Maria Luiza Machado fala sobre o seu livro “Tantas que aqui passaram”

Maria Luiza Machado fala sobre o seu livro “Tantas que aqui passaram”

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Evocar uma imagem por meio da literatura é prática comum e mais facilmente executada pela prosa, mas alguns autores conseguem trazer um cenário completo, composto por lugares com sons e cheiros em poucos versos. É o caso de Maria Luiza Machado, autora do livro Tantas que aqui passaram, publicado pela Mormaço Editorial, editora independente fundada em 2020 que ela mesma coordena. Lançado em março deste ano, o livro reúne mais de 25 poemas. 

Maria Luiza nasceu em 1995, no município baiano de Feira de Santana, interior do estado, e atualmente é habitante da capital. Antes de Tantas que aqui passaram, publicou Algumas histórias sobre a falta, editado pela própria em 2018 e relançado pela editora Mondrongo, e Todos os Nós, lançado pela editora Penalux em 2019. Também idealizou e organizou a antologia digital Corpo que queima, que reúne 41 poetas baianas. 

Com a Mormaço, criada por Machado e seu sócio Daniel Pasini, seu livro é o primeiro lançamento da editora, cujo objetivo é dar maior visibilidade aos autores nordestinos. Foi concebido no primeiro semestre do ano passado e viabilizado por meio do financiamento coletivo, uma via comum em publicações independentes. Além disso, também foi selecionado pela editora Urutau para publicação; entretanto, acabou saindo pelo projeto autoral de Maria Luiza.

Créditos: João Régis Novaes

“é que lhe ensinaram
a vida inteira
que mulher só existe
de um jeito apenas
e o que fugisse
daquela listinha
podia ser qualquer coisa
menos
mulher”

(Catarina, p. 42)

Tantas que aqui passaram é um livro de potência imagética. Cada poema funciona como uma personagem, um micro conto protagonizado pela mulher-título. A autora tematiza o trabalho, a maternidade, os relacionamentos amorosos e familiares, a solidão, o cotidiano e tudo aquilo que a condição de ser mulher oferece. Muitas vezes melancólico, os poemas abrem espaço para a pluralidade feminina com todas as suas dores e prazeres.

Alguns dos destaques vão para “Carina”, um poema bem curto sobre o choro preso na garganta e as lágrimas que não desabam, e para “Jenifer”, que mistura o diálogo e o silêncio numa poesia um pouco mais longa. Também nos encanta a repetição e a marcação do tempo em “Flávia”, além dos sonhos que construíram cidades em “Marta”. 

Seja de “Jéssica”, “Vanessa” ou “Dandara”, as histórias de Maria Luiza Machado falam alto e reverberam. As ilustrações de Isabela Sancho, que acompanham a poesia, compõem com delicadeza a visualidade, apesar da abundância de traços. Dessa forma, Tantas que aqui passaram é um livro sincero, um ponto de graça e luz no meio da desordem da vida diária.

Confira a seguir nossa entrevista com a autora.

Delirium Nerd: Como foi o processo de escrita dos poemas e quanto tempo levou do momento que você decidiu escrever diretamente para o livro até a concretização do projeto em si? Se não me engano, saiu em março deste ano, foi isso?

Maria Luiza: Sobre o processo de escrita dos poemas, em vez de ter uma personagem, foram várias. Cada poema é uma personagem, são 29 poemas. E o que eu continuei fazendo foi o mesmo exercício do livro anterior [Todos os Nós]. Queria continuar escrevendo sobre outras pessoas, imaginar até fisicamente uma pessoa para escrever sobre.

O primeiro poema do livro foi também o primeiro que eu escrevi, que é sobre a visita na casa de uma amiga da minha família que morava no interior. Eu me lembro muito da casa dela, e então resolvi escrever sobre isso. Em seguida, pensei “será que eu consigo lembrar de outras situações assim ?”. Portanto, fui escrevendo e gostei da ideia. 

Posteriormente, lembrei de outras situações de amigas minhas que são próximas, além de mulheres que já passaram por mim, que não são tão próximas, mas pessoas que eu conheço de longe, sabe? Outras personagens femininas eu inventei, e foi mais ou menos isso.

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O processo do término da escrita não foi demorado, apesar de não lembrar exatamente a duração. Mas eu deixei esse livro guardado durante um tempo, até que apareceu a Jarid Arraes, uma escritora que eu sou muito fã, com um serviço de mentoria para autoras. Ela disse que eu não precisaria da mentoria e que editaria o meu livro. Logo em seguida ficamos muito próximas.

Já processo de edição foi bem rápido. Como eu nunca tinha passado por isso antes, já que eu mesma editava minhas próprias publicações, foi ótimo ter o olhar de outra pessoa. 

Em seguida, fiz uma campanha de financiamento coletivo e um amigo meu sugeriu abrir minha própria editora. Assim, aproveitei e vi que não custava caro abrir uma empresa. Após a abertura, o livro foi publicado pela minha própria editora, que é a Mormaço Editorial. 

No final das contas, apesar de ter demorado mais de um ano entre o livro terminar de ser escrito até chegar na mão dos leitores em março, fiquei muito satisfeita com o resultado.

Delirium Nerd: Cada poema funciona como uma personagem, mas como foi articular os nomes e as histórias? Você falou que algumas você inventou, outras são realmente pessoas que você conhece. Como foi a seleção desses nomes?

