Cowboy Bebop: um olho no presente e o coração no passado

Cowboy Bebop: um olho no presente e o coração no passado

Cowboy Bebop é uma história sobre pertencimento. É também sobre muitas outras coisas, mas esse é o sentimento que nos acompanha e que provavelmente faz ela continuar a ser lembrada 20 anos depois de sua data de estreia. Mais do que nos entregar uma ópera espacial, com cenários grandiloquentes e lutas icônicas; assistir a Spike Spiegel, Jet Black e Faye Valentine fumando ao redor da sala – com Edward e Ein no computador ao fundo – é fazer parte de algo especial. 

Se o mais recente hype servir de alguma coisa, que seja primeiramente para isso: assista à série anime original primeiro. Aproveite, inclusive, que a própria Netflix, casa da versão live-action que tem estreia marcada para o dia 19, já disponibilizou todos os episódios e faça isso. Caso você já tenha assistido, veja de novo.

Anime Cowboy Bebop
Imagem: Netflix/Divulgação

Funk do Cowboy (no espaço)

Um dos animes mais populares no ocidente e considerado um dos melhores de todos os tempos – certamente a magnum opus de Shinichiro Watanabe –, não foi à toa que Cowboy Bebop conquistou esse status neste lado de cá. Com uma miríade de referências à cultura pop ocidental, a começar pelo jazz que embala a sequência de abertura, Tank!, até as referências aos Spaghetti Westerns que permeiam diversos episódios. Além disso, há episódios inteiros prestados a homenagens, como ao sucesso de Hollywood, Alien, no episódio “Brinquedos no Sotão”.

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No entanto, Cowboy Bebop é mais do que seus easter eggs ocidentais e que sua premissa, por mais irresistível que ela seja (afinal, cowboys no espaço, como não amar?). Seus 26 episódios não deixam de ser em si obras originais e icônicas que até hoje servem de inspiração para o universo do anime e além. Seja individualmente, nos episódios com narrativa fechada em si, como o citado acima e outros clássicos, como Pierrot Le Fou, Funk do Cowboy e Samba de Cogumelo. Seja nos episódios dedicados ao arco individual de cada personagem.  

Mistura na Porta de Entrada

Talvez no início você até demore para perceber de onde vem todo o hype. Com diálogos aparentemente mundanos e despretensiosos, os personagens partem em missões que pouco prometem além de dinheiro para pagar as contas, exibindo de início uma faceta ao público que pouco parece se distanciar do estereótipo destinado a eles. 

Cena de Cowboy Bebop
Imagem: Netflix/Divulgação

Assim começam Spike Spiegel e Jet Black, os tripulantes originais da nave Bebop. Às vezes, arrumando desafetos ou, ainda pior, mais bocas para alimentar. Em poucos episódios, conhecemos também Faye Valentine, que se junta ao grupo com relutância de ambos os lados, além da menina hacker prodígio, Ed, e o cachorro super-inteligente, Ein. E é basicamente essa a vida que leva a tripulação: indo de planeta a planeta, de um bar suspeito a outro, tentando pagar as contas e manter a nave do título em condições remotamente dignas. E poderia ter sido assim o tempo todo sem nenhum problema – e provavelmente continuaria sendo um clássico. 

Balada dos Anjos Caídos

Mas por trás dos arquétipos, cada personagem revela uma faceta melancólica e um passado complexo. O maior arco da trama é o do personagem de Spike Spiegel; e de certa forma é ele quem encapsula muito do que a série tem como essência. Por trás de uma faceta despreocupada e arrogante, ele esconde um passado triste, envolto em morte e perdas profundas, sob a promessa constante de um reencontro com seu grande nêmesis, Vicious. Essa dicotomia entre leveza e profundidade é o que o torna um dos mais complexos personagens de anime já criados; assim como é o próprio jazz que embala os episódios dedicados a ele.

anime disponível na Netflix
Imagem: Netflix/Divulgação
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Não é só ele, porém, que tem sua vida anterior explorada. Faye é a protagonista de alguns dos momentos mais reflexivos da série, ao tentar resgatar suas memórias de infância; perdidas depois de ter passado décadas congelada após um acidente. Edward (Ed) ou Françoise é uma das personagens mais inusitadas e difíceis de serem compreendidas (boa sorte, Netflix!). Através das feridas de Jet Black – emocionais e literais – de seu passado como policial intergalático, ela nos apresenta uma das jornadas mais tocantes do anime. 

Com tudo isso, Cowboy Bebop se revela uma história sobre a volta para casa. Seja ela uma casa física ou a busca pela reconciliação com um passado muitas vezes intangível e nebuloso – como são as memórias – além de descobrir que tal reconciliação não é possível na maioria das vezes. Ou então que o seu custo é muito alto. 

The Real Folk Blues

O passado de cada um deles, no entanto, não é em si a essência da série. É mais sobre a maneira poética como ele é descrito, constantemente sem oferecer uma explicação clara. A história de Spike, sua relação com Vicious e Julia e o motivo pelo qual os três estão ligados são questões que permanecem no ar. Mesmo após seu último suspiro, derradeiro e conclusivo. 

É através da relação entre os tripulantes, que permeia os diálogos mundanos e as missões aparentemente sem propósito, que descobrimos o fato dessa série ser tão amada. Apesar de todas as dores e tristezas, voltar para a Bebop após cada missão faz deste grupo improvável de pessoas, de certa forma, uma família.   

The Real Folk Blues
Imagem: Netflix/Divulgação
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Seja por um dos maiores clássicos da animação japonesa, em sua profusão de gêneros interplanetária; seja pela dinâmica entre os personagens, que torna as diferentes jornadas envolventes e marcantes; assistir Cowboy Bebop é uma experiência que recompensa não só uma, mas várias vezes. E de brinde, ainda, tem umas das melhores trilhas sonoras de todos os tempos, que também apresenta uma fusão de gêneros tão rica quanto, feita pela genial Yoko Kanno, que merecia um artigo à parte!  

Enfim, se não ficou claro até agora, Cowboy Bebop é o tipo de coisa que não tem como não conferir por si mesma! Nos vemos no espaço, então! See you later, Space Cowboy…

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Criança que queria ser bailarina, depois foi querer virar oceanógrafa, que depois sonhou em ser fotógrafa da National Geografic, para depois querer ser escritora. Acabou virando jornalista (no diploma) e professora (na carteira de trabalho – RIP). Adulta, só daqui uns anos.
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