Vampira: uma das personagens mais injustiçadas no cinema

Vampira: uma das personagens mais injustiçadas no cinema

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Além da saga original de 1963, dos quadrinhos co-criados por Stan Lee e Jack Kirby, houve nos anos 90 a versão animada dos X-Men. A série, originalmente exibida em 1992, no canal Fox Kids, nos EUA, foi vista no Brasil no extinto programa TV Colosso, da rede Globo. Ainda hoje, algumas de nós podemos sentir uma forte emoção ao ouvir o som da vinheta do desenho, tudo por conta da personagem que se tornou não só uma das heroína da nossa infância, como também um modelo de personalidade forte que nós não reconhecíamos ainda como uma possibilidade feminina: a Vampira, ou Rogue, do original norte-americano.

Vocês podem se lembrar da representação da adolescente tímida, que era constantemente defendida por Wolverine, na adaptação cinematográfica. Foi nessa primeira adaptação, do universo dos mutantes dos X-Men, nos anos 2000, que conhecemos a Vampira de “carne e osso”. A atriz que a interpretava, Anna Paquim, já havia sido a segunda pessoa mais jovem a ganhar o Oscar de atriz coadjuvante por sua atuação em “O Piano”, da diretora Jane Campion, com apenas 11 anos de idade.

Contudo, havia também outros personagens que se mantiveram como principais: o líder e responsável pelo “X” do grupo, o professor Charles Xavier (primeiro interpretado por Patrick Stewart), apesar de paraplégico um dos mutantes mais poderosos que existem. Temos também seu antagonista igualmente poderoso, o Magneto (Ian McKellen). E, por fim, Ciclope (James Marsden), Jean (Famke Jannssen), Tempestade (Halle Barry), e o aclamado Wolverine, na pele do ator Hugh Jackman.

X-Men
X-Men (Imagem: divulgação)

Lembro-me do dia que sentei no cinema pequeno da minha cidade e não conseguia parar de falar com a minha amiga sobre eles, tão grande era meu entusiasmo de rever aquela história, mas principalmente pela expectativa de ver a Vampira. 

Vampira é uma jovem que sofre por ter a capacidade de absorver a energia vital (para os humanos) ou os poderes (para mutantes), de qualquer pessoa que ela tocar. Desde o primeiro filme – que poderia ter sido o início de um arco poderoso da personagem – até o último da trilogia, Brian Singer, o maior responsável pela franquia cinematográfica, tendo escrito e dirigido a maioria dos filmes, decidiu deixar a personagem por isso mesmo. Entretanto, tal personagem merece mais do que isso. Então, faremos justiça a heroína da nossa infância!

Anna Paquim como Vampira
Anna Paquim como Vampira (Imagem: reprodução)

Vampira nasceu “Anna Marie”, filha de pais hippies no Mississippi. Ela sempre foi uma jovem rebelde, com temperamento forte, e descobriu seus poderes ao se aproximar do seu primeiro crush, Cody Robbins, que acabou em estado vegetativo depois do primeiro beijo deles. E daí para frente, Anna Marie foge de casa e passa a vagar pelo país até encontrar a vilã Mística, que aparece no cinema interpretada primeiramente por Rebecca Romijn, e na segunda trilogia por Jennifer Lawrence.

Mística é outra personagem que apesar de ter um destaque maior, especialmente na segunda trilogia, ficou subjugada aos personagens masculinos, sempre aparecendo nos filmes como um pupila de Magneto (atualmente interpretado por Michael Fassbender) ou de Charles (muito bem representado por James Mcavoy). Tal questão acaba não coincidindo com a sua forte liderança na criação da Brotherhood of Evil Mutants, um liga formada por mutantes super poderosos, lutando por justiça racial com muita violência.

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Mística segue sendo uma mãe adotiva para Vampira, que passa por um período curto em que se pode dizer que ela atuava ao lado dos vilões, até começar a ter problemas com as identidades das pessoas de quem ela absorvia não somente os poderes, mas as personalidades.

Nas séries animadas dos anos 90, a Vampira sempre aparecia voando e com uma superforça, no entanto, Brian Singer preferiu manter apenas a mecha branca da sua franja: escolhas. O que pouca gente sabe é que esses poderes foram roubados de ninguém mais ninguém menos que a Capitã Marvel. A personagem, originalmente chamada Carol Danvers, diferente de Vampira, foi muito bem escrita para o cinema, com a interpretação já icônica da atriz Brie Larson.

Mas nos quadrinhos, após uma longa luta entre as duas, Vampira acaba não somente absorvendo todos poderes de Carol Denvers, como também suas memórias de infância. Imaginem como seria esse embate escrito e dirigido por uma mulher no cinema?

Vampira e Capitã Marvel em Captain Marvel #4
Vampira e Capitã Marvel em Captain Marvel #4 (2019). (Imagem: Marvel / divulgação)

Anna Paquim já disse que voltaria a interpretar a mutante sem pestanejar, se lhe permitissem utilizar seu poder de voo. Teve até uma saia justa em uma coletiva de imprensa, em que perguntaram à atriz qual dos mutantes ela gostaria de ser, se pudesse escolher, ao que ela respondeu: “Wolverine. Se bem que eu gostaria mesmo de ser a Vampira se ela pudesse voar”. É difícil não notar que há um descaso com as histórias de super-heroínas, em comparação com as escolhas feitas em relação a franquia de X-Men desde seu início.

Seguindo o descaso semelhante das adaptações cinematográficas, podemos nos lembrar também de outra personagem querida e chave para o grupo, a Tempestade, interpretada hoje por Alexandra Shipp. A mutante que tem “apenas” o poder de controlar o tempo, acaba servindo sempre como um degrau para seus parceiros homens nos filmes, sem realmente agir em um arco próprio. Ficamos sem conhecer todas as minúcias dessa descendente de deusas africanas, nascida com o nome Ororo.

Tempestade
Tempestade em animação (gif: reprodução)

Por algum motivo, a Fox escolheu retomar a história de origem de Jean Grey (interpretada hoje pela eterna Sansa de “Game of Thrones”, Sophie Turner), em “Fênix Negra“. A premissa meio psicanalítica do inconsciente super poderoso é incrível mesmo, mas já havia sido bem abordada na conclusão da trilogia original “X-Men: O confronto final“.

De qualquer forma o público segue clamando por Vampira, que mesmo depois de ter tido por volta de dez minutos de cenas gravadas para o segundo filme da trilogia de origem, “Dias de um futuro esquecido” (2016), teve uma versão estendida e lançada mais tarde em blu-ray – conhecida como “The Rogue Cut” – que foi um sucesso de vendas.

Desse modo, a representatividade feminina em filmes de super-heróis vai ganhando espaço a passos curtos, apenas porque os chefões do cinema vão cada vez mais sendo obrigados a responder a essa demanda por enredos complexos sobre tais personagens com tanto potencial. O fato é que elas sempre existiram nas histórias em quadrinhos e há muito mais para ser trabalhado. Visto que do lado da DC temos ainda a Mulher-Maravilha, alavancando todos os recordes de bilheteria, e logo mais o filme da Arlequina “Aves de Rapina“.

Por fim, demoramos todos esses anos, após a saga de Vingadores, para finalmente sabermos a data de lançamento do filme da Viúva Negra. Portanto, fica aqui o clamor para que a Disney, agora responsável pela franquia X-Men, deixe a Anna Paquim, ou outra atriz interpretando a Vampira, voar.


Edição realizada por Isabelle Simões.

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Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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