[LIVROS] Leia Mulheres: The Kiss of Deception – Empoderamento Feminino VS A falácia da fidelidade histórica

[LIVROS] Leia Mulheres: The Kiss of Deception – Empoderamento Feminino VS A falácia da fidelidade histórica

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Na segunda semana da nossa edição do Leia Mulheres (#leiamulheres) com a categoria “Livros que fazem parte de uma série”, apresentamos o primeiro livro da trilogia “Crônicas de Amor e Ódio”, de Mary E. Pearson. The Kiss of Deception traz a introdução à história da Primeira Filha do Reino de Morrighan, a princesa Lia; uma personagem que, à primeira análise, é uma quebra de estereótipos ambulante. O grande número de personagens femininas do livro também chama a atenção. Infelizmente, porém, a proposta de quebra de estereótipos acaba por aí, sendo este mais um exemplo das representações brancas, ocidentais e heteronormativas que são incluídas em mundos, a princípio, ficcionais.


Sinopse de The Kiss of Deception:

“Tudo parecia perfeito, um verdadeiro conto de fadas menos para a protagonista dessa história. Morrighan é um reino imerso em tradições, histórias e deveres, e a Primeira Filha da Casa Real, uma garota de 17 anos chamada Lia, decidiu fugir de um casamento arranjado que supostamente selaria a paz entre dois reinos através de uma aliança política. O jovem príncipe escolhido se vê então obrigado a atravessar o continente para encontrá-la a qualquer custo. Mas essa se torna também a missão de um temido assassino. Quem a encontrará primeiro?

Quando se vê refugiada em um pequeno vilarejo distante o lugar perfeito para recomeçar ela procura ser uma pessoa comum, se estabelecendo como garçonete, e escondendo sua vida de realeza. O que Lia não sabe, ao conhecer dois misteriosos rapazes recém-chegados ao vilarejo, é que um deles é o príncipe que fora abandonado e está desesperadamente à sua procura, e o outro, um assassino frio e sedutor enviado para dar um fim à sua breve vida. Lia se encontrará perante traições e segredos que vão desvendar um novo mundo ao seu redor.

O romance de Mary E. Pearson evoca culturas do nosso mundo e as transpõe para a história de forma magnífica. Através de uma escrita apaixonante e uma convincente narrativa, o primeiro volume das Crônicas de Amor e Ódio é capaz de mudar a nossa concepção entre o bem e o mal e nos fazer repensar todos os estereótipos aos quais estamos condicionados. É um livro sobre a importância da autodescoberta, do amor, e como ele pode nos enganar. Às vezes, nossas mais belas lembranças são histórias distorcidas pelo tempo. ”

The Kiss of deception
“Hoje seria o dia em que centenas de sonhos iriam morrer, e um único sonho iria nascer.”

Nos capítulos iniciais do livro somos apresentadas à Princesa Lia e sua personalidade forte. Como em muitos livros contemporâneos, e especialmente os distópicos, a Princesa vai contra as ordens que recebe, fazendo com que seja vista como uma rebelde. Rebeldia esta que fica evidente em sua fuga de um casamento arranjado, indo até uma nova cidade com esperanças de recomeçar como uma nova pessoa.

Isso é, com certeza, um ponto positivo do livro (como já foi dito em um artigo anterior). Embora, hoje em dia – e por sorte – a independência das personagens femininas já esteja se tornando comum, é sempre bom e revigorante ver uma personagem que foge do que é esperado não apenas de princesas, mas de mulheres no geral, questionando e desafiando a obediência e submissão que lhes é imposta.

A personalidade forte não é exclusiva da Princesa, sendo apresentada pela maioria das personagens femininas do livro. Berdi, Gwyneth, Pauline e a velha nômade, Dihara, usam de seus conhecimentos para sobreviverem em meio a um mundo que, embora segundo a tipificação do livro se trate de uma fantasia, apresenta papéis de gênero e atitudes patriarcais típicas da sociedade humana atual. O relacionamento entre a protagonista e as primeiras três mulheres citadas também se mostra essencial durante a história. É apresentada uma relação de irmandade e pura sororidade entre as mesmas que, mesmo tendo sido apresentada de uma forma rasa e com poucos episódios de aprofundamento, transpira companheirismo e entendimento sem julgamentos, que transcendem as páginas do livro.

