Patrulha do Destino | CRÍTICA - 3ª temporada: novos velhos personagens
Patrulha do Destino – 3ª temporada: novos velhos personagens

Patrulha do Destino – 3ª temporada: novos velhos personagens

No dia 11 de novembro chegou ao HBO Max o último episódio da terceira temporada de Patrulha do Destino. Com dez episódios no total, esta temporada teve a difícil tarefa de devolver a série ao ritmo original após uma segunda temporada impactada pela covid-19 e considerada decepcionante por muitos fãs. Mas, felizmente, a série acertou o alvo.

Criada por Jeremy Carver, com base nos quadrinhos de mesmo nome e lançada em 2019, Patrulha do Destino é de longe a melhor produção da DC para o cinema e a televisão no momento. Com um senso de humor bastante peculiar e bastante espaço para o desenvolvimento dos personagens, a série conquistou o público e a crítica logo de cara. Porém, em meio à toda confusão do ano de 2020, a segunda temporada acabou errando a mão com um tom excessivamente sombrio.

Ficou faltando também uma boa trama que servisse de cola para os episódios. Dorothy (Abigail Shapiro), a eterna criança que quer crescer, tem um drama interessante. Contudo, a filha do Chefe (Timothy Dalton) e seus amigos imaginários não são fortes o bastante para carregar uma temporada inteira.

Dorothy e Larry em Doom Patrol
Dorothy se despede da série logo nos primeiros episódios (Imagem | Reprodução)

Mas a terceira temporada de Patrulha do Destino consegue trazer de volta boa parte da personalidade que tornou a primeira tão memorável. Dorothy se despede da Patrulha ainda nos primeiros episódios, colocando um fim ao arco narrativo que ficou incompleto devido à pandemia. Daí em diante, Cliff (Brenda Fraser), Jane (Diane Guerrero), Rita (April Bowlby), Larry (Matt Bomer) e Vic (Joivan Wade) encontram novos inimigos e/ou aliados em episódios caóticos, bem ao estilo da série. Apesar do final fraquinho, a temporada conta com uma história envolvente, que rende inúmeras surpresas e teorias.

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Também há bastante espaço para dramas pessoais. Ao contrário de outras séries de super-heróis, Patrulha do Destino sempre esteve mais focada nas tragédias particulares de seus personagens e na forma como eles lidam com elas. Se muito desse drama pareceu repetitivo na segunda temporada, agora a equipe de meta-humanos desajustados tem novos problemas com que se preocupar. E mesmo que ninguém saia 100% curado da Flagelação Eterna, o último episódio entrega finalmente aquilo que todas queríamos ver: a transformação da Patrulha em uma verdadeira equipe.

Novos mistérios, viagens no tempo e o retorno dos monstros-bunda

O primeiro episódio da terceira temporada de Patrulha do Destino serve de final para a temporada anterior: Dorothy recupera o controle do Candlemaker (Lex Lang), Jane e as outras personalidades derrotam a falsa Miranda (Samantha Marie Ware), e a Patrulha retorna para a mansão com o Chefe morto. As cenas finais parecem ser um cliffhanger para uma temporada seguinte, com Larry partindo para o espaço com o Espírito Negativo, Rita tentando entender a misteriosa chave que o Chefe lhe deixou de herança, e uma mulher misteriosa chegando à cidade com uma máquina do tempo subterrânea.

Embora nem ela nem a gente ainda saiba, a mulher misteriosa é, na verdade, Laura DeMille (Michelle Gomez), ou Madame Rouge, a clássica vilã dos quadrinhos. Desmemoriada por causa da viagem no tempo, ela chega à mansão procurando pelo Chefe. Com a má vontade que lhes é característica, nossos heróis acabam resolvendo ajudá-la a descobrir quem é.

