Morte e Vida Severina: filme híbrido ancora o poema original na realidade

Morte e Vida Severina: filme híbrido ancora o poema original na realidade

O livro-poema de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, lançado em 1955, é uma de suas obras mais famosas, e rendeu diversas adaptações, seja peças teatrais encenadas ou musicadas, assim como até um filme de animação lançado em 2010.

Em 1977, Zelito Viana se antecipou ao adaptar o poema para o audiovisual, criando um filme híbrido (mistura de ficção com documentário). Considerando a importância social que o texto trazia, sobre um retirante do sertão pernambucano em rumo ao litoral, Zelito buscou retratar várias pessoas em situação similar ao protagonista da obra, Severino.

Assim, em Morte e Vida Severina acompanhamos uma encenação onde atores interpretam várias versões de Severino, lendo trechos do poema original, entrecortada por várias cenas documentais de pessoas pobres que relatam sua situação, todas muito conscientes do problema político que as rodeia, além da mera condição ambiental da seca.

Cena de Morte e Vida Severina | Imagem: Reprodução
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No poema, Severino parte ao longo do rio Capibaribe até a capital Recife, em busca de uma vida melhor, acreditando que basta fugir da seca e da falta de emprego da região. No caminho, entretanto, conhece várias pessoas em precariedade e, ao chegar ao destino final, se dá conta que mesmo em meio à abundância de recursos, as pessoas continuam vivendo na pobreza e no abandono estrutural.

Zelito acompanha o caminho do personagem nas partes documentais, entrevistando pessoas desde o sertão seco até a zona da mata e litoral, onde as pessoas vivem o problema contrário, com suas casas alagadas pelas cheias do rio.

Conhecer o poema melhora a experiência do filme

O filme se torna mais fácil de acompanhar e mais potente se a espectadora já for familiarizada com o poema original (para quem não teve contato com o texto na escola, várias informações e resumos estão facilmente disponíveis na internet). Dessa forma, vamos acompanhando a interpretação de Zelito do poema, trazendo alguns atores como Stenio Garcia, Tania Alves e Elba Ramalho no elenco. Há vários trechos musicados, com trilha composta por Chico Buarque. O mais conhecido é provavelmente Funeral de um Lavrador.

Cena de Morte e Vida Severina | Imagem: Reprodução

Ao final, após perder toda a esperança de uma vida melhor, Severino é resgatado do desespero por um evento que o lembra do propósito da vida, e o torna alguém disposto a lutar por seus direitos e por seus iguais. Servindo como filme-denúncia, reforçando o forte cunho social da obra original de João Cabral com as imagens de pessoas reais, Morte e Vida Severina termina com uma longa cena ficcional de celebração que quase romantiza a condição daquelas pessoas ao final. Porém, logo somos lembradas que a vida significa resistência, mesmo nas piores condições. Mesmo que seja uma vida severina.

Autora:

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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