Bela Vingança: um filme controverso sobre a cultura do estupro

Bela Vingança: um filme controverso sobre a cultura do estupro

A diretora Emerald Fennell fez de Bela Vingança (Promising Young Woman, título original), um filme aclamado nas premiações de 2021. Porém, o longa não deixou de criar muita controvérsia entre o público e a crítica. Muitas espectadoras ficaram decepcionadas ao ver que o filme não é exatamente do gênero de “vingança de estupro” (ou rape revenge, no qual a protagonista que foi abusada sexualmente persegue seus algozes e se vinga deles, geralmente com muita violência) tal qual o trailer fazia parecer. Outras ficaram incomodadas com a narrativa que a diretora traçou, culminando num final anticlimático e pouco satisfatório.

AVISO: o texto abaixo contém alguns spoilers

A trama de Bela Vingança

Cassie (Carey Mulligan) em Bela Vingança
Cassie (Carey Mulligan) em Bela Vingança. | Imagem: reprodução

Cassie (Carey Mulligan) tem quase 30 anos e ainda vive na casa dos pais, o que os incomoda bastante. Ela trabalha numa cafeteria e todas as noites finge estar bêbada em bares pela cidade, se fazendo de isca para homens abusadores que a levam para casa. Quando eles tentam abusar dela, ela se mostra sóbria de repente e, à primeira vista, parece encenar alguma vingança contra eles. Só que, mais a frente, a diretora revela que Cassie nada mais faz do que dar uma lição de moral nos caras, que surpreendentemente não reagem com violência contra ela, e sim ficam com medo.

Essa primeira quebra de expectativa já dá o tom do filme inteiro. Em Bela Vingança, Emerald Fennel constrói toda a narrativa na base de expectativas a serem quebradas. Aliado a uma estética fofa e colorida, isso traz uma atmosfera misteriosa e muito envolvente ao filme. A “vingança” de Cassie contra os homens não é bem o que se espera, o namorado que ela arruma mais a frente não é o cara legal e bondoso que parece a princípio, e tudo vai se desconstruindo a partir do que foi sendo apresentado até então.

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Promising Young Woman
Cena de Promising Young Woman (2020) | Imagem: reprodução

Com o desenrolar da história, descobrimos que Cassie estudava medicina numa universidade, mas sua melhor amiga foi estuprada por um dos alunos e se suicidou um tempo depois. Traumatizada com o evento e com o descaso das pessoas ao redor, Cassie largou o curso e passou a tramar um plano para se vingar de todos os envolvidos.

Foco na técnica faz narrativa de Bela Vingança ficar confusa

O grande objetivo da diretora de estabelecer reviravoltas, infelizmente acaba trabalhando em detrimento da coerência da história. Emerald Fennell parece muito mais preocupada em criar vários momentos de surpresa do que em traçar um arco crível para Cassie. Pior ainda, fica difícil decifrar qual mensagem exatamente ela quer passar sobre a cultura do estupro em geral.

Entretanto, um acerto de Bela Vingança é a representação das pessoas coniventes com o crime. Todas aquelas que menosprezaram o ocorrido com a amiga de Cassie, desde a diretora da universidade até uma amiga do curso, são procuradas por Cassie, que lhes prega algumas peças como vingança.

Além disso, todos aqueles que continuaram a falar com o aluno estuprador mesmo depois de saberem do crime, e também o advogado que defendeu o criminoso judicialmente, são responsabilizados durante o filme. Até mesmo os que não tiveram nenhuma relação direta, como os homens que Cassie encontra no bar, são responsabilizados por perpetuar a cultura do estupro em suas ações cotidianas.

Cassie em Promising Young Woman | Imagem: reprodução
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Entretanto, as pessoas das quais Cassie se vinga mais “intensamente” são outras mulheres, e Fennell não evidencia nenhum comentário sobre a personagem estar perpetuando um machismo inconsciente nessas ações, para justificar esse desbalanço no filme. O advogado do criminoso é perdoado por Cassie de forma muito rápida e nada crível, e praticamente nada acontece com o namorado que passava pano para o amigo estuprador.

Pior ainda: o final anticlimático, com a morte de Cassie pelo estuprador, e a prisão dele pela polícia em seguida, é a parte que menos satisfez várias das espectadoras, que se sentiram privadas de sua tão esperada vingança catártica. Além de ser menos crível ainda o fato de Cassie ter planejado tudo isso antecipadamente.

Cassie confrontando um dos homens que querem se aproveitar dela por aparentar estar bêbada. | Imagem: reprodução
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Esses pontos de reviravolta, principalmente no final, além de trazerem elementos anticlimáticos, incomodam por uma falta de coerência narrativa, de construção de personagens e de uma mensagem clara sobre o tema. Emerald Fennell quis criar uma espécie de quebra cabeça que vai se revelando aos poucos, mas cuja imagem formada ao final é bastante borrada e confusa.

O gênero de vingança de estupro, embora tenha muitos problemas intrínsecos (e às vezes seja usado até mesmo para perpetuar imagens de violência contra mulheres, justificadas pela vingança final), funciona ao menos como uma catarse para as espectadoras. Se não encontramos justiça no mundo real, pelo menos essas narrativas servem como uma fantasia escapista. Portanto, é uma pena que Emerald Fennell, ao tentar desconstruir o gênero, tenha tirado dele a única coisa que realmente justificava sua existência.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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