Todas as interações entre mulheres presentes no livro apresentam uma camaradagem explícita e natural, não sendo elas, em nenhum momento, apresentadas como rivais ou com uma mera inimizade; isto é, indo contra a representação constante – e verdadeira síndrome – de “mulheres rivais em busca de um homem” presente na mídia e nas próprias relações sociais reais.

Além do fator Fantasia (que será aprofundado mais à frente), há o romance presente na história, a princípio, protagonizado por Lia, Rafe e Kaden. A questão, porém, é que o que deveria ser um triângulo amoroso que deixa o leitor no escuro até as últimas páginas é revelado quase que imediatamente. Torna-se óbvio, ao longo do livro, com quem a Princesa Lia ficará – pelo menos nessa primeira etapa – e não é nenhuma surpresa quando os sentimentos de ambas as partes são revelados. Além disso, o “mistério” de quem possa ser o assassino ou o príncipe, Rafe ou Kaden, também se torna claro em poucas aparições dos personagens, com o uso de clichês batidos do gênero “romântico” pela autora.

A mitologia do livro, embora um pouco confusa – propositalmente – no início, apresenta uma história instigante sobre a região em que se passa. Ela está inteiramente presente no livro, a todo momento dialogando com os eventos que ocorrem na história principal, mostrando-se parte integrante da vida dos personagens (querendo eles ou não).

Tudo o que foi dito acima, trata-se de problemas técnicos do livro, recaindo majoritariamente na forma em que o mesmo foi escrito, mas que não causam grandes prejuízos à história em si.

The Kiss of Deception

Dito isso, qual é o verdadeiro problema do livro?

A falta de diversidade. Tendemos a relevar obras escritas em uma certa época da humanidade, onde a sociedade era (mais) abertamente racista e que os autores eram em sua esmagadora maioria homens brancos. The Kiss Of Deception, porém, foi lançado em julho de 2014, uma época que já trazia não só renascimento do feminismo, mas a tomada do protagonismo das narrativas pelas minorias. E nisso, o primeiro livro da trilogia “Cônicas de Amor e Ódio” falha miseravelmente. Em 409 páginas de história, não aparece nenhum personagem não-branco ou, abertamente, LGBTQ+.

“Ah, mas a história se passa na Idade Média, na Europa, não havia nada disso nessa época!”

Trata-se de um livro de fantasia. A história, claramente, se passa em um reino ficcional e em nenhum momento do livro é especificada a época em que a mesma ocorre. E mesmo que fosse, por se tratar de uma fantasia passada em uma região ficcional, não existem impedimentos quanto a presença de personagens não-brancos ou não heterossexuais na história.

Além do mais, não há nenhuma garantia histórica de que realmente não houvessem indivíduos não-brancos presentes na Europa durante a Idade Média e, sabe-se que a homossexualidade não é um fenômeno do século XXI. Até por que, como já foi inclusive trazido à tona em um artigo do site, a Idade Média não foi um período de batalhas constantes e nem exclusivo da Europa.

Esse tipo de argumento apenas demonstra como o status quo, ou seja, a automática determinação de que os personagens devem ser brancos e heterossexuais, já foi inteiramente internalizado na sociedade de tal forma que o que é vendido pelas instituições sociais – leia-se: branco, hétero, ocidental – torna-se a regra, o default, impedindo verdadeiros questionamentos tanto por parte do autor quanto do leitor. Se não, por que Mary E. Pearson escolheu não apresentar a sociedade de seu livro como ela é e sempre foi?

Conclusão:

The Kiss of Deception acerta no protagonismo feminino ao apresentar uma personagem principal forte e uma gama de personagens femininas únicas e – no geral – autossuficientes. A autora, porém, falha completamente no fator diversidade, não adicionando – pelo menos nesse primeiro volume – nenhum personagem não-branco ou não heterossexual, fenômeno que (infelizmente) é comum, mesmo em histórias ficcionais de Fantasia.

Nota: 2,8 de 5


The Kiss of Deception

Mary E. Pearson

384 páginas

Editora Darkside

Onde comprar: Amazon

 

 


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