60 anos de Bonequinha de Luxo: Holly Golightly e o desenvolvimento da mulher moderna no cinema

60 anos de Bonequinha de Luxo: Holly Golightly e o desenvolvimento da mulher moderna no cinema

Em um plano geral que mostra parte da famosa Quinta Avenida enquanto está amanhecendo, ao som da trilha incidental de Moon River, avistamos um táxi amarelo atravessando uma Nova York totalmente vazia. A passageira desce em frente a joalheria Tiffany. Avistamos assim uma figura alta e esguia, usando vestido e luvas pretas, um colar de pérolas, óculos escuro Oliver Goldsmith e uma coroa como componente de um penteado elegante. A mulher para em frente a vitrine da loja e fica um tempo apreciando seu conteúdo. O letreiro com o título Breakfast At Tiffany’s (no Brasil o título ficou Bonequinha de Luxo) aparece.

Ela aproveita para tomar seu café e comer um croissant, que foram comprados exatamente para serem consumidos naquele local.  A mulher segue para olhar outra vitrine da mesma loja. Agora, finalmente, temos um plano que a mostra de frente, pois até então só tínhamos visto seu rosto através do reflexo. Ela caminha mais um pouco, finaliza o café, joga a embalagem em um lixeiro e segue para sua casa.

Holly Golightly (Audrey Hepburn) na cena inicial de Breakfast At Tiffany's (Bonequinha de Luxo, no Brasil)
Imagem | Reprodução

A cena descrita acima dura menos de três minutos e é a sequência inicial de Bonequinha de Luxo (1961), de Blake Edwards. Tal cena já foi referenciada e citada em várias outras obras e é uma das mais conhecidas e amada do meio cinematográfico. O look de Holly Golightly (Audrey Hepburn), assinado por Hubert de Givenchy, virou ícone fashion, e já inspirou muitos outros looks.

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Um dos looks mais recentes, foi o da cantora Lady Gaga em sua participação no Oscar de 2019. Quando ela ganhou o prêmio de melhor canção por Shallow – que aqui no Brasil é chamada carinhosamente (ou não) de “juntos e shallow now”. A cantora se vestiu de forma semelhante a Holly e ainda usou um diamante icônico da Tiffany (avaliado em 30 milhões de dólares), que também foi usado por Hepburn. Além disso, Bonequinha de Luxo serve de referência para muitos ensaios fotográficos e o figurino é copiado em muitas festas à fantasia.

Lady Gaga com o look inspirado em Holly Golightly na cerimônia do Oscar de 2019
Lady Gaga com o look inspirado em Holly na cerimônia do Oscar de 2019. Imagem | reprodução

E é assim, como um filme que ainda é bem presente na cultura popular, que Bonequinha de Luxo vira sexagenário. O longa inspirado no livro homônimo de Truman Capote, foi lançado em 05 de outubro de 1961.  O autor idealizava Marilyn Monroe para o papel de Holly, mas segundo consta no livro “Quinta Avenida, 5 da manhã”, os produtores queriam uma atriz que não fosse considerada um sex symbol.

Quando o papel foi oferecido para Audrey, ela a princípio ficou um tanto relutante, mas por fim acabou aceitando interpretar aquela que seria a personagem mais famosa de sua carreira. No entanto, para além de seu figurino incrível, uma trilha sonora impecável e uma atuação maravilhosa de Audrey Hepburn, a obra traz várias questões importantes para serem discutidas.

Algumas famosas que já se vestiram como Holly Golightly
Algumas famosas que já se vestiram como Holly Golightly. Da esquerda para direita na fileira de cima: Anne Hathaway, Natalie Portman e Mariana Ximenes. Na fileira de baixo: Lavínia Vlasak, Paris Hilton e Sandy. Imagem | reprodução
Alerta: O texto contém alguns spoilers dos filme

Os ideais de Holly Golightly

Holly Golightly é uma mulher moderna que busca ser independente. Ela mora sozinha, leva a vida da forma que lhe agrada e é uma prostituta de luxo. Embora sua profissão seja retratada pela narrativa de uma forma mais discreta do que no livro, ainda vemos a garota se encontrando com alguns homens. Apesar de fazer parte de um sistema que explora financeiramente o corpo feminino, Holly, por outro lado, chama atenção para outras barreiras impostas às mulheres.