Michell Gomez como Madame Rouge
Michelle Gomez como Madame Rouge (Imagem | Reprodução)

Os episódios seguintes são mais fechados em si mesmos, ao menos à primeira vista. A Patrulha enfrenta uma série de inimigos estranhos e situações absurdas, incluindo as bundas da primeira temporada e o terrível Garguax (Stephen Murphy), que é recrutado pela Irmandade do Mal para matar Rita, mas acaba esperando por mais tempo do que devia em um resort à beira da falência e curtindo uma sauninha com Cliff.

Porém, pouco a pouco, as peças do quebra-cabeça vão se juntando. No meio da temporada, somos apresentadas à Irmandade do Dadá, um grupo de artistas meta-humanos que está na cola DeMille. Além de capturar Madame Rouge, eles pretendem lançar a humanidade em algo chamado Flagelação Eterna, em que todos terão que enfrentar seus segredos e traumas mais profundos.

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E, ao que tudo indica, Rita também tem uma relação com esse mistério. No sexto episódio da temporada, “1917 Patrol”, é a vez da Mulher-Elástica voltar no tempo e descobrir o laço que a liga a Laura e à Irmandade.

Garguax em Patrulha do Destino
Garguax (verde) e seu mordomo, Samuels (vermelho) (Imagem | Reprodução)

Uma trama bem amarrada e o verdadeiro surgimento da Patrulha do Destino

Ao contrário da história de Dorothy e do Candlemaker, que parecia desconectada das subtramas, na terceira temporada de Patrulha do Destino nada está onde está por acaso. Até mesmo os episódios aparentemente mais aleatórios trazem informações cruciais para a trama. “Undead Patrol”, por exemplo, tem como principal finalidade apresentar os protagonistas de Dead Boy Detectives, próxima série da DC. Porém, quem não prestar atenção corre o risco de perder pistas que fazem toda a diferença mais para a frente.

Os dramas pessoais dos protagonistas também estão todos amarrados à trama central. E, pela primeira vez, não parecem repetitivos. Larry e Vic são os que tem as histórias menos interessantes, mas ao fim da temporada até mesmo eles se mostram capazes de mudança. Já Cliff consegue se reaproximar da filha ao mesmo tempo em que começa a apresentar sintomas de Parkinson, e Jane precisa lidar com transformações profundas na estrutura do Subterrâneo. O destaque da temporada é Rita, que finalmente consegue vencer a insegurança de ex-estrela e encontrar sua voz.

O aprofundamento dos dramas pessoais não significa um prejuízo para a leveza do seriado. Mesmo durante a longa sessão global de terapia que é a Flagelação Eterna, é difícil conter o riso em algumas cenas, como a pancadaria entre as personalidades de Jane em versão fantoche.

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Patrulha do Destino
Jane em versão fantoche, Cliff, Vic e Larry (Imagem | Reprodução)

A única coisa que deixa a desejar é o episódio final da temporada. Não apenas o CGI dá a sensação de que os produtores esqueceram de levar o episódio em conta na hora de montar o orçamento, como a resolução da trama foi um pouco apressada. Mais um ou dois episódios não fariam mal a ninguém. Ainda assim, a temporada termina com um gancho intrigante e grandes mudanças para a Patrulha – ou “Força do Destino”, nas palavras de Cliff -, enfim consolidada como um grupo de super-heróis.

Madame Rouge e a jornada de Rita Farr

Não é exagero dizer que Rita é a verdadeira protagonista da terceira temporada de Patrulha do Destino, assim como Cliff foi o da primeira e Dorothy, a da segunda. Afinal, é a trama de Rita que movimenta a história e que liga a Patrulha aos antagonistas da vez, desde Garguax até a Irmandade do Dadá.

Quando fomos apresentadas a Rita Farr pela primeira vez, em 2019, as principais preocupações da personagem era com sua imagem. A ex-estrela de Hollywood não conseguia lidar com a deformação do próprio corpo causada pelas substâncias tóxicas a que foi exposta e, portanto, não conseguia aprender a controlar os próprios poderes. Era um drama tocante de uma mulher que sempre acreditou que tudo que tinha para oferecer era a própria beleza e, de repente, essa já não era mais uma garantia.

