A série tenta mostrar, dessa forma, tanto os reflexos na prática da constituição do indivíduo quanto também a interpretação deles acerca de uma dinâmica que nem sempre é o que se imagina quando se está dentro da relação.

Afinal, é complexo para quem está dentro observar tudo o que está envolvido. Para Lola, por exemplo, sua mãe a abandonou para perseguir sua carreira. E a mágoa faz com que ela veja a situação apenas pelo aspecto da insensibilidade de sua mãe, de modo que ela, filha mais velha, teve de assumir o papel materno na sua família. Lola, todavia, não se questiona sobre o alto número de homens ausentes em suas casas. Não tenta entender o lado de sua mãe ou como, talvez, se fosse seu pai que tivesse se mudado pela carreira, ela o perdoaria e ainda entenderia e teria orgulho de seus atos.

Talvez seu pai fosse lembrado apenas como um grande músico e não como o homem que abandonou o lar. Mas é sua mãe quem foi tocar numa grande orquestra. Sua mãe a pessoa que ela culpa inclusive por sua incapacidade de se envolver nos relacionamentos ou por se envolver em relacionamentos problemáticos em que ela se coloca num papel de submissão.

Valéria - Netflix
Nova série espanhola da Netflix. Imagem: reprodução

Relacionamentos homoafetivos que refletem as dinâmicas da heteronormatividade

Não se pode negar a existência de um padrão heteronormativo na sociedade. Ao nascer, homens e mulheres ainda são vistos, por padrão, como heterossexuais. E a homossexualidade é vista como exceção. Ou seja, é preciso se “revelar” gay, se “revelar” lésbica. Contudo, os impactos dessa normatividade ultrapassam apenas questões de autoaceitação ou de assunção da sexualidade. A heteronormatividade, e os padrões impostos a essas relações, sobretudo quanto às diferenças de papéis, também exercem influência nos relacionamento homoafetivos.

Nerea é lésbica, mas não assume sua sexualidade para a família por medo de perder o apoio financeiro deles. Afinal, ela está terminando seus estudos e trabalha como advogada no escritório da família. Simultaneamente, ela se envolve em relações com outras mulheres, mas em uma performance que reflete padrões heteronormativos. E isto acaba a prejudicando em um envolvimento sincero com seus pares românticos. Ao mesmo tempo em que deseja se envolver, age de forma fria, distante e ausente. E quando algo começa a se tornar mais profundo, ela estranha.

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Aos poucos, também, Nerea começa a se envolver em movimentos feministas. E é interessante observar como os direitos das mulheres estão correlacionados aos direitos de outros grupos, porquanto, embora as causas de luta possam ser diferentes, a sociedade opressora é a mesma. A única coisa que desaponta é que essas discussões envolvam apenas questões de sexualidade, mas não se aprofundem em diferenças raciais ou decolonialidade, por exemplo, ou outros aspectos do feminismo. Ademais, as outras personagens até se envolvem em uma ou outra discussão, mas Nerea é a única engajada no movimento.

Igualdade de gênero nas relações profissionais em Valéria, série da Netflix

Por fim, há Carmen, aquela personagem mais romântica, ingênua e atrapalhada, clichê existente em quase todas as séries. E sua principal dificuldade é se impor, seja para iniciar um relacionamento com um colega de trabalho, seja para alugar o apartamento dos seus sonhos.

Carmen trabalha em uma agência de marketing e começa a se envolver com um colega de trabalho. A relação é iniciada com um flerte inseguro, em que não se sabe se há insegurança ou falta de interesse do par romântico. Conforme a temporada decorre, Carmen ganha mais autoridade e confiança, tanto em seu trabalho quanto em suas relações, o que mostra que esse “poder” interno reflete em diferentes aspectos da vida. Uma vez que ela toma a iniciativo no relacionamento, consegue também se revelar mais no trabalho.

igualdade de gênero na nova série da Netflix
Cena de “Valéria”. Imagem: reprodução

O problema é a ameaça do poder de uma mulher. Fica ambíguo em Valéria se os problemas no relacionamento amoroso de Carmen dão-se pela insegurança do parceiro frente às conquistas dela ou pela automática interpretação dela de que assim seja, quando o que ocorre pode se tratar apenas de fatos naturais e comuns – como um homem que não consegue se excitar. Afinal, também existe uma masculinidade tóxica envolvida, dizendo que o homem deve sempre preencher o perfil de virilidade.

Por outro lado, talvez não seja coincidência o momento em que isto ocorre. E a situação se agrava quando ela coloca o relacionamento à frente de sua carreira, enquanto ele não. Portanto, a ausência típica de reciprocidade.

As mulheres que não são homens: síndrome do impostor e a necessidade de performance e titulação masculina

A problemática das relações de gênero, enfim, é um dos panoramas de Valéria, série da Netflix. No entanto, é importante ressaltar que as relações entre as mulheres também são essenciais para a construção da narrativa e para os apontamentos feitos. E, por fim, o final da série não deixa a desejar, além de gerar expectativas para o seu retorno.

Do aspecto de relacionamentos, talvez o final da protagonista Valéria seja o mais fechado, ainda que comporte algo de incerto para o futuro. A forma como seu casamento é tratado ao fim é bastante sensível, em um retrospecto de toda a história com Ádrian. E o arco se encerra de uma forma muito natural, sem apelar a dramas excessivos ou explosões. É um retrato, assim, de vidas possíveis. Enquanto isso, Victor, que teve um papel fundamental nesse desenvolvimento passa a assumir uma nova função.

síndrome da impostora
Imagem: reprodução

Do aspecto profissional – afinal, a história se inicia com um livro por terminar – é mais complexo, em uma virada de protagonização na vida da protagonista. É preciso dar um spoiler, pois a discussão não pode passar em branco. Valéria tem seu livro aprovado, mas com a condição de que seja publicado em nome de um homem, autor de uma série de livros eróticos.

Este final desperta tantos questionamentos. Primeiro, o problema de que os homens ainda são vistos como mais qualificados na sociedade, de modo a vender mais. Isto, entre outros fatores, contribui para a falta de confiança de muitas mulheres como Valéria, e para o que se chama de Síndrome do Impostor. Autoras como J. K. Rowling optaram por abreviar seus nomes justamente para não indicar o gênero da autoria, pois a indicação de uma autora mulher poderia afetar não apenas a aprovação de editoras, como também as próprias vendas. E a historiadora Mary Beard aprofunda o tema em “Mulheres e Poder“.

Segundo, o problema de homens falando por mulheres. Por que homens entenderiam mais sobre a essência  e os prazeres femininos do que elas próprias? Enfim, apenas a 2ª temporada poderá responder a questões como essas.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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