A personagem de Hepburn não dá muita importância para os preceitos vigentes de propriedade doméstica feminina. E, sendo assim, ela se mostra o contrário do que se espera de uma boa esposa. Frequenta festas durante à noite, dorme tanto quanto pode durante o dia e direciona sua rotina do dia a dia de acordo com o que lhe agrada, como quando bebe champanhe como primeira refeição depois que acorda.

Holly Golightly em Bonequinha de Luxo
Holly Golightly aproveitando o dia para dormir. Imagem | reprodução

Holly é uma mulher solteira, que desconsidera os padrões que ditam como mulheres que moram sozinhas devam se comportar. A garota exibe em sua personalidade a mesma vontade que muitas jovens tinham. A de ir além das amarras e códigos sociais e tentar alcançar a liberdade que a sociedade lhe negava. Essa autonomia social que a personagem tinha ficou refletida nos anos 1960. Uma década na qual alguns paradigmas femininos finalmente começaram a ser questionados.

Bonequinha de Luxo também nos mostra que o glamour e a elegância podem estar disponíveis para qualquer pessoa. Não é porque você não faz parte da alta sociedade que não pode transformar o seu círculo de convívio.

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Audrey Hepburn como Holly Golightly
Holly busca sempre se manter elegante. Imagem | reprodução

Mas para além disso, Holly está buscando se encontrar. Por essa razão, ela vive um estilo de vida sem remorsos e restrições, colocando em evidência sua independência feminina. Acha que as pessoas não devem pertencer umas às outras. Por isso ela não se arrisca nem mesmo a dar um nome ao gato de estimação, já que ambos devem ser livres.  Mas pelo fato de a sociedade conceder opções de trabalho consideravelmente limitantes para as mulheres, boa parte delas foram incentivadas a se casarem para ter uma vida melhor e Holly de certa forma acaba tomando para si esse discurso.

Durante a narrativa a protagonista revela que um dos seus objetivos é casar-se com um homem rico. Pois, apesar de Holly ser uma mulher desconstruída em vários pontos, é alguém que também possui seus traumas. Ela e seu irmão Fred viveram uma infância miserável no interior. Por isso, aos 14 anos, quando ainda era conhecida por Lula Mae, seu verdadeiro nome, ela se casou com Doc Golightly (Buddy Ebsen). Ele era um homem muito mais velho e com vários filhos, mas que poderia lhes dar melhores condições de vida. Dessa forma, podemos compreender a fuga contínua de Holly de pessoas e ambientes que parecem aprisioná-la.

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Sendo assim, após algum tempo, ela decidiu abandonar o marido e foi viver uma vida diferente em Nova York. Enquanto isso, seu irmão continuou sendo criado por Doc, até o momento em que Holly pudesse ter dinheiro suficiente para trazê-lo e morar junto com ela. Talvez casar-se com um homem rico foi uma das formas que ela encontrou de poder ter condições de voltar a ter Fred junto dela.

O apartamento de Holly Golightly
O apartamento de Holly Golightly. Imagem | reprodução

Alguns dos problemas de Bonequinha de Luxo  

Apesar de Holly ser muito cativante, ela não é perfeita, pelo contrário, ela demonstra ter vários defeitos, com algumas falas preconceituosas e humores inconstantes. Por exemplo, quando ela comenta com seu vizinho Paul Varjak (George Peppard) a respeito dos filhos que pretende ter com o brasileiro José da Silva Pereira (José Luis de Vilallonga), homem que ela escolheu para se casar.

Holly fala que as crianças vão ter a cor de José, mas que ela espera que tenham a cor de seus olhos. Ela fala da questão da cor da pele como se fosse um defeito, mas que a cor dos olhos, caso sejam claros, pode compensar. Contudo, José até tinha a intenção de levar Holly para o Brasil, mas dá a entender que não pretende se casar com ela. Porém, ele desiste do relacionamento quando ela é presa e se afasta dela.

Um outro problema do filme, que é um dos mais criticados, se trata do yellowface feito pelo ator Mikey Rooney, que interpretou o Sr. Yunioshi, um caricato japonês, que é um dos vizinhos de Holly. O personagem traz uma atuação estereotipada e racista, e o pior é que ele funciona meramente como uma espécie de alívio cômico. Afinal, as cenas das quais ele faz parte não são relevantes para a trama, logo, o personagem foi construído justamente para que fosse feito uma piada desnecessária com orientais.

