Riri Williams e a incansável sexualização de personagens femininas nos quadrinhos

Riri Williams e a incansável sexualização de personagens femininas nos quadrinhos

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Sabemos da importância da representatividade na cultura pop, e podemos ver que a Marvel recentemente está trazendo mais obras que visam a questão da representatividade, como o caso de Lunella Lafayette (Moon Girl and The Devil Dinosaur), Kamala Kahn (Ms. Marvel); uma mãe síria como nova super-heroína (Madaya Mom). 

Em julho de 2016 os fãs de quadrinhos conheceram a nova personagem do Universo Marvel que assumiria a armadura do Homem de Ferro, após sua saída em Guerra Civil II. Riri Williams – posteriormente ganhou o nome de heroína Iron Heart – é uma garota negra de 15 anos que possui a mesma mente genial de Tony Stark. A notícia alegrou aos fãs que procuram por mais diversidade nos quadrinhos de super-heróis tanto na representatividade feminina quanto na de pessoas negras. O que ninguém esperava é que a Marvel daria uma bola fora com a personagem ainda na primeira edição.

A polêmica envolvendo a capa variante da revista “Invencible Iron Man #1”, que apresentaria Riri ao público, é uma versão bastante inferior à capa apresentada em julho e o que é pior, a nova capa mostra uma Riri em pose sensual e com pele mais clara do que a da primeira versão. A Marvel então decidiu editar a capa, com o apoio do roteirista Brian Michael Bendis, o que resultou em muitas acusações de censura.

J. Scott Campbell, o desenhista responsável pela capa variante, foi confrontado no Twitter pelo perfil Black Girls Nerds a respeito de sua interpretação de uma adolescente negra, o artista, ao invés de se retratar, ficou na defensiva e acabou dizendo que não tinha tempo para lidar com Justiceiros Sociais (Social Justice Warriors), além de comparar seu trabalho com a capa original dizendo que não são tão diferentes assim. Um estudo sobre o homicídio de mulheres no Brasil realizado em 2015 pela ONU Mulheres e a Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais mostra que as mulheres negras são vítimas da forma mais cruel de racismo e mostra que são as mais vitimadas pela violência doméstica, obstétrica e e nas relações afetivas.

“Riri não parece ter 15 anos. Kamala Kahn não foi sexualizada assim.”

A capa de Campbell serve apenas para reafirmar a visão que parte da sociedade tem de mulheres negras sensualizadas e objetificadas. O caso da capa acabou gerando também a hashtag #TeensThatLookLikeTeens que aborda a questão da sexualização das adolescentes em geral nas revistas de super heróis. O próprio Campbell já havia sido criticado pela sua forma de desenhar mulheres, como na capa variante de “Spider-Man- Renew your Vows” na qual vemos Mary Jane desenhada de forma exagerada. O protesto gerou uma série de desenhos que mostram como uma adolescente de 15 anos pode ser representada.

Infelizmente Campbell não é o único desenhista com problemas para representar mulheres de forma normal. Há alguns meses Frank Cho abandonou a equipe criativa da nova fase da Mulher Maravilha, escrita por Greg Rucka, por discordar da edição que uma de suas capas sofreu a pedido do próprio Rucka. Desde a polêmica com a capa da Mulher-Aranha, desenhada por Milo Manara, Cho vem provocando os fãs com capas desnecessárias, mostrando mulheres semi-nuas em poses absurdas em nome da liberdade de expressão, chegando ao ponto de desenhar Gwen Stacy, uma adolescente de 16 anos em uma pose sensual.

O que parece difícil para os profissionais dos quadrinhos entenderem quanto a representação de adolescentes nas HQs é que essa ideia de garotas novas com corpos esculturais e suas poses sensual não são nada além de um reforço da ideia da “novinha”, a garota que já sabe ser sexy e por isso pode ser responsabilizada por qualquer abuso e violência que venha a sofrer. Parte disso se deve à falta de representatividade de mulheres negras também entre os criadores de conteúdo para HQs como bem explicou o site Ebony ao apontar que todos os envolvidos na criação e desenvolvimento da personagem Riri Williams são homens brancos de meia idade, o que eles poderiam saber sobre o que é ser uma adolescente negra?

Muitos fãs se uniram ao desenhista para atacar os críticos e acusar a Marvel de censura, os principais argumentos são que Riri não é uma garota de verdade, ou então que ela “teria o direito” de se vestir de forma sexy”. É importante lembrar que personagens fictícios mostram muito da nossa própria realidade, portanto se o desenhista optou por desenhar uma garota de 15 anos de forma sensual é porque a nossa sociedade normaliza esse fato. Além disso temos a questão de que personagens não escolhem as próprias roupas (e o site Collant Sem Decote tem um excelente texto sobre o assunto) tudo na arte demonstra uma intenção dos desenhistas, escritores e criadores (na maior parte homens) que fazem essas escolhas por elas. Você pode ler sobre o assunto aqui: O que a roupa da Arlequina e o cabelo da Furiosa têm a ver com a gente?

Sabemos da importância da representatividade na cultura pop, e podemos ver que a Marvel recentemente está trazendo mais obras que visam a questão da representatividade, como o caso de Lunella Lafayette (Moon Girl and The Devil Dinosaur), Kamala Kahn (Ms. Marvel); uma mãe síria como nova super-heroína (Madaya Mom); e Riri Williams, uma garota adolescente de 15 anos, dotada de grande inteligência que foi escolhida para substituir Tony Stark, após sua saída em Guerra Civil II. Eis então que surge a divulgação da capa de Invincible Iron Man #1, desenhada por J. Scott Campbell, obra que apresentará a Riri Williams pela primeira vez como Ironheart. Apesar da publicação da HQ ocorrer somente no próximo mês, vimos algo que já está exausto de ocorrer nos quadrinhos: a sexualização da personagem feminina (e no caso, uma adolescente).

Queridos homens desenhistas, vamos sair um pouco da preguiça e zona de conforto do machismo no universo dos quadrinhos e aprender a desenhar personagens femininas com as maravilhosas dicas da Renae de Liz?  


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