No útero não existe gravidade: o terror psicológico dos dias na obra de Dia Nobre

No útero não existe gravidade: o terror psicológico dos dias na obra de Dia Nobre

Em No útero não existe gravidade, segundo livro da cearense Dia Nobre, apresenta uma prosa talvez poética, sobre um cotidiano que se aprofunda gradativamente na formação da protagonista e, de tão real, se faz até terror. A morte, a loucura, a busca pelo belo se mesclam nessa jornada. E tal qual o título anuncia, somos conduzidas a esse universo em que somos jogadas ao mundo sem um abraço aterrador, uma sensação de que as coisas estão sempre caindo.

“O abraço materno aterra as emoções que não podem ser explicadas pro ser que acabou de vir ao mundo. […] quando isso falta, o bebê se sente desamparado. a sensação é de estar sempre caindo.”

“O terror psicológico dos dias”, assim também revela a apresentação do livro, escrita por Gabriela Soutello, que nos anuncia as mortes, as passagens, as rupturas enfrentadas pela protagonista de Dia Nobre. Gabriella Soutello ainda escreve:

“É escrevendo que Dia Nobre arranca os calos das pregas vocais, nos apresentando em literatura o sistema nervoso aparente, sintomas de doenças da mente e suas explicações, remédios tarjados, nomes científicos, doenças crônicas: todos compatíveis à narradora, que se paralisa por excesso de movimento cerebral. Com o corpo em decúbito dorsal, carrega o conhecimento de quem sabe sentir dor.

Dia Nobre: a autora por trás de “No útero não existe gravidade”

Dia Nobre, pseudônimo de Edianne Nobre, tem esse jeito de escrever que conquista. Em muitas passagens, lembrou-me também a escrita de Aline Bei. Portanto, se você gostou de livros como “O peso do pássaro morto” ou “Pequena coreografia do adeus”, pode ser que se encante com No útero não existe gravidade.

Dia Nobre: a autora por trás de “No útero não existe gravidade”
Autora Dia Nobre | Foto: divulgação

Nascida em Juazeiro do Norte (CE), onde também se ambienta a história, Dia Nobre é também Ph.D em História e professora universitária, atuando em projetos relacionados a literatura, história, lesbianidades e feminismo.

Além de No útero não existe gravidade, publicou também dois livros de não ficção e um de poemas: O teatro de Deus; Incêndios da alma, pelo qual recebeu três prêmios, inclusive o Prêmio Capes de Teses; e Todos os meus humores. Também participou de dois livros antológicos: Antologias Coletânea VISÍVEIS – I Anuário Filipa Edições e Antes que eu me esqueça – 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje.

No útero não existe gravidade, seu livro mais recente, foi finalista do 3º Prêmio Mix Literário.

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Sinopse de “No útero não existe gravidade”

No final de 2019, Dia Nobre decidiu enfrentar o desafio de se tornar escritora no Brasil e participou da mentoria de escrita com a cordelista e escritora Jarid Arraes, quem também assina a sinopse de No útero não existe gravidade:

Em seu segundo livro, Dia Nobre desenterra, do mais profundo, as chagas íntimas e sociais das mulheres. Quantas mulheres são esculpidas pelas relações tortuosas com a família e a sociedade. Quantas tentam caber dentro de si mesmas e vão se tornando cada vez menores para que sejam encaixáveis e não deixem à mostra os desejos, o ímpeto de vida, o impulso de morte. Para que os abusos sofridos não sejam feridas visíveis. Dia nos conduz pela vida da mulher que, ainda pequena, aprende a perguntar as coisas difíceis.

Este livro é talhado por histórias de filhas, mães, avós, mulheres que conheceram o peso de ser mulher muito cedo, que entregaram o fardo nas mãos das inocentes desavisadas e que formam, até hoje, o imaginário capaz de fragmentar uma vida. Apesar disso, ser várias, cada uma dentro de si, até a miúda versão protegida sob tantas camadas, é também um recurso de vida. No útero não existe gravidade faz das memórias poesia, transmuta dor em coragem. Decide que o enredo não será interrompido:“ me enganar sempre foi uma maneira de sobreviver.

A autora Dia Nobre com o exemplar de "No útero não existe gravidade"
A autora Dia Nobre com o exemplar de “No útero não existe gravidade” | Foto: divulgação

A morte, a loucura, a beleza: temas recorrentes em “No útero não existe gravidade”

No útero não existe gravidade é delicado. Com capítulos de uma ou duas páginas e uma escrita sensível aborda temas como o abuso, a violência, o suicídio, a relação com maternidade, sobre a qual falarei mais adiante. No entanto, há três temas em torno do qual as passagens giram em torno: a morte, a beleza, a loucura. E entre si, elas se relacionam.

A morte é essa ruptura, as pequenas quebras na desconstrução durante o processo de formação. Primeiro a avó, depois a professora, depois uma mulher por quem se apaixona. Cada qual fazem parte do conjunto de pequenos cacos que a protagonista carrega pela vida.

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Mas há também o belo, a busca pela perfeição, por um padrão social que levaria ao paraíso. A beleza, na obra de Dia Nobre, é a dor que se inflige para mascarar as dores cotidianas. O cabelo dourado em cachos, pelos quais a mãe, de cabelos crespos e olhos assustados em fotografia da infância, possui fascinação. Os olhos azuis que indicam esperança de um futuro –  o qual se encerra três meses após o nascimento. A higiene, uma limpeza que “purifica”. A busca pela magreza, um definhamento gradativo.

“Todos na minha família têm medo do inferno, por isso, cada um encontrou um modo disfarçado de se matar. esperavam assim, escaparem.”

E há a loucura, que se apresenta através da raiva, mas também dos atos incompreensíveis.

“a fada verde se espatifou no chão, perdendo a cabeça, um braço e parte das pernas. as asas ficaram grudadas no torso, mas tinham danos irreparáveis nas pontas. era sempre assim quando ela ficava com raiva.“

A mãe, o útero, as mulheres de Dia Nobre

Pelo próprio título, é difícil não trazer também o tema da maternidade em No útero não existe gravidade, mas o livro vai além disso. Como Jarid Arraes e Gabriella Soutello escrevem sobre a ficção de Dia Nobre, é um livro sobre a formação de uma mulher e sua relação com outras mulheres.

“Mas eram os olhos que a denunciavam. Mais assustados que os olhos do coelho que ela esmagava entre as mãos”.

O quanto as vivências de mulheres não assustam de fato? E quantas delas não se ocultam em nossos próprios corpos, se somos a soma de nossas experiências?

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O epílogo de No útero não existe gravidade é o que sedimenta, assim, esse conjunto de sensações. Estamos em queda livre, todas, juntas, as mulheres que fomos, as mulheres que nos formam. E seria mesmo, então, apenas o abraço materno, capaz de construir esse contorno, como naquela primeira passagem sobre o útero?

O livro de Dia Nobre, enfim, talvez não seja um livro de uma única leitura. Embora fácil de se ler, possui nuances que duas, três leituras começam a revelar. E como uma boneca russa, assim vamos encontrando as mulheres que a autora desenvolve em sua narrativa.


no útero não existe gravidade

No útero não existe gravidade

Autora: Dia Nobre

Editora Penalux

82 páginas

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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