[LIVROS] Essa Menina: A lembrança como ato político (Resenha)

[LIVROS] Essa Menina: A lembrança como ato político (Resenha)

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O romance Essa Menina é o título de estreia da escritora sergipana, radicada no Rio de Janeiro, Tina Correia. Ele foi publicado em 2016, pelo selo Alfaguara, da Cia das Letras, e está concorrendo na categoria de escritores estreantes ao Prêmio São Paulo de Literatura.

Essa Menina

Logo na primeira página do livro, somos apresentadas à sua narradora e protagonista: trata-se de uma mulher que deixou o Brasil durante os anos 1960 para viver em Paris, e que decidiu resgatar parte das lembranças da sua infância e juventude, vividas na pequena cidade de Paripiranga. Recuperando o próprio procedimento da recordação, o livro não avança sempre de forma linear.

A sequência dos acontecimentos é bastante fluída, permitindo avanços e recuos conforme a voz narrativa vai recuperando as imagens do passado. A reconstituição dessa história pela via da rememoração acompanha sobretudo o exercício da escrita, como anuncia Essa Menina – que é o nome pelo qual vamos conhecê-la, ao longo do livro.

Dispensei o computador porque o texto só ganhou fluência quando passei a escrevê-lo à mão. Descobri que, apesar da distância espacial e temporal, o bairro onde titia enterrou meu umbigo continuava vivo dentro de mim. Bastou iniciar o registro das primeiras reminiscências e me vi transportada para um tempo que ficou grudado nas bordas da lembrança. Então cavouquei ainda mais e raspei do tacho da memória histórias que eu nem sabia que havia guardado. Um assunto puxava o outro e às vezes bastava uma palavra para os casos brotarem da raiz da minha cabeça.”

O livro todo se organiza exatamente desse modo, adotando a forma de pequenos causos, relativamente fechados entre si e que giram em torno de algum detalhe ou acontecimento específico: a relação com a religião, com o corpo, com os pais, com as melhores amigas (e com suas respectivas famílias), com a escola, com as festas populares, com a cidade e, principalmente, com a História.

Conforme se avança na leitura, essa construção do livro vai causando um efeito interessante: vamos esquecendo que estamos diante de um romance, de um artefato escrito, e é como se passássemos a ouvir as histórias de alguma parente, uma tia ou uma avó. Da mesma forma como acontece quando estamos tentando nos lembrar de algo, é possível que iremos repetir algum detalhe ou omitir coisas que deveriam ter sido ditas anteriormente e que teriam nos esclarecido certas zonas de penumbra na história – como é o caso da história do pai d’Essa Menina – ou evitado alguns mal-entendidos.

Ser a leitora do romance de Tina Correia é estar preparada para ouvir a história inteira, mesmo quando, eventualmente, nós estejamos a ponto de nos impacientar com a narradora. Isso pode acontecer principalmente quando Essa Menina se alonga nos nomes das coisas: todas as músicas dos cantores favoritos de seus pais, todas as especialidades culinárias da família de Diacuí (uma das melhores amigas d’Essa Menina, junto com Das Dores), as brincadeiras infantis, as cantigas de roda, as rezas, os nomes e histórias de Santos e Santas, os preparativos para o São João e o Natal, todas as frutas dos quintais de seu bairro.

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Esse gosto pela enumeração, que pode parecer excessivo, passa a ser compreensível quando lembramos que Essa Menina está, há mais de cinquenta anos, longe de sua cidade natal. O resgate de sua história é, portanto, também um resgate linguístico, seja no tom da narrativa, seja no nome das coisas que preenchem as páginas do romance. Como ela mesma constata, em uma das poucas visitas que fez a sua cidade natal, muito daquilo que povoou a sua infância já se perdeu ou foi esquecido.

Durante muito tempo, ninguém soube o verdadeiro nome de Esperança. Para todos, ela era Essa Menina. Decidida a escrever a história de sua família, ela rememora a criança curiosa que vivia a escutar a conversa dos adultos. Ao descrever as festas, as comidas, as manhãs na escola, as lições de religião, as brincadeiras no quintal. Essa Menina revela ao leitor, ainda que sob a perspectiva infantil, as fragilidades dos que estavam à sua volta. É assim que acompanhamos a trajetória política de seu pai dentro do Partido Comunista; as excentricidades da tia solteirona; e tantas outras histórias.”

A partir desse ponto, é possível que você leia algumas informações importantes do livro. Então, se quiser evitar, só volte a esse texto após terminar a leitura. Esse mesmo cuidado deveria ter sido tomado pelos editores do romance. Nessa apresentação do livro, que se encontra na orelha do volume, o texto acaba entregando, logo de entrada, algumas informações que surgem ao longo da leitura, de forma sutil, em uma série de histórias não-ditas, tais como o nome da personagem, a participação política de sua família e o motivo de sua partida. Sobre o nome da personagem, nós a conhecemos como Essa Menina.

“– Eictha, que essa menina nasceu uma coisitinha de nada, magrinha, feinha, uma titica de gente, só pele e osso, meio branca, meio preta, meio índia. Assim, meio barro meio tijolo. Os olhinhos pretinhos espreitavam a gente que nem jabuticaba no pé.

