[LIVROS] Norma: exploração de corpos femininos através da metáfora de Sofi Oksanen (resenha)

[LIVROS] Norma: exploração de corpos femininos através da metáfora de Sofi Oksanen (resenha)

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Norma é um daqueles livros premiados que poucos conhecem. Da mesma autora de As Vacas de Stalin, propõe-se a discutir maternidade, padrão estético e controle sobre os corpos femininos. A finlandesa Sofi Oksanen constrói uma história irreal, por vezes delirante, acerca de uma mulher e sua relação com o mundo, narrada através dos problemas de seus cabelos.

Cabelos e preocupações maternas

Norma e sua mãe, Anita, sempre foram próximas. Um segredo as isolava do restante mundo: os cabelos de Norma. Dotada de cabelos que cresciam mais do que o normal, Norma sempre foi considerada uma aberração. Mas não era apenas isto. Além do crescimento anormal, eles tinha propriedades “mágicas”. Se a anomalia de Norma fosse descoberta, sua vida seria destruída. Jornalistas, cientistas, supersticiosos. Todos correriam atrás dela. Todos teriam algum interesse no diferencial de Norma. E quando Anita morre, Norma precisa enfrentar essa realidade sozinha.

Norma não sabia, mas Anita também escondia segredos dela. Antes de se jogar nos trilhos do metrô, Anita envolveu-se com a misteriosa família Lambert. Os Lambert pertenciam ao passado de Anita. No entanto, há muito não interagiam, ao menos desde o surto de Helena. Para descobrir o que levou Anita ao suicídio, Norma precisará refazer os passos de sua mãe e enfrentar os segredos do passado. Entre vícios e crimes, descobrirá que seus cabelos são a chave para um grande negócio.

Norma assusta a um primeiro olhar. Afinal, o enredo não é nada convencional. Por vezes, não parece fazer sentido. Uma protagonista, uma família misteriosa, cabelos que crescem mais de um metro por dia e podem sentir emoções. Todavia, aos poucos os pontos se conectam. E por trás do irreal, revelam-se grandes problemáticas contemporâneas, sobretudo as pertinentes às mulheres.

A maternidade é, talvez, o tema principal em torno da história de Sofi Oksanen. De início, percebe-se a existência de uma mãe disposta a tudo para salvar sua filha. Sua morte mais parece um sacrifício, mas ela era a única pessoa capaz de explicar a Norma as condições de sua decisão. Então, aparecem Max Lambert e seus dois filhos, Marion e Alvar. E Norma decide ir mais a fundo nesse mistério.

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Sonhos vendidos por homens às mulheres

Nos últimos meses de sua vida, Anita trabalhou junto a Marion em um salão de beleza. O que a leva a esse trabalho, mesmo após tudo o que Lambert fez com sua melhor amiga, Helena, é uma incógnita que somente será descoberta no final. Sabe-se apenas que, de algum modo, a loucura de Helena, os negócios de Lambert e os cabelos de Norma estão interligados.

No salão, Anita apresenta aos seus chefes os milagrosos cabelos ucranianos. Diversas mulheres, incentivadas pelos padrões estéticos, desejam os belos cabelos que Anita tem a oferecer. É, como acreditam, a fórmula para a felicidade. Condicionam seu sucesso à aparência física. E assim, contribuem para o domínio de Lambert, que lucra em cima de sonhos impostos, enquanto também esconde seus verdadeiros negócios.

“Agora, as mulheres têm os mesmos direitos, as mesmas oportunidades, e, ainda assim, não ficamos com os lucros. Nós apenas oferecemos todo o material para muitos setores de cosméticos. Oferecemos mão de obra. Século após século, oferecemos nossos rostos, cabelos, úteros, seios, e ainda são os homens que embolsam o dinheiro que é ganho com tudo isso.”

Lucros da maternidade compulsória e da exploração feminina

O salão de beleza da família Lambert é apenas uma fachada para a verdadeira fonte de renda. Lambert descobriu que poderia lucrar em cima de corpos femininos de outras formas além da estética. Ele percebeu algo hoje conhecido por maternidade compulsória. Vislumbrou que existiam muitas famílias ansiosas por herdeiros, mas incapazes de gerá-los, e também dispostas a qualquer coisa para tê-los, simplesmente pelo status de ter um filho biológico.