Yellowface feito pelo ator Mikey Rooney, que interpretou o Sr. Yunioshi, em Bonequinha de Luxo
Mikey Rooney e o tão mal criticado yellowface do Sr. Yunioshi. Imagem | reprodução

Enfraquecimento da identidade revolucionária de Holly

No seguimento final de Bonequinha de Luxo, podemos observar que a identidade subversiva que Holly mostra ao longo do filme vai enfraquecendo. A garota busca resistir às investidas de Fred, que está apaixonado por ela, assim como ela também está por ele. Porém, enquanto discutem no táxi, ela tenta manter a sua política de ser alguém que não pertence a ninguém nem a lugar algum. Alguém sem nome e sem lugar fixo.

“Eu não sou Holly, também não sou Lullamae… Eu não sei quem sou”.

Enquanto isso, Paul fica repetindo que a ama e que ela o pertence. Holly argumenta com o excelente discurso de que pessoas não pertencem às pessoas e que ninguém vai colocá-la em uma jaula. Paul diz que quer amá-la, não colocá-la em uma jaula. Ela rebate dizendo que é a mesma coisa. Afinal, a personalidade livre de Holly acredita que compromisso entre um homem e uma mulher gera a perda de autonomia para um dos dois. E de acordo com a sociedade machista que vivemos, normalmente são as mulheres que estão fadadas a perderem sua autonomia.

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Cena em que Holly Golightly sai correndo na chuva atrás do gato e de Paul
Holly pouco antes de sair correndo na chuva atrás do gato e de Paul | Gif: reprodução

A partir do momento em que Paul sai do táxi e Holly vai atrás dele, a cena conserva a fórmula de gênero em que as convicções masculinas vencem os princípios femininos. Após encontrarem o pobre gato que Holly tinha expulsado do táxi, a garota passa por cima de seus ideais e decide dar uma chance para seu relacionamento com Paul. Os dois se beijam em um beco com várias latas de lixo em volta. Enquanto isso, a mise-em-scène exibe a placa da loja do outro lado da rua, na qual está escrito Pawn Brokers (Loja de Penhores).

Holly, por fim, é enquadrada dentro de um discurso cinematográfico masculino alinhado ao romance hollywoodiano, condensado por beijos na chuva sob uma placa de “Loja de Penhores”. Holly começa a história tomando café da manhã em frente a Tiffany, usando um vestido preto super elegante, convicta de sua autonomia e ascensão social como mulher independente, mas termina o filme beijando Paul em um beco. As cenas são muito contrastantes, é como se ela estivesse aceitando em deixar seus ideais de liberdade e do que lhe agrada de lado.

Cena final de Breakfast At Tiffany's
Cena final de Bonequinha de Luxo. Imagem | reprodução
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Assim, Bonequinha de Luxo não conclui sua proposta inicial de criar e manter Holly como uma personagem revolucionária na narrativa. Muito provavelmente os produtores ficaram com medo de o filme não ser bem aceito pelas famílias tradicionais, caso Holly permanecesse tão revolucionária. Afinal, ela sai do interior, abandona o marido, vai morar sozinha, se envolve com vários homens, não sabe cozinhar, não se preocupa com a organização da casa, e se diverte muito com tudo isso. Porém, por mais que Holly tentasse ser transformadora, cautelas e precauções sociais foram tomadas para conter a personagem. Como se quisessem se certificar de que ela não pudesse estruturar movimentos femininos e ter êxito nessa transformação.

Concluindo, Bonequinha de Luxo foi, sim, um passo evolutivo e progressivo no cinema quando pensamos em representatividade feminina nos filmes. No entanto, a falta de incentivo para que Holly mantenha sua personalidade revolucionária é algo bem comum na nossa realidade. O longa nos faz desenvolver a noção de que nós, mulheres, estamos sendo vigiadas constantemente, já que vivemos em uma sociedade dominada por homens. E é triste pensar que 60 anos se passaram e os ideais sexistas que não permitiram que Holly se mantivesse fiel às suas ideologias ainda imperam atualmente.

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Denise é bacharela em cinema e tem amor incondicional por tal arte. Pesquisa e escreve sobre feminismo e a representação das mulheres na área do audiovisual. É colecionadora de DVDs, fã da Audrey Hepburn, apaixonada por Rock n' Roll e cultura pop. Adora os agitos dos shows de rock, mas tem nas salas de cinema seu local de refúgio e aconchego.
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