Love Story: a Manic Pixie Dream Girl que existe para morrer

Love Story: a Manic Pixie Dream Girl que existe para morrer

Considerado um fenômeno dos anos 1970 e um dos filmes mais românticos já feitos, Love Story foi um sucesso absoluto e concorreu a diversos prêmios no ano de seu lançamento. Disponível no streaming do Telecine, o filme que completou 50 anos em 2020 foi um marco cultural de sua época, mas também é um ancestral de uma narrativa que ainda não paramos de assistir.   

O que se pode dizer sobre uma garota de 25 anos que morreu? Que ela era bonita e brilhante? Que ela amava Mozart e Bach, os Beatles e a mim?” é a fala do protagonista Oliver Barret (Ryan O’Neil) na primeira cena do filme. A morte de Jenny Cavallieri (Ali MacGraw) não é um spoiler, mas sim a espinha dorsal da história.

Os amantes (quase) impossíveis de Love Story

Oliver Barret é um jovem milionário e estudante de direito em Harvard. Herdeiro de uma família tradicional, ele tem pouco interesse pela vida e pelos estudos. Além disso, tem problemas para lidar com sua raiva e uma relação conturbada e disfuncional com seu pai, que pretende controlar sua vida para que ele siga seus passos e desejos.

Jenny Cavallieri é uma jovem diferente e brilhante, que estuda música na Radcliffe College. Apesar de inteligente e talentosa, ela sabe que por ser pobre não poderá viver “no mundo de Harvard” e nem se dedicar completamente à música após a faculdade.

Oliver Barret (Ryan O’Neil) e Jenny Cavallieri (Ali MacGraw) em cena do filme "Love Story"
Oliver Barret (Ryan O’Neil) e Jenny Cavallieri (Ali MacGraw) no filme “Love Story” | Imagem: reprodução

Jenny é uma mulher inteligente e introvertida, já Oliver é o atleta rico e popular. Essa é uma narrativa muito familiar para nós: sabemos que a barreira de classe ou mesmo as diferenças interpessoais não impedirão que os jovens se conheçam e nem que fiquem juntos.

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Após uma discussão na biblioteca da universidade, os dois jovens saem juntos e se apaixonam. Logo, Jenny transforma a vida de Oliver em vários aspectos: ele se interessa mais por seus estudos e até adquire coragem para enfrentar as expectativas de sua família e se afirmar frente aos desejos do pai.

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A mulher que desenvolve o protagonista

A história da garota diferente, pobre ou só introvertida que conquista o personagem masculino é familiar e repetida à exaustão na cultura pop. O importante é que a mulher tenha algum ou diversos gostos e comportamentos opostos aos do protagonista.

Em sua “exoticidade”, ela ganha seu coração, muda sua vida e faz com que ele se transforme. Depois, ela morre ou serve de recompensa. A manic pixie dream girl pode ser o “prêmio” que o personagem masculino recebe por enfrentar alguma situação – ou por vezes ela é o ingrediente dramático e no fim só precisa morrer.

Jenny Cavallieri é a Manic Pixie Dream em "Love Story", filme da década de 70.
Jenny serve apenas para o desenvolvimento do protagonista masculino em “Love Story” | Imagem: reprodução

Para ficar com Jenny, Oliver enfrenta seu pai e aprende a viver no mundo sem a fortuna e apoio de sua família. Em seguida, ele termina a graduação em Harvard e se torna um jovem advogado bem-sucedido. Já Jenny desiste de sua bolsa de estudos em Paris e trabalha como professora. Enquanto isso, Oliver conclui os estudos e quando ele obtém o sucesso profissional, ela morre.

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Em Love Story assistimos a uma história muitas vezes já contada e que sacrifica sua personagem feminina quando ela não é mais necessária, servindo ao ápice dramático e nada mais. A morte da personagem feminina é o começo e o fim de tudo, mas de sua vida, suas vontades e de seu próprio desenvolvimento, pouco ou nada sabemos. Pois não importa.

Aliás, até mesmo o pai de Jenny, Phil (John Marley), que não só demonstra um grande amor pela filha como respeita e acolhe suas decisões, não existe em nenhuma cena para além de seus diálogos com Oliver. Até quando falamos de Jenny, de seu passado ou de suas relações familiares, falamos de Oliver.

A narrativa familiar de Love Story

Não é difícil pensar em outras histórias que conhecemos em que personagens muito semelhantes à Jenny e Oliver se apaixonam e se separam. O filme Um Amor para Recordar (2002), baseado em um romance de Nicholas Sparks, é mais um exemplo disso. Dois jovens bem diferentes entre si, que se apaixonam e terminam separados pela morte.

Em Um Amor para Recordar, Landon Carter (Shane West) é um jovem rebelde e popular que se apaixona por Jamie Sullivan (Mandy Moore), uma garota introvertida, religiosa e recatada. Em seu amor breve e improvável, Landon Carter se transforma em um bom moço. Nos emocionamos com a sua decisão de ajudar Jamie a realizar seus desejos no breve tempo que possui. Landon, portanto, é transformado para sempre pela garota “tão diferente das outras” e aparentemente desinteressante que salva sua vida. 

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Um Amor para Recordar, filme de 2002, possui uma narrativa semelhante à de Love Story (1970)
Cena do filme “Um Amor para Recordar” (2002) | Imagem: reprodução
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A Manic Pixie Dream Girl é um recurso incômodo. Suas versões em Love Story e Um Amor para Recordar são a junção de dois recursos narrativos muito populares e danosos: a mulher sem vontades próprias, com a personalidade moldada segundo os desejos (conscientes ou não) do protagonista e que o desenvolve e o transforma para impulsioná-lo em uma jornada própria. Em ambos os filmes, a adição da doença trágica (ambas morrem de leucemia) é só a cereja do drama.

A mulher prêmio ou espólio, mas não sujeito

Claramente, a assustadora frequência de tais recursos narrativos simplistas ultrapassa o universo literário e cinematográfico e se fazem presentes em todos os gêneros culturais que consumimos. Entretanto, sabemos que as representações culturais que nos rodeiam têm consequências reais e impactam, dentre outras coisas, na construção de nossas subjetividades. Nossas ideias e ideais sobre as relações que desejamos torna urgente a reflexão sobre os espelhos que temos na cultura e como isso se reflete em nossa sociedade.

A verdade é que a morte de uma mulher como recurso narrativo pode parecer datado aos nossos olhos, mas a sua durabilidade nas telas e nas páginas talvez ainda lhe assegure uma vida longa. Conhecer Jenny e diversas outras “Jennies” apenas pelo olhar dos protagonistas é a tragédia mais duradoura. De forma brutal ou não, não há nada mais fácil para a Manic Pixie Dream Girl do que morrer.


Revisão por Gabriela Prado.

Autora:

10 textos

Historiadora e escrevedora de frases longas. Entusiasta de diálogos. Fala de literatura e de história até na mesa do café.
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