O esquema de barriga de aluguel surgiu, então, como uma oportunidade para o ganancioso homem. Mulheres dispostas a trabalhar para ele não era um problema quando a mão de obra era encontrada em países pobres ou em situação de guerra. Da mesma forma que podiam fornecer seus cabelos para o sustento familiar, podiam oferecer seus úteros. E na ausência de mulheres voluntárias, Lambert não evitava o uso da força.

O material da inseminação era, em geral, do casal de compradores. Mas não havia empecilho também às técnicas naturais, nas quais mulheres eram vendidas como escravas sexuais sob a justificativa da maternidade. Também não havia oposição a pedófilos que desejassem crianças para seus prazeres sexuais. Entre tráficos de mulheres e de crianças, exploração sexual e agenciamento de barriga de aluguel, Lambert fez sua fortuna em cima da exploração feminina. Acerca do assunto, cabe relembrar as palavras de Silvia Federici em Calibã e a Bruxa, a qual afirma que “mesmo quando os homens alcançaram certo grau de liberdade formal, as mulheres sempre foram tratadas como seres socialmente inferiores, exploradas de modo similar à escravidão“.

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A normalidade desejada

Tudo o que Anita desejava era proteger sua filha. Mas a história de sua antepassada Eva, revelava que sempre haveria pessoas, homens principalmente, dispostas a lucrar com o que havia de especial em uma mulher. Podia ser apenas a beleza ou podia ser o dom. Um homem sempre surgiria para se apropriar do feminino. Anita não podia controlar o mundo, mas podia tentar mudar a condição de Norma. Podia lutar para que ela tivesse uma normal. Podia lutar para que ela tivesse filhos como tantas mulheres. Podia apagar o que havia de especial em Norma para que não atraísse olhos ambiciosos.

Como para muitas mulheres, a solução vislumbrada para Norma era o isolamento ou a extinção de sua peculiaridade. Às mulheres não é socialmente permitido dispor de seus dons, senão quando em proveito e sob o controle de homens. Ao menos é o que Anita entende através de suas ações.

Em um arriscado plano, Anita tenta ajudar sua filha e vingar sua amiga. Não somente isso, tenta vingar as inúmeras mulheres exploradas por homens. Enquanto Lambert lucrava sobre corpos femininos, Norma tinha que se esconder, Marion tinha que se subjugar e Helena definhava em uma prisão, enlouquecida por fantasmas estimulados pela relação com Lambert. Porque, em um dado momento, as mulheres que criam obstáculos ao poder masculino, são consideradas insanas para o convívio social.

Norma

Os responsáveis pela opressão

Norma, porém, não apresenta apenas pontos positivos. Sofi Oksanen tenta inserir junto à sua discussão sobre a opressão aos corpos femininos, a opressão a diferentes etnias. Aborda a exploração aos países pobres, insere brevemente a homoafetividade masculina, e tenta discutir superficialmente a opressão aos negros. No entanto, a perspectiva realizada é a de uma mulher branca europeia. Algumas passagens soam estranhas, mas compreende-se a intenção de problematizar situações de exploração. Afinal, todas as temáticas apresentam como inimigo a supremacia branca, heteronormativa e masculina.

“É mais fácil usar alguém que não seja igual a você”

O final deixa a desejar. Apesar de Norma falar de mulheres lutando contra a exploração de seus corpos, não cria verdadeiros laços de empatia entre elas. São mulheres unidas por um fim, mas que não se comunicam adequadamente. Não obstante, apresenta um final protagonizado por um homem. Se era a intenção da autora, é impossível saber. Mas no fim, mesmo após todas as problemáticas, o último grande ato é masculino. Como diria a personagem Anita, o coração de Norma traiu sua mente.

De todo modo, é uma leitura interessante. Apresenta a reflexão acerca da maternidade por uma perspectiva diferente. A sinopse do livro não sugere que tantos problemas serão abordados. Norma realiza reflexões importantes sobre um mundo de opressão e conecta-as à lúdica metáfora do cabelo.


Norma

Sofi Oksanen

Editora Record

322 páginas

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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