[SÉRIES] Master of None – 2ª temporada: Definitivamente não é apenas mais uma comédia

[SÉRIES] Master of None – 2ª temporada: Definitivamente não é apenas mais uma comédia

Na última sexta-feira (12/05) estreou na Netflix a segunda temporada de Master of None, série dirigida, roteirizada, e protagonizada por Aziz Ansari. Nessa quase auto biografia, ele interpreta Dev Shah, um ator nova-iorquino de 30 anos, lidando de uma forma bem divertida sobre os problemas que permeiam a vida adulta, e é quase impossível não se identificar com alguns dos episódios. Mas mais do que um relato bem humorado, desde a primeira temporada, Aziz arranjava formas de colocar discussões bem necessárias pra nossa sociedade, sempre de uma forma leve e fácil de entender (como no episódio “Eles e Elas”, da primeira temporada, em que trata sobre machismo e misoginia).

Atenção: Contém Spoilers da 2ª temporada de Master of None

Nessa segunda temporada de Master of None, no entanto, percebemos grandes mudanças se comparada à primeira. As discussões deixam de ser o foco dos episódios, porém ao longo destes, diversas críticas são feitas, de uma maneira muito mais ácida do que costumávamos ver. Também temos um Dev menos extrovertido, e muito mais preocupado com o caminho em que sua vida está seguindo. A idade, aliada a um emprego em que ele não se sente feliz, e a ausência de conexão amorosa com alguém. Mas, sinceramente, não são apenas por esses fatores que a segunda temporada de Master of None chama a nossa atenção.

O primeiro impacto se deu no terceiro episódio, intitulado “Religião”. Nele, Dev entra em um confronto com seus pais, que pedem para que ele finja ser um indiano devoto, o que ele definitivamente não é. Além de começar com cenas de várias crianças sendo obrigadas pelos pais a irem em suas respectivos templos religiosos, o episódio ainda nos faz questionar algumas imposições feitas, e o porquê algumas delas serem tão importantes de ser seguidas, ainda mais quando são minorias em alguns países.

Master of None

Em “Primeiro Encontro”, o episódio seguinte, além daquela ressalva básica a como as coisas estão ficando bem superficiais com todo esse lance de aplicativos de namoro, vemos ainda discussões em dois encontros do Dev sobre como algumas minorias são tratadas nesses APPs, de forma fetichista, ou bem ignoradas se comparadas a pessoas que se encaixam nos padrões de beleza impostos.

– Uma negra nos aplicativos? Outra situação. Comparada às minhas amigas brancas, tenho menos procura. E raramente dá match com caras de outra raça.

– Eu também. Muito dos meus matches são com indianas. Li que homens asiáticos e mulheres negras se dão pior nos aplicativos.

– É bom que os brancos tenham vantagem em algum lugar. Um brinde a eles.

[Primeiro Encontro (S02E04)]

Master of None

Mas um dos temas mais importantes abordados nesta temporada, definitivamente foi a homossexualidade negra, no oitavo episódio, chamado “Ação de Graças”. Nele, vemos a trajetória de auto aceitação e aceitação da família de Denise – uma mulher negra e lésbica.

“Negros não gostam muito de falar sobre ser gay. Alguns negros pensam que ser gay é uma escolha. Quando descobrem que têm um filho gay, tentam entender o que fizeram de errado. É mais pesado para os negros. Tudo é uma competição para nós. E os filhos são como troféus. Ser gay estraga o troféu.”

[Ação de Graças (S02E08)]

De tremenda importância assim como o episódio citado anteriormente, temos o último da temporada: “Buona Notte”. E incrível o timing perfeito dessa temporada com nossa atual situação aqui no Brasil. Há pouquíssimo tempo tivemos 3 denúncias de abuso contra funcionários globais. E temos exatamente a mesma situação neste episódio, que nos surpreende absurdamente.

Ao longo da série, conhecemos o Chef Jeff (Bobby Cannavale), responsável pelo programa em que Dev estava apresentando. Desde início ele se demonstra uma ótima pessoa, super divertido, simpático e companheiro, até que Dev recebe a informação de que muitas mulheres que trabalharam com ele fizeram queixas de seu comportamento abusivo e invasivo.

