Do que é feita uma garota: sobre adolescências conturbadas, descobertas sexuais e jornalismo musical

Do que é feita uma garota: sobre adolescências conturbadas, descobertas sexuais e jornalismo musical

Infelizmente, sou o tipo de pessoa que julga livros — pelo título, pela capa e até mesmo por seus leitores — e reconheço que meu julgamento excessivo me é bastante limitante e seja talvez o maior dos meus defeitos, que não são poucos. Se eu não fosse solicitada para resenhar “Do que é feita uma garota” (“How to build a girl”) — livro que, até então, nunca tinha ouvido falar sobre — e minha leitura dependesse meramente do meu interesse por um livro com esse nome, talvez jamais tivesse qualquer contato com ele.

Do que é feita uma garota
Caitlin Moran

Caitlin Moran — autora que também desconhecia — me parece não ter muita habilidade para nomear suas obras, e seus títulos mal elaborados me passam a ideia de romances açucarados e meia-bocas — seu romance mais popular se chama “Como ser mulher” (“How to be a woman”). De antemão, peço perdão por soar cruel ou arrogante, mas defendo que não precisamos de mais um romance infanto-juvenil regado a melodrama e clichê — o mundo já tem livros genéricos demais. No entanto, ao ler “Do que é feita uma garota”, percebi que a criatividade e senso de humor de Caitlin vão muito além do que seus títulos ruins podem transmitir.

A história de passa no Reino Unido dos anos 90, no governo de Magaret Thatcher. Johanna é a segunda irmã de uma geração de cinco filhos, sendo os mais novos irmãos gêmeos de três semanas de idade — resultantes de uma gravidez acidental. Angie, sua mãe, está em depressão pós-parto, por isso Johanna tem tarefas domésticas em dobro e os gêmeos ainda não têm nome. “Estou cansada demais para pensar em nomes de pessoas”, ela lamenta. Johanna e seus irmãos Krissin e Lupin os chamam de “David” e “Mavid”. Já Pat, seu pai, é um rockstar frustrado que frauda uma deficiência física para receber benefícios do governo.

Do que é feita uma garota

Johanna é uma garota romântica, mas não piegas — do tipo que tem amor-próprio. Ela tem 14 anos, é uma adolescente gorda e nunca foi beijada, mas isso não a impede de descobrir-se sexualmente — sim, estamos falando de masturbação. “Se não posso sair com um garoto”, ela diz, “ao menos posso ter um encontro romântico comigo mesma”. Esse é um ponto crucial da construção da protagonista de “Do que é feita uma garota”, que se diferencia das personagens femininas convencionais: ela quer descobrir-se sexualmente, mas não depende de um homem para tal.

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Johanna quer sim transar, mas suas preocupações vão muito além disso — ela é uma garota inteligente e cheia de referências, um tanto ambiciosa. Ela tem um semblante pessimista, mas sempre demonstra sua insatisfação — pessoal e com o mundo — com um considerável senso de humor, muitas vezes auto-depreciativo. A garota está desesperada para sair de Wolverhampton — uma cidadezinha no interior da Inglaterra que encontra-se em crise industrial — e tornar-se rica e famosa. 

Aos 16, em busca de uma nova identidade, ela passa a trabalhar como jornalista musical e se reinventa como Dolly Wilde, uma persona que permite que ela aprenda a lidar com sua família e consigo mesma.

Do que é feita uma garota” é um livro sobre autoestima, adolescência, sexualidade, crises existenciais e amadurecimento. De linguagem simples, direta e fluida, o livro é recheado de referências de história, literatura e cultura pop — o que o torna ainda mais interessante.


Do que é feita uma garotaDo que é feita uma garota

Autora: Caitlin Moran

Companhia das Letras

Onde comprar: Amazon

Este livro foi cedido pela editora para resenha

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Estudante de Comunicação Social com ênfase em Jornalismo. Apaixonada por música, documentários, artes visuais, quadrinhos e publicações independentes. Fascinada por contracultura e gente maluca.
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