[LIVROS] Voltar Para Casa: Uma história de violência, racismo, amor e redenção (Resenha)

[LIVROS] Voltar Para Casa: Uma história de violência, racismo, amor e redenção (Resenha)

Para quem nunca leu Toni Morrison, temos apenas um aviso: não há misericórdia em sua escrita. Sua ficção lírica, mais próxima de realidade do que qualquer documentário poderia ser, dilacera-nos. A violência, desesperança e racismo são colocados de forma tão corriqueira no cotidiano dos personagens que até mesmo as pessoas do “racismo não existe” sentiriam. Toni consegue transpassar dor em sua escrita. Uma dor tão forte que nos dá náuseas. Toni nos transmite a dor de viver. A dor de viver e resistir sendo negro(a). Antes de entrarmos na trama de Voltar Para Casa, vale falarmos um pouco sobre o livro em si.

Originalmente publicado sob o título Home, em 2012, o livro ganhou sua versão brasileira em 2016 pela Companhia das Letras, sob o título Voltar para Casa. Tão fiel quanto o original, o título traduzido manteve a sua essência.

Voltar Para Casa

Com uma capa forte, simbólica e tradução de José Rubens Siqueira, o livro nos delicia com 136 páginas que nos dão uma falsa sensação de que teremos uma leitura breve, mas é onde encontramos, conforme a própria editora descreve: uma narrativa de violência, amor e redenção.

“De quem é esta casa?
De quem é a noite que não deixa entrar a luz aqui?
Me diga, quem é dono desta casa?
Não é minha.
Sonhei com outra, mais doce, mais clara
com uma vista de Lagos que barcos pintados atravessam;
Esta casa é estranha.
Suas sombras mentem.
Olhe, me diga, por que minha chave encaixa na fechadura?”

A história gira em torno do regresso do jovem veterano de guerra Frank Money à sua terra natal, após lutar na Guerra da Coréia (1950 – 1953). No entanto, aquele rapaz que saiu de casa para lutar em terras estrangeiras não conseguiu voltar. Ou ao menos, não conseguiu voltar inteiro ainda que nenhuma parte de seu corpo tivesse sido perdida no campo de batalha.

Vítima de TEPT (Transtorno de estresse pós-traumático) – o conhecido trauma de guerra – Money é assombrado por flashbacks e paranoias, o que o leva a se entregar ao alcoolismo e o impossibilita de levar uma vida normal, dentro do que era possível considerar “normal” para um jovem negro, vivendo em plena segregação racial nos EUA daquela época.

“Venha depressa. Ela vai morrer se você demorar”

A grande verdade é que não foi o final da Guerra que fez Money atravessar o país para voltar à sua cidade natal, na qual, talvez, nunca mais pisasse se fosse possível. Não foi a saudade de casa, nem a busca por refúgio devido ao TEPT. Foi por Ci que ele voltou. Ela estava em perigo, poderia morrer.

“Lotus, Geórgia, é o pior lugar do mundo, pior que qualquer campo de batalha. Pelo menos no campo tem um objetivo, emoção, ousadia e alguma chance de vencer ao lado de muitas chances de perder. A morte é certa, mas a vida também é tão certa quanto. O problema é que não dá pra saber disso antes.”

Ycidra foi a primeira pessoa pela qual ele se responsabilizou ainda criança, sem mesmo saber o que responsabilidade significava. Depois, quando foi para a Guerra com seus dois melhores amigos, era por eles que ele se sentia responsável. Mas eles já não estavam lá, estavam? Os flashbacks que o aterrorizavam, o lembravam do que talvez ele quisesse esquecer: ele falhou. Não conseguiu protegê-los. Estavam mortos. Falharia também com Ycidra?

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Apesar de narrada em terceira pessoa, a história possui trechos em que os personagens interagem com a própria narradora e nos dão a sua versão da história que, há algumas páginas atrás, tinha nos sido passada pelos olhos daquela. A versão dos personagens, geralmente mais crua e sincera, nos desarma. Em uma fração de segundos, muda toda a nossa visão dos fatos. Nos dá repulsa por sentirmos empatia e vice-versa.

Temperada com desilusões, ingenuidades, violências domésticas e segregação, o passado de Ycidra e Money nos é apresentado como um prato que possui um gosto amargo e desagradável, mas que somos forçadas a comer para nos alimentarmos da narrativa.

“Olhe para você. Você é livre. Nada nem ninguém é obrigado a te salvar, só você mesma. […] Isso é escravidão. Em algum lugar aí dentro de você está essa pessoa livre de que eu estou falando. Encontre-a e deixe que ela faça algum bem neste mundo.”

O reencontro dos dois e, o então retorno, de fato, para casa, é apresentado como um processo de cura. No entanto, não uma cura na qual tomamos um remédio para a dor passar. Uma cura mais lenta, na qual nosso corpo febril tenta expulsar de si cada gota da enfermidade ao ponto de não sabermos se, ao matar a doença, morreremos com ela.

SOBRE A AUTORA

Voltar Para Casa

Toni Morrison, nascida em 1931, em Ohio, EUA, foi a primeira mulher negra (e, por enquanto, a única) a receber o prêmio Nobel de Literatura (1993). Formada em Letras pela Howard University, estreou como romancista em 1970, com O olho mais azul. Em 1975, foi indicada para o National Book Award com Sula (1973), e dois anos depois venceu o National Book Critics Circle com Song of Salomon (1975). 

Amada lhe valeu o prêmio Pulitzer. Foi a primeira escritora negra a receber o prêmio Nobel de literatura, em 1993. Aposentou-se como professora de humanidades na Universidade de Princeton, em 2006. (fonte)

FATOS HISTÓRICOS

Para entendermos um pouco o clima de segregação racial nos EUA, na época em que a história é contada, separamos algumas fotos do ensaio do fotógrafo Gordon Parks: The Restraints: Open and Hidden (algo como Os Restringidos: Aberto e Escondido)

Voltar Para Casa


Voltar Para Casa

Autora: Toni Morrison

Companhia das Letras

Este livro foi cedido pela editora para resenha

136 páginas. Edição: 1 (29 de março de 2016)

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Escrito por:

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Feminista e membra da União de Mulheres de São Paulo, onde é coordenadora adjunta do Curso de Promotoras Legais Populares, projeto voltado para a educação popular e feminista em direitos. É viciada em Lego, apaixonada por ficção científica/terror/horror, apocalipse zumbi e possui sérios problemas em procrastinar vendo gif’s e não lembrar o nome das pessoas. No mundo real é advogada.
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