Surpreso com a notícia, Dev decide perguntar para uma maquiadora que trabalhou com ambos no set, e a confirmação vem: ela tinha pedido para sair do programa justamente pelas ações do Jeff. Tudo explode quando Lisa (Ilfenesh Hadera) – a maquiadora, relata o que aconteceu com ela em seu blog, e outras mulheres reúnem forças para também denunciar as atitudes do tão adorado Chef. Raven (Raven-Symoné), que no momento estava entrevistando ele e o Dev, não consegue continuar após saber das notícias, e o confronta ao vivo. É imaginável que ele tenta negar, e dizer que as moças assediadas só queriam “seus minutos de fama”. Mas o final dessa história só saberemos na próxima temporada!

Pontos negativos da 2ª temporada de Master of None

Mesmo adorando o Aziz/Dev e seu trabalho, nem tudo é de se elogiar na série. Ao menos não nessa temporada. Dev se apaixona por Francesca (Alessandra Mastronardi), que ele conhece durante seu curso sobre massas numa cidadezinha na Itália. Ela é uma linda mulher europeia, com seu belo sotaque italiano, ainda mais tentando falar inglês, super divertida, que compartilha o mesmo humor de Dev, e que acima de tudo traz uma nova motivação para a vida do nosso querido indiano… um exemplo digno de Manic Pixie Dream Girl. 

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O único “problema” é que ela está noiva, e a persistência do Dev em fazê-la largar tudo para continuar vivendo o romance de férias dos dois, causa certa irritação. Por mais que o futuro marido de Francesca não aparentasse ser dos melhores, e que o futuro dela com ele não parecesse ser muito promissor e feliz, insistir que ela largasse sua avó, seu noivo, e sua vida para viver com ele, também não era das melhores opções.

Entramos então naquela terrível problemática: A friendzone. Ao analisarmos melhor o relacionamento entre eles e toda a série, notamos que as amigas de Dev são lésbicas (como sua melhor amiga Denise), ou simplesmente já são comprometidas. As demais personagens femininas que aparecem na série fazem parte de relacionamentos amorosos com ele. Isso nos faz questionar sobre a incapacidade dele de manter a aproximação com uma mulher, sem romantizar tal relação. O que nos tenta forçar a crer na impossibilidade da amizade entre homem e mulher. Há quem adore romantizar esses amores proibidos, porém, confessamos que as ações do personagem não foi exatamente o que poderíamos esperar, por mais que estivéssemos torcendo para que o Dev encontrasse alguém.

“Mas você pensou direito na situação? O que ia acontecer? Ela terminaria com Pino? Se mudaria para Nova York? É muita pressão para vocês dois. Ela morou em uma cidade minúscula a vida toda. Só esteve com um cara. Seu relacionamento não seria essa fantasia mágica que você imagina. Provavelmente seria uma merda só.”

[Buona Notte (S02E10)]

O último ponto importante em Master of None que merece nossa observação é o diálogo de Denise com a sua mãe, no episódio “Ação de Graças”. Embora o episódio mereça elogios por uma narrativa que destaca o protagonismo de uma mulher negra e lésbica na série, narrando desde sua infância até a fase adulta com todas as dificuldades que enfrentou por conta de sua sexualidade – diante da falta de compreensão e naturalidade em uma sociedade lesbofóbica (inclusive, sua própria família reage de uma forma mais despreparada, do que propriamente por preconceito) – o momento em que Denise, já adulta, finalmente consegue coragem e força para dialogar e revelar que é lésbica diante de sua mãe, torna-se um pouco decepcionante, pois nesse momento, Denise acaba retirando toda a importância da visibilidade lésbica quando diz para ela: “Sou gay“.  

Podemos lembrar que Denise na adolescência não se sentia à vontade com a palavra lésbica e preferia denominar sua sexualidade com termo “libanesa”; logo compreendemos o estranhamento da garota pela palavra diante da naturalização e da violência e bullying com lésbicas. Várias lésbicas criticam esse tipo de representação nas obras, pois ao invés de mostrarem uma personagem que exalta a importância da visibilidade lésbica, ainda mais numa cena forte e marcante como essa que citamos acima, generalizam a homossexualidade lésbica com o termo “gay“. 

Master of None

Independente dessas situações finais, Master of None continua sendo uma ótima opção. A esperança de que todas essas problemáticas continuem sendo abordadas nas próximas temporadas, assim como a de que Aziz irá produzir boas resoluções para essas duas últimas situações finais. E se não o fizer, continuaremos aqui para deixar a admiração de lado e analisarmos o que for necessário.

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“O senhor não imagina bem que eterna variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia.” (Ressurreição, Machado de Assis). 20 anos, estudante de Engenharia e que prefere passar o dia vendo filmes do que com a maioria das pessoas.
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