Nina Simone: a voz que rompeu o silêncio e não teve medo de buscar a liberdade

Nina Simone: a voz que rompeu o silêncio e não teve medo de buscar a liberdade

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Sob o olhar e direção de Liz Garbus, o documentário What Happened, Miss Simone?, disponível na plataforma de streaming Netflix, discorre sobre a obra e trajetória de vida e luta da insurgente artista norte-americana Nina Simone (1933-2003).

Por meio de entrevistas a amigos, ex-colegas de trabalho, familiares, bem como recortes de cartas e depoimentos da própria Nina Simone, colhidos em diferentes momentos de sua carreira; o documentário lança luz sobre o universo singular da cantora de jazz, compositora, pianista e ativista dos direitos civis da população negra, que nasceu em Tryon, nos Estados Unidos (EUA) e eternizou-se através do vasto legado lírico, de resistência e político, corporificado em sua voz única e potente que não se permitiu ser silenciada. “Liberdade para mim é não ter medo. Eu já me senti livre nos palcos”.

Em uma época profundamente marcada pela segregação racial e violência aos negros, Eunice Kathleen Waymon, conhecida posteriormente pelo nome artístico de Nina Simone, era oriunda uma família de poucos recursos financeiros, que integrava um grupo social invisibilizado pela sociedade branca e norte-americana de então.

Nina, segundo relata no documentário, sonhava em se tornar a primeira pianista clássica negra dos EUA. Então, desde muito cedo começou a dedicar-se com afinco às aulas de piano, ministradas a título gratuito por uma senhora, a quem conheceu, em razão de tocar na igreja desde os quatro anos de idade.

Nina Simone
Na imagem: Nina Simone (reprodução)

Na infância, Nina chegava a tocar piano oito horas seguidas, diuturnamente, o que a tornava uma criança muito solitária. Solidão decorrente também do isolamento por que passava em face da discriminação e segregação racial do seu meio. De acordo com relatos mostrados no documentário, a primeira vez que Nina experimentou na carne a discriminação racial fora na infância. Ao ser convidada a tocar piano, em um recital da biblioteca de sua cidade, os organizadores do evento impunham aos pais dela que se sentassem distanciados do público presente, aos fundos, pelo mero fato de serem negros.

A mulher negra como o outro do outro

Historicamente, a mulher negra e pobre compõe o grupo mais vulnerável e estigmatizado dentro da normatização hegemônica, pois ela representa, simbolicamente, um lugar de subalternidade e é alvo do somatório de opressões de gênero, classe e raça.

Se para a filósofa Simone de Beauvoir, a mulher corresponde a um segundo sexo, ao outro do homem – pois é enxergada sempre em função do homem e sob o olhar masculino, distanciando-se da condição de um ser para si – a escritora e artista Grada Kilomba nos traz o conceito da representação da mulher negra, como “o outro do outro”:

“(…) as mulheres negras habitam um espaço vazio, um espaço que se sobrepõe às margens da raça e do gênero, o chamado terceiro espaço.”

Foi subvertendo esse lócus social, de apagamento e de violência à humanidade da mulher negra, que Nina gravou sua trajetória de luta e insurgência no mármore da história, bradando para o mundo e para muitas gerações o seu grito por liberdade e igualdade racial. Por meio da sua voz e das suas canções que se tornaram hinos em defesa dos direitos civis dos negros, chegando a participar de importantes momentos do movimento contra a segregação racial, como a Marcha de Selma; a aguerrida artista opôs-se a exercer a função de ser “o outro do outro” e reproduzir o discurso hegemônico.

Nina Simone

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Em 1964, ela mudou de distribuidora fonográfica, passando da American Colpix para a gravadora holandesa Philips, o que também significou uma mudança no conteúdo das gravações. Simone sempre incluiu canções que remetiam à sua origem afro-americana em seu repertório (como Brown Baby e Zungo, no álbum “Nina at the Village Gate”, de 1962).

Em seu álbum de estreia na Philips, “Nina Simone in Concert” (gravação ao vivo de 1964), Simone, pela primeira vez, referiu-se à desigualdade social que prevalecia nos Estados Unidos com a canção “Mississippi Goddamn”; sua resposta ao assassinato de Medgar Evers e a explosão de uma igreja em Birmingham, Alabama – que matou quatro crianças negras.

Contudo, seu engajamento no ativismo político rendeu-lhe represálias da indústria fonográfica que passou a boicotar seus discos, deixando a artista em uma situação de esquecimento dos holofotes da mídia e do público, o que a fez, muitas vezes, cantar em bares decadentes para poder angariar algum dinheiro a fim de manter o próprio sustento.

A violência sexista na vida de Nina Simone

As opressões estruturais de gênero, raça e classe estão interconectadas, portanto, não podem ser tratadas de forma separada. Há um lócus social de subalternidade que impede a alguns grupos de terem direito à voz e à humanidade. Assim, a mulher negra e pobre está no lugar de maior apagamento e marginalização da sociedade.

Nos dizeres da filósofa Djamila Ribeiro, as opressões agem de forma combinada, não podendo haver hierarquias entre elas e preferência de luta. Nina Simone habitou e conheceu esse lugar de maior vulnerabilidade. Além da discriminação racial, ela também sofreu por muitos anos, violência doméstica perpetrada por Andrew, seu então marido e pai de sua filha. Em uma das entrevistas mostradas no documentário, a artista relata um episódio em que sofrera agressão física e violência sexual por parte do marido. Por amá-lo, ela revelou ficar destruída por dentro quando ele a espancava.

Nina Simone
Na imagem: Nina Simone e Andrew (reprodução)

Após anos de casamento e relacionamento abusivo, Nina deixou uma carta para Andrew e partiu, esclarecendo o término da relação.

Uma voz que rompeu o silêncio

Como ser uma artista e não refletir sua própria época?”, indagou Nina Simone, ao repórter que a entrevistava e perguntava sobre seu ativismo político. Uma mulher de espírito livre que conseguiu romper os grilhões de uma época tomada pela segregação em relação à cor da pele, Nina Simone não só resistiu e reexistiu em tempos tenebrosos de ódio; mas, principalmente, fez florescer e tocar com sua música de protesto, infinitos corações.

Fugindo ao lugar que lhe fora socialmente designado de “o outro do outro”, Nina despertou um desconforto típico de quando as vozes silenciadas rompem o estado mudo e o apagamento a que foram impelidas. Quando essas vozes são ouvidas, elas representam uma ruptura de correntes e a promessa de mudança para uma nova forma de ser e sentir.

https://www.youtube.com/watch?v=iuN3SGzLGmw


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Autora

Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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