De Almodóvar a Paco León: a romantização do estupro na ficção

De Almodóvar a Paco León: a romantização do estupro na ficção

Sabemos que a ficção pode enveredar por caminhos obscuros, nos deixando em uma zona cinza desconfortável, com escolhas narrativas que nos deixam sem saber como reagir, mesmo levando o “não real” em consideração. De outro lado há a cultura do cancelamento que não aceita nenhum desvio dentro dos discursos sociais, e que pede total coerência de seus influenciadores e criadores de conteúdo.

A pergunta que fazemos é se é possível apreciar uma obra de ficção por seu caráter estético, mas ainda assim aproveitar de suas temáticas para pensar em uma realidade mais justa, ou até mesmo entender que a realidade pode ser inspirada pela ficção? O que podemos introjetar de aprendizado do argumento a princípio pedófilo de “Lolita” de Nabokov?

A partir daí pretendemos traçar um paralelo no cinema espanhol, pensando nas escolhas narrativas de dois de seus criadores. Do icônico roteirista e diretor malaguenho Pedro Almodóvar, ao ator, diretor e produtor sevilhano, Paco León, e em como eles retrataram o estupro em seus filmes: “Fale com ela” (2002), e “Kiki: os segredos do desejo (2017), respectivamente.

Fale com ela (2002), de Pedro Almodóvar

Fale com Ela - Almodóvar
Cena do filme “Fale com Ela”.

Pedro Almodóvar, com setenta anos de idade, é um diretor/autor com um portfólio de vinte e cinco filmes que encheram as telas do cinema. As principais características dele são suas cores vermelho forte, figurinos Dior, e muito protagonismo feminino nas últimas quatro décadas. As “mulheres de Almodóvar” ficaram conhecidas como seres apaixonados e fortes, como Raimunda de “Volver” (2006), personagem ícone interpretada por sua parceira recorrente, Penélope Cruz.

É inegável o talento que Pedro tem para construir narrativas surrealistas e dramaticamente pungentes, com momentos inesperados de um humor quase escrachado. Já em “Kiki: os segredos do desejo”, de Paco León, não tem como ignorar a homenagem, tanto pelo ritmo e direção dos atores, quanto pela direção de arte. León tem 45 anos e é primeiramente um ator muito reconhecido que também já dirigiu três filmes, além de duas séries para a televisão e dois curta-metragens.

De Almodóvar a Paco León: a romantização do estupro na ficção
Paco León, Javier Cámara e Pedro Almodóvar. (Imagem: Divulgação)
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“Fale com ela” (2002) é considerado um dos maiores filmes do Almodóvar. Ele foi premiado com um Oscar pelo roteiro original, e um Globo de Ouro por melhor filme de língua não inglesa. Almodóvar também foi nomeado na época por sua direção, também no Oscar, perdendo para Roman Polanski por “O pianista”.

Em “Fale com ela” acompanhamos a história da toureadora Lydia (Rosario Flores), e da bailarina Alicia (Leonor Watling), e o estado de coma que as duas compartilham no mesmo quarto de um hospital. Acompanhamos também as histórias dos homens que as amam, o namorado de Lydia, Marco (Darío Grandinetti), e de Benigno (Javier Cámara), o stalker e depois enfermeiro de Alicia.

Trata-se de um filme intimista que nos aproxima desses homens com masculinidade pouco viril, homens sensíveis que amam ouvir Caetano Veloso e se emocionam em concertos de música. No artigo de Renata Farias, “Silêncio e meta-linguagem em ‘Fale com ela’”, a professora se aprofunda nessas representações dos gêneros no decorrer do filme, e elabora as representações imagéticas de tabus familiares e de gênero que Pedro Almodóvar lança mão diversas vezes no decorrer de suas obras.

Almodóvar jovem
Pedro jovem. (Imagem: Divulgacão)

A parte preocupante acontece no momento em que o enfermeiro Benigno resolve ter relações sexuais com Alicia que está em coma, e a mesma acaba engravidando. E então, a partir da confirmação da gravidez o hospital toma as medidas necessárias em relação ao estupro, e Benigno acaba preso.

Do ponto de vista do roteiro e da visão de Almodóvar como diretor o estupro é repreendido. Entretanto, levantam-se todas as condições para que pensemos em uma possibilidade de violação que não seja violenta: no caso de Benigno, não se pode culpar o amor?

Fale com ela
Cena de “Fale com ela”. (Imagem: Reprodução)

Kiki: os segredos do desejo (2017), de Paco León

A mesma questão se passa em “Kiki: os segredos do desejo”, baseado no longa australiano “A pequena morte” de Josh Lawson. O filme conta a história de cinco pessoas com preferências sexuais variadas, desde o pulsão por transar com alguém chorando até o tesão ao ver pessoas dormindo. Todas as cenas são apresentadas de maneira bastante divertida e didática, com os letterings enunciando os nomes de cada um dos fetiches retratados.

O ritmo latino sexual que Paco traduz do australiano para o espanhol são bastante sedutoras, com um ritmo envolvente. Entretanto, isso ocorre até o momento em que um dos protagonistas resolve medicar a esposa, para que possa transar com ela enquanto dorme. Todas as escolhas desse núcleo são equivocadas e parecem escritas pelo Danilo Gentili.

A esposa é uma mulher amarga que destrata o marido, e Paco escolhe mostrar esse desenrolar de acontecimentos de uma maneira cômica, terminando com uma declaração de amor. Claramente, um apelo para o estereótipo da mulher que só é amarga porque é “mal comida”.

Ao assistir o filme no cinema, um pouco desnorteada depois da conclusão da cena, percebi que não estava sozinha no meu desconforto quando uma mulher ao meu lado comentou com seu acompanhante: “Mas isso é estupro”. E sim, foi estupro e o diretor fez questão de romantiza-lo, da mesma forma como Almodóvar o fez em “Fale com ela”.

Cena de "Kiki: os segredos do desejo"
Cena de “Kiki: os segredos do desejo”. (Imagem: Reprodução)

A cultura do estupro e o cinema

A chamada “cultura do estupro” é um realidade cada vez mais reconhecida e nomeada nas redes sociais muito por conta das movimentações de coletivos feministas. Um exemplo é a hashtag #MeuPrimeiroAssedio criada pelo Think Olga. Ela foi criada depois da polêmica gerada a partir de comentários sexuais a respeito de uma das participante de doze anos do Masterchef Júnior.

Para a professora Valeska Zanello, autora do livro “Saúde Mental e Gênero. Diálogos, Práticas e Interdisciplinaridade”, é importante contextualizar de forma mais abrangente a “cultura do estupro”, pensando em uma “cultura da objetificação misógina da mulher”. Além disso, é necessário levar em consideração que o estupro em si é apenas a ponta do iceberg de toda a nossa construção patriarcal violenta. Segundo uma pesquisa de 2018 levantada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram reportados 180 estupros por dia e em 89% dos casos o estuprador era companheiro ou ex-companheiro da vítima, como na história de Paco León.

Não precisamos cancelar o Paco León e muito menos o Pedro Almodóvar para concordar que com seus filmes eles apenas cooperaram com a naturalização dessa cultura. Não é isso que esperamos do cinema, muito pelo contrário.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

Escrito por:

Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Formada em comunicação social, publicitária em atividade e estudante de Filosofia. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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