“Big Mouth” e a puberdade manifesta

“Big Mouth” e a puberdade manifesta

A puberdade é um momento turbulento: corpo em formação, desenvolvimento de relações, provavelmente junto com a vida escolar. Arte e entretenimento retratam o período de diversas formas, com filmes e séries adolescentes e coming of age (termo em inglês para histórias sobre amadurecimento), mas o que seria uma representação fiel de algo vivenciado de forma tão intensa e também tão plural?

Big Mouth (2017-presente), série animada da Netflix, se propõe a pintar esse retrato da forma mais abrangente e literal possível. Tocando em assuntos como sexualidade, gênero e relações familiares, a série de comédia para adultos teve a sexta temporada lançada em outubro de 2022.

Big Mouth aposta em uma história diferente: um grupo de jovens entre doze e treze anos no mesmo colégio está começando a passar pela adolescência, e as mudanças hormonais são representadas literalmente por monstros. Essas criaturas, os monstros hormonais, são parte do monólogo interno dessas crianças, e põe em questão tudo que começa a mudar com a idade: o físico, o desejo, a relação com os colegas.

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Beirando sempre entre o absurdo e o educativo, a série empurra os limites com um humor que pode ser considerado sujo e um conteúdo que, de forma geral, tende a ser simultaneamente cru e educativo.

Puberdade (e outras coisas mais)

Andrew (John Mulaney) está no auge das mudanças corporais, com seu monstro hormonal, Maury (Nick Kroll). O garoto está descobrindo os prazeres da masturbação, e Maury o incentiva a explorar as sensações o máximo possível – o clássico conto do adolescente.

Nick, por outro lado, se sente cronicamente para trás: por que seu corpo não muda? Ele tem relação com mais de um monstro hormonal, e sua insegurança é um dos seus principais motivadores durante a série. Jessi (Jessi Klein) experiencia menstruação, masturbação e tudo que vem atrelado ao amadurecimento de uma mulher cis.

Maury (Nick Kroll), Andrew (John Mulaney) e Nick (Nick Kroll) em episódio de Big Mouth
Maury (Nick Kroll), Andrew (John Mulaney) e Nick (Nick Kroll) em episódio de Big Mouth | Imagem/Foto: Reprodução

Os três protagonistas não são os únicos que acompanhamos: Missy (Ayo Edebiri) é uma garota alegre filha de um pai negro e mãe branca, e experiencia a puberdade com uma série de questionamentos e inseguranças com raça, relações e aparência. Jay (Jason Mantzoukas) é um menino de tesão ilimitado de um lar extremamente precário, Matthew (Andrew Rannells) é um adolescente gay que quer conhecer namorados fora da escola e morre de medo da mãe descobrir sua sexualidade.

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Durante as seis temporadas, a narrativa segue diversos personagens, com diferentes vivências de raça, gênero e sexualidade.

Uma das grandes sacadas da Big Mouth é concretizar sentimentos, angústias e hábitos na forma de criaturas: os hormônios insanos com os monstros hormonais, o amor com besouros do amor (que podem se metamorfosear para minhocas do ódio), a ansiedade com mosquitos, a depressão com um gigantesco gato que pode se deitar sobre você, a vergonha como o fantasma de um mago velho e flutuante. Todas essas representações tornam a história fácil de se identificar, colocando sentimentos difíceis de colocar em palavras com um formato físico.

Complexidade e controvérsias de Big Mouth

Com uma temática tão delicada quanto a sexualidade na adolescência, a série não seria capaz de escapar de controvérsias. Além de críticas ao humor intencionalmente exagerado e visual, o absurdo de alguns arcos podem causar desconfortos.

Além disso, ao se propor retratar diversidade, a série já cometeu erros. Na terceira temporada, a personagem Ali (Ali Wong) explica pansexualidade de uma forma infeliz: descrevendo que pansexuais gostam de homens, mulheres e tudo que está entre os dois, categorizando bissexualidade como binária e usando uma metáfora que implica que pessoas trans não se encaixariam nas categorias “homem” e “mulher”.

A explicação recebeu críticas dos espectadores, e os criadores da série fizeram uma retratação: Andrew Goldberg e Nick Kroll assumiram o erro publicamente, declarando que “quando tentamos definir algo tão complexo quanto sexualidade humana, é super desafiador e que dessa vez eles poderiam ter feito melhor” (tradução livre). 

Em seis temporadas, Big Mouth tratou de masturbação, depilação, menstruação, conflitos de identidade racial, bissexualidade, pansexualidade, assexualidade, transgeneridade, conflito intergeracional, saúde mental e diversos outros tópicos. A vasta gama de assuntos aumenta a chance de representações falhas e erros, mas a equipe criativa parece aberta a aprender e se adaptar.

Mas será que vale assistir Big Mouth?

Uma série como Big Mouth pode facilmente ser confundida com outras animações de humor irreverente (flertando com o absurdo e o grotesco), mas se destaca por abraçar pontos de vista diversos e desenvolver personagens complexos. A abordagem quase didática sobre diferentes temas torna o desenho um refresco em um cenário de séries de desenho adulto que abraçam indiferença e um humor que brinca com o ofensivo.

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Com mais de sessenta episódios, a série também conseguiu inserir experimentações de roteiro e formato. Desde variações mais tímidas com algum personagem narrando diversas histórias ou quebra de quarta parede até a literal aparição de Nick Kroll em live-action no final de uma temporada.

O sucesso da série inclusive gerou um spin offRecursos Humanos (2022), também na Netflix. O desenho foca nas criaturas de Big Mouth, retratando o fantástico mundo desses seres não-humanos, e introduzindo outras angústias para debate, como depressão pós parto e vícios. A série não é tão cativante quanto a original, mas tem o mesmo estilo e abordagem.

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Mathew (Andrew Rannels) e Maury (Nick Kroll), seu monstro hormonal
Mathew (Andrew Rannels) e Maury (Nick Kroll), seu monstro hormonal | Imagem/Foto: Reprodução

A temporada mais recente de Big Mouth (2022) não é a mais forte da série, mas introduziu novos personagens e aprofundou diversas discussões sobre relações familiares. O episódio final, “Fucked Up Friday”, é um olhar catártico, um pouco esquisito e bastante absurdo sobre conflito geracional.

O humor ácido, explícito e surreal de Big Mouth certamente não vai agradar todo mundo, mas é uma experiência cômica e intensa que retrata muito bem os obstáculos da vida – não só da adolescência.

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Bia é formada em economia, pesquisadora e escritora, porque não só de números vive a alma. Obcecada por internet e cultura, gosta de escrever para entender o mundo. É leitora assídua de todo tipo de ficção, adora cinema, fazer perguntas e comer comida boa.
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