Rainhas do Crime: um filme raso e incompleto

Rainhas do Crime: um filme raso e incompleto

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Um filme de gangster com Melissa McCarthy, Elisabeth Moss e Tiffany Haddish. Como essa receita poderia dar errado?

Rainhas do Crime” conta a história de três mulheres – Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss) – que decidem assumir o negócio de seus maridos mafiosos após eles serem presos pelo FBI.

O filme foi adaptado da graphic novel The Kitchen, lançado pela DC Comics, e é o primeiro longa dirigido por Andrea Berloff (indicada ao Oscar pelo roteiro de “Straight Outta Compton”), que também assina o roteiro. É empolgante a notícia de uma mulher dirigindo uma adaptação de uma HQ, em uma indústria que continua dominada por homens. E por isso é triste assistir ao resultado.

Rainhas do Crime: uma oportunidade perdida

Traduzido no Brasil como “Rainhas do Crime”, o título original “The Kitchen” faz alusão ao bairro nova-iorquino Hell’s Kitchen, que entre os anos 60-80 foi palco de disputas entre gangues irlandesas. E é neste ambiente de violência que o filme tenta construir uma trama de mulheres que se estabelecem como líderes de uma gangue local, subvertendo a descrença dos chefes da máfia ao obter sucesso em sua empreitada.

O longa abre ao som deThis Is a Man’s Man’s Man’s World, uma escolha adequada para situar a audiência do desafio à frente das protagonistas. Porém, “Rainhas do Crime” possui um roteiro falho e raso.

Rainhas do Crime
Claire (Elisabeth Moss), Ruby (Tiffany Haddish) e Kathy (Melissa McCarthy) em cena de “Rainhas do Crime”.  Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures

Em uma entrevista ao canal DP/30, Berloff fala que de fato havia muito material para ser adaptado, mas que ela optou por condensar tudo dentro de um roteiro de 1h40. Infelizmente, por conta de uma trama densa e cheia de personagens, o resultado é uma história confusa e com reviravoltas que aparecem do nada. Associado a estes aspectos, a edição de “Rainhas do Crime” é mal executada e diversas vezes dá a impressão de que há alguma cena faltando.

É também difícil assistir às performances das atrizes com tanto potencial e que acabaram abandonadas por um roteiro e direção confusos. Embora McCarthy tente dar à sua personagem o peso de assumir um negócio sujo, por vezes sua performance desliza para um tom de comédia, como se tivesse lhe faltado direção. Moss infelizmente reprisa seu papel de mulher abusada (mas que em “Rainhas do Crime” se transforma muito rapidamente em uma pessoa habilidosa com facas), ainda que mostre confiança na tela. Haddish surpreende, mas seu papel desliza para clichês tão desconfortáveis no final que é impossível não se decepcionar.

Berloff, McCarthy e Raddish
Berloff, McCarthy e Raddish no set de “Rainhas do Crime”. Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures
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As várias subtramas de “Rainhas do Crime” também atrapalham o desenvolvimento das protagonistas, o que faz com que várias decisões tomadas por elas pareçam imediatas e sem fundamento, e não transformações construídas ao longo do filme.

A tensão entre Kathy e Ruby é um desses momentos, assim como o empoderamento de Claire estar associado ao seu recém descoberto talento para assassinatos. Embora o relacionamento de Claire com Gabriel (Domhnall Gleeson) – um ex-militar que trabalha para a máfia eliminando outros criminosos – receba bastante tempo de tela, o desenvolvimento de ambos ainda parece incompleto e recorre ao clichê do homem-que-veio-salvar.

Entretanto, há também alguma tentativa de comentário social, mas tudo parece feito às pressas, como se fossem itens de uma lista que precisavam ser ticados. Entre esses momentos, há a breve cena em que Kathy (Melissa McCarthy) ouve de um funcionário da agência de empregos que ela não é empregável porque é mãe. Como consequência, o filme deixa de explorar temas interessantes que aparecem só na superfície da trama, como o envolvimento da máfia (comandada por mulheres) com prostituição. O racismo de Helen (Margo Martindale) sobre a nora, Ruby (Tiffany Haddish), é um dos poucos momentos em que um tema social é mais explorado, pela escolha de Berloff de trazer uma atriz negra para interpretar Ruby.

Rainhas do Crime
Tiffany Haddish e Margo Martindale, em cena de “Rainhas do Crime”. Imagem: Reprodução/ Warner Bros. Pictures

Apesar da incrível recriação de Hell’s Kitchen em 1978, a máfia em “Rainhas do Crime” é retratada de maneira romantizada e cartunesca, como “neighboorhood-friendly”, em que ao mesmo tempo que há assassinatos comandados pelas protagonistas, tudo parece ok, já que elas estão cuidando da vizinhança.

Por fim, esse contraste entre a vontade de querer contar uma história subversiva de mulheres mafiosas com o receio de mostrar as consequências de seus atos, infelizmente, é uma das maiores falhas da direção de Berloff. 


Edição realizada por Isabelle Simões.


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Autora

Bióloga, doutora em Imunologia. Entre um paper e outro, investe seu tempo em games, livros e filmes. Fã de Neil Gaiman, Legend of Zelda, filmes do Studio Ghibli e recomenda podcasts sem ser perguntada.
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