[SÉRIES] Game of Thrones – 7×02: Stormborn (Resenha)

[SÉRIES] Game of Thrones – 7×02: Stormborn (Resenha)

Ontem (23) foi ao ar o segundo episódio da sétima e penúltima temporada de Game of Thrones, intitulado Stormborn, uma referência a Daenerys (Emilia Clarke). O episódio, assim como o primeiro, não apresenta tantas cenas impactantes, ainda que o final o seja, e foca principalmente nas personagens femininas. Se nas temporadas anteriores o foco era os homens e seus jogos políticos, o contraste se revela nos dois episódios iniciais. Todavia, o fim revela que não tarda aos homens roubar o foco das mulheres de maneiras sempre mais chamativas e cruéis.

[CONTÉM SPOILERS]

O primeiro episódio terminou com a chegada de Daenerys a Westeros, e é por seu plot que o segundo episódio se inicia. Sua estratégia inicial, como uma rainha que não deseja apenas dominar o território pela força, é conquistar aliados, entre eles, o já conhecido Varys (Conleth Hill). Varys não é reconhecido por sua lealdade, visto que participara do governo de Aerys II, o Rei Louco, e depois de Robert Baratheon (Mark Addy). A fluidez de seu apoio não passa despercebida por Daenerys, que o confronta por ter apoiado ocultamente a ascensão de seu irmão Viserys (Harry Lloyd), ainda que aquele não tivesse as qualidades de um rei, e por tê-la entregado aos Dothraki como um cavalo.

Game of Thrones - 7x02

Embora Daenerys fosse pouco conhecida ao deixar Westeros – em virtude de sua pouca idade – não somente foi ignorada como pretendente ao trono por ser mulher, como foi objetificada e vendida em troca de apoio político. Viserys, por sua vez, ainda que fosse instável, egocêntrico e destituído de inteligência política por seu sangue e sexo, foi colocado em posição de futuro rei. Varys, como todos os homens que jogam com as mulheres como objetos, justifica sua atitude pela política. Recusa-se a prestar idolatria e apoiar cegamente a rainha, pois sua lealdade é para com o povo de quem faz parte. Promete, porém, servi-la, porque enxerga nela a melhor opção política.

A cena é finalizada pela chegada de Melisandre (Carice Van Houten), a feiticeira vermelha. Daenerys, que já havia sido amparada por seguidores do deus da luz, ouve atentamente a recém-chegada, que lhe fala sobre a profecia de um príncipe salvador, o Azor Ahai. Quando Daenerys questiona como poderia ser o prometido sendo uma mulher, Missandei (Nathalie Emmanuel) informa que o termo não possui gênero definido. Como em tantos casos, houve uma preferência pelo sexo masculino – uma história registrada por uma ótica machista, ainda que não o termo machismo não exista no universo de Game of Thrones.

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Melisandre, que já se enganara uma vez na interpretação da profecia, não confirma que Daenerys, mesmo sendo mulher, é a salvadora, mas informa que ela, assim como Jon Snow, possui um papel importante a interpretar, sobretudo com a chegada de um mal maior, e que, por isso, deve se aliar ao Rei do Norte.

Em Winterfell, após uma carta de Tyrion (Peter Dinklage) e a notícia de Sam de que há vidro de dragão na região, Jon Snow (Kit Harrington) decide ir a Pedra do Dragão, apesar dos alertas de Sansa (Sophie Turner) e Sor Davos (Lim Cunningham). Como Rei do Norte, porém, não pode deixar sua casa sem alguém que a comande. Então, toma a decisão por que todos aguardavam desde que Sansa se revelara no jogo político: deixar Winterfell sob seus cuidados. A notícia parece ser uma surpresa para a própria Sansa mais do que para os demais, entre eles as destemidas Brienne de Tarth (Gwendoline Christie) e Lyanna Mormont (Bella Ramsey). Embora Sansa já tenha noção de sua capacidade, surpreende-a o reconhecimento desta e a chance de poder aplicá-la em uma função de poder.

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A ascensão de Sansa, por óbvio, anima Petyr Baelish (Aidan Gillen), Littlefinger, que há muito manifesta seus interesses também sexuais pela jovem. Antes apaixonado por Catelyn Stark (Michelle Fairley), vê na filha uma fonte de amor (um conceito sexualizado de amor) e a beleza mais jovem – muitos anos a menos que ele -, o que se une com os interesse políticos do personagem e gera a irritação de Jon Snow. Sansa parece não precisar da proteção de um irmão mais velho, ciente das atitudes de Littlefinger. Mas nunca se pode ter certeza dos rumos que uma série tomará no quesito sexualização, romantização do abuso e machismo.