Maria Luiza: Foi de um jeito bem aleatório mesmo. Eram nomes para sair do óbvio em algumas situações. Só teve um que eu deliberadamente escolhi, pois gostaria que fosse parecido com o nome da pessoa (inspiração), que foi o caso de “Augusta”. O da pessoa era outro e eu queria que de alguma forma remetesse ao nome e “Augusta” foi o mais parecido.

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Delirium Nerd: Você citou a Jarid Arraes como uma pessoa que você é fã. Como que a produção contemporânea que você consome influencia no que você está fazendo? Ou não influencia? Tudo que a gente escreve pode estar atravessado pelo o que a gente lê e pelo o que a gente consome. Isso funciona desse jeito pra você também?

Maria Luiza: Sim, totalmente. Eu só consegui me auto declarar poeta por causa da poesia contemporânea brasileira, minha maior referência. Achava que eu escrevia contos em formato de versos. Portanto, ao ler os poetas atuais que eu consegui me encontrar dentro dessa denominação. A mesma coisa foi com a “escritora”. Pensava que com um livro na mão eu seria escritora, mas não, teve todo um processo. 

Créditos: João Régis Novaes
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Delirium Nerd: A Jarid Arraes sempre comenta sobre o processo de escrita dela em Redemoinho em dia quente, quando voltou ao Cariri para a composição de algumas histórias. Eu vi que você nasceu em Feira de Santana e foi morar em Salvador em 2014. Portanto, você teve alguma influência ou inspiração semelhante com a de Jarid, de retornar ao lugar que nasceu como parte do processo criativo? Ou você já estava imersa em outro momento da vida?

Maria Luiza: Um pouco dos dois. Como cada poema é de uma pessoa completamente diferente uma da outra, esse primeiro poema, sobre a amiga da minha família, eu retornei mentalmente nesse lugar, tentando recordar daquele ambiente e daquela cidade. A mesma coisa ocorreu com as outras mulheres do livro. Portanto, foi um voltar para aquela história, retornar para aquela mulher no sentido de pensar muito sobre, não fisicamente. 

Delirium Nerd: Sabemos que existe uma forte presença no mercado editorial brasileiro de autores(a) do eixo sudeste-sul e isso acaba deixando muitas outras pessoas de fora. Então, quais são os próximos passos da Mormaço?

Maria Luiza: Essa questão do sul e do sudeste, dessa monopolização, não ocorre apenas no mercado editorial, mas em todos os mercados. É engraçado como os escritores daqui têm mais ou menos duas opções: ou publicam livros de forma totalmente independente ou procuram alguma editora do sudeste, que foi o meu caso e de vários amigos meus.

As editoras daqui são um pouco “fechadas”. Existem editoras grandes, que têm lojas próprias e circulam bastante no estado, além de livros de poetas que são adotados pelas escolas locais. Mas são editoras que circulam apenas por aqui. É difícil uma pessoa jovem ou nova na escrita entrar nessas editoras. São locais que publicam majoritariamente acadêmicos, professores de literatura ou doutores em literatura daqui, portanto é um cenário restrito.

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Então essa era minha maior vontade, além dos jovens e dos novos escritores: criar uma editora de referência nesse sentido. Você é novo, quer publicar ou nunca publico, e eu queria que a Mormaço fosse essa referência. Lógico que a gente se propõe a uma linha editorial específica, mas que fosse uma alternativa, de certa forma. Por isso que a minha assessora de imprensa, a Marcela Güther, tenta levar o que estamos fazendo na Mormaço para outros estados, como agora.

Nosso próximo lançamento será o primeiro livro de contos do autor Saulo Machado. Sou fã da escrita dele há muito tempo, inclusive têm textos dele na revista da Mormaço. E em 2019, organizei uma antologia de poetas baianas (Corpo que queima) e agora pretendo realizar o segundo volume dessa antologia. Vamos lançar também o livro de Danna Dantas, que é uma escritora manauara. Ela editou o meu primeiro livro e é uma das editoras da revista da Mormaço.

Delirium Nerd: Para fechar, queria saber como está sendo a recepção do Tantas que aqui passaram?

Maria Luiza: Tem sido boa, apesar de ser difícil. No Instagram, tenho recebido mensagens legais e as vendas estão indo bem, que é o importante. Talvez por conta da pandemia é diferente lançar um livro sem evento presencial. Diferente porque parte do percentual dessas pessoas que compram o meu livro já me conhecem, outras compram por causa da Mormaço. Então é um tipo de entrada na prateleira de pessoas distintas.

Uma das mais novas vozes da literatura brasileira, Maria Luiza Machado mostra em Tantas que aqui passaram uma enorme destreza na construção de poemas tão delicados e fortes simultaneamente. Com a Mormaço Editorial, uma iniciativa necessária, a autora movimenta o cenário nacional abrindo espaço para outros escritores tão talentosos quanto ela.


Edição por Isabelle Simões. Revisão por Gabriela Prado.


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Autora

Carioca, estudante de Cinema e Audiovisual, flamenguista e gateira em tempo integral. Em seus momentos livres, pode ser encontrada nas redes sociais comentando sobre literatura escrita por mulheres, cinema de horror ou a última corrida da Fórmula 1.
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