Vivia contando, orgulhoso, minhas façanhas para os amigos. “Olha só o que essa menina faz. Essa menina já fala tudo. Essa menina já sabe engatinhar. Essa menina já sabe andar.”

De tanto ouvi-lo referir-se a mim como “essa menina”, deduzi que esse era o meu nome. Sempre que eu queria alguma coisa, dizia. “Essa Menina quer dormir. Essa Menina tá dodói.”

Entender-se como uma criança que se chama “Essa Menina” passa por um radical exercício de alteridade. Ela é esse indivíduo que se nomeia pela voz afetiva de um outro. O seu nome de batismo aparece apenas sutilmente, sugerido em trecho cheio de lirismo – que se perde um pouco com os textos de apresentação do romance, que já nos entregam essa informação.

“– As crianças demoravam uma semana para abrir os olhos. Você na mesma noite já observava tudo. Até sorriu. Parecia trazer esperança para nós todos. Nunca vi uma criança tão especulativa.”

A infância toda da personagem é marcada pelo nome Essa Menina. Esse fato vai mudar somente quando a personagem entra na escola pública, para cursar o ginásio e posteriormente a Escola Normal, no curso que formava professoras primárias.

Para minha felicidade, o professor aplaudiu minha dramatização quando, no final, levantei a mão direita no ar e expus minha indignação ‘O tempora! O mores’. Sorte a minha, porque a partir daí, confesso, eu não sabia mais o texto. Ele perguntou o meu nome e eu respondi automaticamente:

Essa Menina.

Irônico, o velho rebateu:

Essa Menina não é nome de gente.

Percebi que uma nova fase da minha vida se iniciava.”

Essa nova fase na vida da narradora, marcada por essa mudança de tratamento, se dá em várias instâncias. Ela começa a frequentar uma escola diferente da que frequentara na infância, com seus amigos, para estudar em um lugar mais restrito, com uma formação mais elitista. Além disso, o seu corpo também muda.

Quando a personagem menstrua pela primeira vez, ela pouco fica sabendo sobre o que está acontecendo. Ela apenas ganha calcinhas coloridas, bordadas com sua inicial (para não misturar com as da irmãs) e só. Sua amiga Das Dores tenta lhe explicar melhor, mas é punida por sua mãe por estar tendo “esse tipo de conversa”. Mais tarde, já no final da adolescência, Essa Menina percebe até onde vai esse tabu em relação à menstruação.

Foi por essa época que apareceu nas farmácias da cidade um produto destinado ao público feminino: o Modess, absorvente feminino que substituiu as toalhinhas higiênicas. Foi recebido como a solução para os nossos incômodos, mas trouxe outro problema: como comprá-lo?

Nas farmácias, só existiam vendedores do sexo masculino; anunciar o pedido era revelar uma situação. Uma vergonha. Além disso, como sair da loja carregando o pacote denunciador de nossa condição física? Nenhuma mulher tinha coragem de ir à farmácia sozinha. A solução era sair em grupos. Fazíamos o pedido, sempre em voz baixa. Percebendo nosso constrangimento, os donos das drogarias passaram a deixar os pacotes embrulhados em papel pardo. Era só pegar e dar o dinheiro ao vendedor. Mas o problema persistia, porque tínhamos que sair com o pacotão e muitas vezes ouvir comentários jocosos de homens deselegantes.”

A solução da personagem foi não se esconder e enfrentar, não apenas a vergonha daquela situação – que não deveria ser motivo de embaraço, à princípio – mas os comentários inoportunos que ouvia eventualmente. Apesar de ter crescido em meio a uma atmosfera quase mágica, a personagem torna-se uma mulher que aprendeu a ver a realidade de uma forma muito lúcida e corajosa.

O romance propõe que a leitora acompanhe o crescimento d’Essa Menina e, nesse percurso, muitos temas difíceis acabam surgindo e se desenvolvendo, mesclando sua história privada – e a de todas as mulheres de seu convívio –, com a história política do país.

O resgate do passado pela via da escrita, em Essa Menina, pode ser tomado como um desejo nostálgico, de uma mulher que está há muito tempo longe de sua infância e de seu país. No entanto, o romance ganha densidade se compreendermos o exercício de rememoração como um ato político. A personagem resgata, para que seja registrado, para que não seja silenciado e não seja esquecido, não apenas as cenas idílicas da infância, mas principalmente os acontecimentos que definiram o rumo de sua existência: a violência e a tortura no início da Ditadura Militar, que só puderam ser reelaborados quando se estabeleceu uma distância “segura” entre o presente e os acontecimentos traumáticos.

Essa Menina, de Tina Correia, é um romance que vale a pena ser lido, com calma e com consideração, fazendo pausas para aproveitar o trabalho com a linguagem e como se fôssemos testemunhas e herdeiras das histórias dessas mulheres.


Essa Menina

Essa Menina: De Paris a Paripiranga

Autora: Tina Correia

Editora: Alfaguara

272 páginas

Ano: 2016

Este livro foi fornecido pela editora para resenha

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Autora

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Professora, feminista, pesquisadora em literatura, engajada na missão de ler sempre mais mulheres. É viciada em livros & séries. Tem sempre um lugar especial no coração para Star Wars, filmes da Ghibli & gatos.
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