[CINEMA] Submersão: o mundo que não conhecemos (crítica)

[CINEMA] Submersão: o mundo que não conhecemos (crítica)

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O mais recente filme de Wim Wenders (“Paris, Texas”, “Pina”, “O Sal da Terra”), Submersão, estreou dia 12 de abril nos cinemas. O filme reúne Alicia Vikander (vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme “A Garota Dinamarquesa”) e James Mcavoy (“Fragmentado”), que juntos vivem um rápido e profundo encontro amoroso, mas que por força de suas obrigações profissionais acabam se separando com a promessa de um reencontro.

Alicia vive Danielle Flinders, uma bióloga marinha que pretende confirmar sua teoria sobre a origem da vida, num mergulho a bordo de um submarino até a camada mais profunda do oceano pacífico. Mcavoy vive James More, um espião britânico que assume um trabalho como empreiteiro na África para descobrir pistas sobre um grupo jihadista do Al Shabab*.

O encontro entre os dois, apesar de fugaz, deixa marcas profundas e desperta o desejo em ambos de se reencontrarem ao final de suas missões. Depois de trocarem promessas de um futuro juntos, o casal segue cada um para seu destino, onde pretendem descobrir segredos submersos sobre a vida e a morte.

Submersão

O filme é a adaptação do livro homônimo do inglês, de J. M. Ledgard, e aborda questões muito maiores do que o romance entre Danielle e James. Win Wenders assume o desafio de, usando e abusando de imagens incríveis, linguagem metafórica e trilha sonora belíssima composta por Fernando Velazquez, abordar os temas da vida e da morte numa alusão àquilo que está submerso dentro de nós mesmos, nas profundezas de nossa existência.

Nos dicionários, Submersão é o ato ou efeito de submergir-se (imersão) ou ainda voltar-se para si mesmo (abstração). Durante o filme, somos convidadas a submergir, junto dos protagonistas, para dentro de suas missões e refletir sobre o significado da vida e para onde caminha a raça humana.

De um lado da história, seguimos com Danielle em sua missão nas profundezes do Oceano Índico, onde poucos seres vivos são capazes de sobreviver. Lá, em meio à total escuridão do desconhecido e do absoluto silêncio, ela busca provar sua teoria de que viemos da água. Apesar dos riscos envolvidos nessa pesquisa, Danielle não se intimida e segue firme no propósito, tenho a impressão, de trazer à humanidade um pouco da paz e da pureza das profundezas do oceano.

Submersão

James, por sua vez, segue na busca de um importante membro jihadista, se colocando numa situação de absoluto perigo, firme na convicção de que devemos – enquanto sociedade – nos mobilizar para tentar solucionar os grandes problemas que vemos espalhados no mundo e que geram guerras intermináveis, muitas vezes exterminando populações inteiras.

Na medida em que mergulha na sua missão, quase como num ato de fé, ele se vê à mercê de um povo miserável, o qual desprovido de educação, alimento e condições básicas de uma vida digna, encontrou no fanatismo religioso e nos interesses de nações ricas um propósito de vida. Por mais antagônica que possa parecer essa afirmação, matar pode ser um propósito quando a promessa de uma pós-vida é mais sedutora do que a realidade em que se vive.

Submersão

“Esse é o outro mundo dentro do nosso mundo”

Essa é uma frase de Danielle se referindo ao fundo do mar, mas poderia ser uma alusão àquilo que é inexplorado em nosso íntimo ou mesmo sobre o mundo que existe para além de nossas bolhas protegidas. O filme conta em paralelo o desenrolar das duas histórias – a de Danielle e a de James – e termina se encontrando onde, segundo Danielle, tudo tem seu início. Submersão é um filme bonito tecnicamente, mas que pode ficar cansativo em dado momento. Vale assisti-lo e refletir sobre o que está para além das imagens.

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*Al-Shabab significa ‘A Juventude’ em árabe. O grupo surgiu como uma ala radical da hoje extinta União das Cortes Islâmicas da Somália em 2006, enquanto combatia forças etíopes que invadiram o país para apoiar o fraco governo interino. Nas áreas sobre seu controle, impôs uma versão rígida da sharia (lei islâmica), que inclui práticas como o apedrejamento até a morte das mulheres acusadas de adultério, passando pelo amputamento dos acusados de roubo. Estima-se que, atualmente, o grupo tenha de 7 a 9 mil combatentes, incluindo estrangeiros. É um grupo terrorista e fundamentalista islâmico que atua primordialmente no sul da Somália, e uma organização afiliada à rede Al-Qaeda.


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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