Enquanto isso, Arya (Maisie Williams), que está em sua rota para assassinar Cersei (Lena Headey), descobre que o meio-irmão, por quem nutria grande carinho, foi reconhecido Rei do Norte, e se encaminha a Winterfell. No caminho, se reencontra com a loba de quem se separara na primeira temporada, Nymeria. A cena pode parecer incompreensível a um primeiro olhar ou mesmo fria para aqueles que aguardavam o reencontro. Todavia, esconde nas entrelinhas uma mensagem importante.

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Quando Arya se separou de Nymeria era apenas uma criança tentando proteger sua loba, por não ter agido como uma lady e enfrentado um jovem príncipe. Em uma cena com seu pai, Arya ao ouvir que seu futuro seria tornar-se uma lady, responde que esta não é ela. Assim, quando reencontra Nymeria e pede para que a loba a acompanhe a Winterfell, a loba, que então se juntou a uma matilha, recusa-se a ir, deixando a jovem e suas palavras: essa não é você. Nymeria e Arya são selvagens, no sentido de que movidas por seus instintos e não por convenções sociais. Ambas fugiram das mãos reais de Westeros e aprenderam a viver sozinhas. E Nymeria, como ser livre, não se deixará ser domesticada novamente. Tampouco se deixará Arya.

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Em Porto Real, o medo de grande parte das mulheres é utilizado como ferramenta por outra. O estupro é uma prática comum entre os Dothraki. Sabendo disso, Cersei, ao mesmo tempo em que busca forma de matar os dragões de Daenerys, busca aliança com os lordes de Westeros através da ameaça de que suas esposas e filhas serão estupradas pelo exército da outra rainha. Não que a cultura do estupro não exista em Westeros também, como a própria série já retratou de maneiras controversas e em geral para entreter o público masculino. Vê-se então dois modos de retratar o estupro, nenhuma delas melhor que a outra. De um lado, uma cultura em que a guerra justifica a violência sexual. Do outro, um lugar que abomina o estupro na teoria e usa o medo como força motriz para batalhas, mas que o pratica de forma velada. Alguma semelhança com a realidade?

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A sexualização acaba por sempre ser o ponto mais fraco de Game of Thrones. Talvez seja responsável por atrair parte do público. Certamente é alvo de crítica para aqueles que são mal retratados nas cenas, e com razão. O episódio voltou a apresentar a nudez (feminina e masculina) ganhando alguns pontos apenas por mostrar que existem outras formas de dar prazer a uma mulher além da penetração, através da relação de Missandei e Grey Worm (Jacob Anderson) – que fora castrado ao se tornar um imaculado. Todavia, volta a pecar na sexualização da homoafetividade feminina.

As personagens Ellaria Sand (Indira Varma) e Iara Greyjoy (Gemma Whelan) já tiveram sua bissexualidade explorada em temporadas anteriores através de cenas sexuais. E as duas foram unidas pela aliança com Daenerys, que, com elas e Olenna Tyrell (Diana Rigg), discutia a melhor estratégia de ataque a Porto Real. Quatro mulheres fortes discutindo política. Apesar de soar forçado para alguns, sobretudo, quando em comparação ao enredo dos livros, é um retrato interessante. E seria ainda melhor se os produtores não abordassem a bissexualidade como sinônimo de libertinagem, ou que interação entre duas mulheres bissexuais reunidas automaticamente culmina em relações sexuais. A interação sexual pode ocorrer. O problema de Game of Thrones é que se sexualiza mais do que se deveria sexualizar, por puro entretenimento, de modo a reforçar estereótipos.

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E para finalizar, o poder das mulheres é destruído por um personagem masculino. Com uma entrada triunfal, a que poucas mulheres teriam direito em cena, Euron Greyjoy (Johan Philip Asbæk), novo aliado de Cersei, mata as Serpentes de Areia – as subutilizadas filhas bastardas de Oberyn Martell – e captura Iara Greyjoy e Ellaria Sand, esta como um presente para Cersei – recordando que Ellaria foi responsável pela morte da princesa Myrcella (Nell Tiger Free).

Faz-se um destaque ainda a Sam (John Bradley-West), que na Cidadela tenta salvar Sor Jorah Mormont (Iain Glen) da escamagris utilizando vidro de dragão, e a Theon (Alfie Allen), que, como sempre, fugiu. Inteligência, medo ou os dois? Somente os próximos episódios poderão revelar.

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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