Um dia com Jerusa: reconfigurando a memória ancestral (23ª Mostra de Tiradentes)

Um dia com Jerusa: reconfigurando a memória ancestral (23ª Mostra de Tiradentes)

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Um dia com Jerusa“, de Viviane Ferreira, é um acontecimento na nossa historiografia cinematográfica. É o primeiro longa-metragem brasileiro de ficção com uma equipe majoritariamente formada por mulheres negras. Elas estão nas principais funções criativas do filme: direção, roteiro, fotografia, montagem, direção de arte e produção. Ao apresentarem a obra em sua estreia na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, a equipe disse que para muitas delas era a sua primeira vez ocupando essas funções num longa-metragem. Como disse Viola Davis ao ganhar um dos principais prêmios de atuação estadunidense, o que falta às mulheres negras é apenas a oportunidade para trabalhar no audiovisual, já que talento e dedicação há aos montes. Portanto, nesse texto celebramos as primeiras vezes e o pioneirismo daquelas que abrem caminhos.

No longa-metragem, Viviane Ferreira retoma alguns temas de seu curta de 2014, “O dia de Jerusa“. O roteiro aposta no melodrama, uma vez que a protagonista é uma exímia contadora de histórias. A icônica e consagrada atriz Lea Garcia dá vida a Jerusa Anunciação. Faz-se relevante apontar sobre a importância de personagens negras apresentarem nome e sobrenome como um elemento intrínseco à narrativa, uma vez que por décadas foram retratadas de modo desumanizado e estereotipado no cinema. Lea Garcia vai dividir a cena com a jovem Debora Marçal e é no encontro dessas duas mulheres de gerações diferentes que o filme acontece.

Debora Marçal interpreta a sensitiva Silvia, uma mulher que trabalha numa empresa de pesquisa de marcas para o mercado consumidor e que vai de porta em porta ao encontro de pessoas dispostas a responder perguntas. Ao apresentar essa personagem, o longa insere, com muito acerto, um elemento que não estava no curta: Silvia é lésbica e experimenta uma relação afetiva estável com uma colega de trabalho. Ao mesmo tempo, é cobrada pela companheira sobre quando será apresentada a sua avó. Em meio a essa preocupação, além de ter que trabalhar, estudar e fazer provas de concurso público, Silvia bate à porta da casa de Dona Jerusa e é ao adentrar essa fortaleza cheia de mistérios que a narrativa se desenvolve.

A atriz Lea Garcia e a cineasta Viviane Ferreira na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes
A atriz Lea Garcia e a cineasta Viviane Ferreira na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Foto: Netun Lima/Universo Produção)
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Essas duas mulheres, que à princípio são completamente diferentes, começam a se dar conta de inúmeras semelhanças. Jerusa encarna a figura de um griot, que na cosmovisão de vários países africanos é aquele que não deixa a memória morrer, transmitindo a História de forma oral. A cada pergunta feita por Silvia sobre sabão em pó (produto objeto da pesquisa que a levou ali), Jerusa vai contando partes de seu (ou seria nosso?) passado a partir de memórias relacionadas a sua mãe e sua avó.

A ancestralidade é uma marca definidora da belíssima narrativa escrita por Viviane Ferreira, que leva para as telas do cinema uma família de mulheres marcadas pelo passado brasileiro colonial e escravagista que se dedicaram ao ofício de lavar roupa e à fotografia. A direção do filme marca esse aspecto na cenografia. Jerusa tem na arte do olhar, através do registro fotográfico, a sua grande paixão. Afinal, uma exímia contadora de histórias é, em geral, uma observadora atenta e minuciosa. Assim como no curta-metragem “Cores e Botas” (2010), de Juliana Vicente, e no longa “Corra!” (2017), de Jordan Peele, aproveita-se a arte de fotografar para a composição de personagens a que, historicamente, não era dado o direito de olhar.

Ao percorrer pelo passado de Jerusa, que começa a afetar o presente de Silvia, o filme faz uso demasiado de trilha musical incidental para expressar a carga emocional das personagens e das situações em que se encontram imersas, assim como do dispositivo apresentado para alternar os tempos narrativos representados nos transes de Silvia. A potência do texto e a atuação das duas atrizes através da montagem conjugada à direção de arte, já seriam suficientes por si só para dar conta do sentido das cenas. Esse artifício próprio dos melodramas acaba por se sobrepor ao quadro de forma a deslocar à imersão que o roteiro propõe.

A sutil transformação que a personagem mais nova vai experimentando ao se dar conta de suas origens através dos relatos da mulher mais experiente é uma das construções narrativas mais belas e potentes do cinema negro brasileiro recente. Uma cena em particular é bastante simbólica. Quando Jerusa traz à tona lembranças íntimas, Silvia percebe-se suja de sangue menstrual. De forma quase onírica, o único sangue que vemos em tela é o de uma mulher que lava sua calcinha deixando para trás um passado de angústia e sofrimento visando reconfigurar outro futuro.

Em “Um dia com Jerusa”, Viviane Ferreira deixa claro que é possível realizar um filme que evoca um passado amargo e violento sem convocar essas imagens para a tela do cinema. Novos imaginários e fabulações sobre o passado e o presente podem e devem ser criados para forjamos outras configurações de futuro.

Por fim, vale ressaltar que o tema da solidão da mulher negra é abordado com enorme sutileza, tal qual já havia sido proposto no curta-metragem que antecede o longa. A espera infinita pelos familiares de Jerusa, que nunca chegam para comemorar seu aniversário, é portanto o fio condutor da narrativa. Afinal, uma mulher negra brasileira poder celebrar os seus 77 anos de vida é um feito enorme.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Autora

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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