É assim que se perde a guerra do tempo: romance sáfico e epistolar

É assim que se perde a guerra do tempo: romance sáfico e epistolar

É assim que perde a guerra do tempo, livro publicado pelo selo Suma da Companhia das Letras e escrito em conjunto por Amal El-Mohtar e Max Gladstone é um livro, no mínimo, diferente. E boa parte de suas resenhas atestam o sentimento dúbio que ele causa em quem o lê.

Vencedor dos prêmios Nebula, Hugo e Locus, É assim que perde a guerra do tempo traz uma ficção científica, mas cujo foco não necessariamente está no universo fictício que se desenrola. Não, o foco está na profundidade de um relacionamento atemporal entre Red e Blue, suas protagonistas.

Talvez esse enfoque cause uma quebra de expectativa. E pode ser que o livro agrade mais a quem ama romances do que a quem gosta de ficção científica. Infelizmente, se a obra conquista pelo relacionamento sáfico das protagonistas, talvez decepcione um pouco em relação às explicações científicas. Contudo, se você retornar à sinopse dele, verá que esta nunca foi sua proposta, embora a premissa científica seja algo bastante interessante de ser trabalhado.

Max Gladstone e Amal El-Mohtar
Max Gladstone e Amal El-Mohtar | Foto: Barnes and Noble

Red e Blue são agentes do tempo, seres que viajam pelas tranças do tempo para alterar a história a favor de seus lados: a Agência e o Jardim, respectivamente. Inimigas nesta guerra do tempo, as duas encabeçam um jogo de gato e rato. E ao se cruzarem pelos eventos da humanidade, trocam correspondências. Aos poucos, então, o que as separa também as aproxima. E não apenas começam a ver o mundo com outros olhos, como também desenvolvem um bonito romance, literalmente, atemporal.

A narrativa epistolar de “É assim que se perde a guerra do tempo”

Embora conte com capítulos em terceira pessoa, a história se conta, majoritariamente, através das cartas trocadas por Red e Blue. Pelos seus olhos, descobre-se, então, mais das estruturas de filamentos, tranças e da guerra que se trava, junto à construção de uma nova percepção de mundo.

Red e Blue são bastante diferentes. Ainda que em alguns momentos assumam a forma humana, as descrições levam a crer que não são humanas por completo. Red tende a um grupo caracterizado pela tecnologia avançada. E pode, inclusive, desligar ou religar órgãos que transmitem sensações. Blue, por sua vez, é de uma linha mais natural, uma semente plantada e cultivada em uma complexa estrutura. E esta contraposição é um dos grandes pontos do livro.

É assim que se perde a guerra do tempo, edição da Suma de Letras
Edição em português | Foto: Suma de Letras

O livro, portanto, desperta esse sentimento de análise da vida humana. A partir das trocas que estabelecem entre si, as protagonistas passam a ver o mundo também pelos olhos da outra. E reparam, desse modo, nos pequenos detalhes do que é universal, o que existe para além das linhas do tempo que elas visitam. Quantos elementos azuis existem, quantos elementos vermelhos, os mecanismos de uma abelha, os hábitos de uma aranha, a construção de um mito, e assim em diante.

De início, a descrição exacerbada incomoda. No entanto, ao finalizar o livro, percebe-se que ela faz parte da sensibilidade com que ele analisa a natureza e a própria história da humanidade.

Tratamos o passado como uma treliça, enveredando nossas vinhas por ele […]; o futuro nos colhe, nos pisoteia até virarmos vinho, nos derrama de volta no sistema de raízes em uma libação amorosa, e nós crescemos mais fortes e mais potentes juntos”.

Um romance atemporal

O problema de É assim que se perde a guerra do tempo –  e talvez não seja realmente um problema – é que ele não traz respostas para as perguntas que incita. Quando lemos um livro sobre viagem no tempo, queremos entender os caminhos percorridos, os impactos de tal mudança, queremos compreender o efeito borboleta de cada pequeno ato. 

Porém, ainda que o livro fale bastante sobre como mudar um pequeno elemento já causa um grande distúrbio, vemos pouco disso na história. Isto porque, ao falar de um romance atemporal, ele realmente coloca o tempo como detalhe de fundo. Não importa a era, não importa o que está acontecendo ali, o que importa são Red e Blue.

É assim que se perde a guerra do tempo - resenha
Detalhes da edição da Suma de Letras | Foto: reprodução

No final, até se vê o papel da interferência nos filamentos para a história das duas. Afinal, o quanto será que uma ou outra não agiu para criar o próprio relacionamento? Será que os interesses do Jardim ou da Agência não fazem parte disso? E mais do que isso, voltamos a cenas anteriores para descobrir que, sim, a viagem no tempo sempre esteve presente em pequenos detalhes.

A ausência de respostas na ficção científica de Amal El- Mohtar e Max Gladstone

Do mesmo modo, não há menção ao início dessa guerra que as separa. É uma guerra como qualquer outra, com lados opostos, ambos certos e errados, sem que sequer saibamos seus interesses. Fala-se de um propósito maior, mas não se menciona qual. Mesmo os mecanismos internos são difíceis de se compreender, porque pouco descritos ao longo das cartas de Red e Blue. E como um bom livro sobre viagem no tempo, ele não possui narrativa linear. O problema é que isto torna o contexto geral ainda mais vago. 

É assim que se perde a guerra do tempo não é um livro sobre porquês. É um livro sobre o como, sobre o presente que se constrói no passado e no futuro sem tabelas. Mas não responder a essa pergunta elementar deixa em quem lê a sensação de que falta algo. E embora possa ser, obviamente, uma falha narrativa, há elementos da história que levam a crer que a ausência de respostas é proposital. 

Quando a Agência confronta Red pelos possíveis interesses de Blue no romance, tenta incutir nela o pensamento de que Blue deseja despertar inquietações sobre seu trabalho. Seria, dessa forma, um modo de aliciar Red para o outro lado. Red, contudo, ignora isso. Ela mesma não busca saber os porquês, as intenções gerais por trás de seu trabalho. Blue também não o faz. Para elas, as intenções do Jardim e da Agência importam menos que seu desejo de ficarem juntas.

É assim que se perde a guerra do tempo: a complexidade dos elementos em segundo plano

Enfim, É assim que se perde a guerra do tempo é um romance complexo e que talvez demande mais de uma leitura para quem deseja aproveitar seu lado de ficção científica. Em uma leitura preliminar, o romance predomina. E até mesmo por ser uma narrativa epistolar, os elementos de ficção científica ficam em segundo plano, o que pode decepcionar.

Não se trata de uma falha de qualidade. A história é boa, complexa e rica, mas diferente do que estamos habituadas a ler até mesmo neste formato. Uma nova leitura, portanto, permite compreender mais do universo e do que deixamos passar em um primeiro momento. O resultado é a compreensão da magnitude da história.


É assim que se perde a guerra do tempo - resenhaÉ assim que se perde a guerra do tempo

Amal El-Mohtar e Max Gladstone (Autores)

Natalia Borges Polesso (Tradutora)

192 páginas

Suma de Letras

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Revisão por Isabelle Simões.

Autora:

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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