Mas chega uma hora que cansa. Em uma série na terceira temporada, os dilemas dos personagens precisam passar por alguma transformação.

Rita e Madame Rouge em Patrulha do Destino
Rita Farr no passado, com Laura DeMille (Imagem | Reprodução)

April Bowlby sempre emulou como ninguém os trejeitos das atrizes da antiga Hollywood, transformando Rita em uma personagem ao mesmo tempo divertida e melancólica. Na terceira temporada, porém, ela tem oportunidades mais variadas para demonstrar o seu talento.

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Embora a Rita dos primeiros episódios ainda bata muito nas mesmas teclas das temporadas passadas, a coisa logo muda de figura. Ao voltar no tempo para tentar ajudar Laura DeMille, Rita entra em contato com um novo grupo de meta-humanos e um novo lado de si mesma. A personagem sofre perdas irreparáveis e precisa encontrar forças para seguir em frente. Nesse processo, ela se torna uma verdadeira líder, primeiro guiando a Irmandade do Dadá e, depois, a Patrulha do Destino.

Irmandade do Dadá em Patrulha do Destino
Rita ao lado da Irmandade do Dadá (Imagem | Reprodução)

Porém, é a forma como se desenvolve a relação de Rita com Madame Rouge que realmente chama atenção. Rita e Laura são duas mulheres muito parecidas, tanto na aparência quanto no jeito de agir. A semelhança é comentada pelos personagens da série e fez com que muita gente no mundo real teorizasse que as duas são, na verdade, a mesma pessoa.

No passado, Laura DeMille é uma funcionária de alto escalão do Departamento de Normalidade, responsável por classificar meta-humanos como armas ou não-armas. Quando Rita chega a 1917, ela cai nas graças de Laura, que a protege e a convida a se juntar à Irmandade do Dadá. Lá, Rita conhece o grande amor da sua vida, um ex-soldado e poeta chamado Malcolm (Micah Joe Parker).

Mas o que começa como uma identificação e uma amizade entre as duas personagens se transforma em ódio depois que Laura trai Rita e a Irmandade, levando à morte de Malcolm. É no intervalo entre o amor e o desejo de vingança que Rita cresce como personagem. Ao fim da temporada, a Mulher-Elástica que, antes, só tinha espaço para as próprias inseguranças se torna, ao mesmo tempo, muito mais cruel e compassiva.

Jane, Kay e a dor da mudança em Patrulha do Destino

Embora não seja o foco central da temporada, o desenvolvimento de Jane também merece destaque. A personagem, que sempre enfrenta problemas no nível psíquico tanto quando no físico, passou por um processo análogo ao de muitas pessoas que tratam transtornos psiquiátricos. Embora o distúrbio de Jane seja bem específico – uma versão ficcionalizada do transtorno dissociativo de identidade -, seu arco reflete o que experimentam muitas pessoas que sofrem até mesmo de problemas relativamente comuns, como a depressão e a ansiedade.

Após a derrota da falsa Miranda, Jane e as outras personalidades do Subterrâneo precisam lidar com um problema inédito: Kay (Skye Roberts), a menina que foram criadas para proteger, quer subir à superfície e aprender a viver no mundo real. Jane fica animada com a possibilidade, mas as outras personalidades temem que a melhora da garota possa representar o seu fim. Então, fazem de tudo para sabotá-la.

Kay e Jane em Doom Patrol
Kay e Jane no Subterrâneo (Imagem | Reprodução)

Sem o devido apoio, Kay acaba passando por experiências desagradáveis tanto na superfície quanto na própria mente, e se fecha dentro de si mais uma vez. Porém, não sem antes dizer a Jane, durante a Flagelação Eterna, que gostaria que ela desaparecesse.

Ao fim da temporada, o Subterrâneo está colapsado e as personalidades são afligidas por uma estranha doença que as transforma lentamente em pó. Para trazer o Subterrâneo (e, consequentemente, Kay) de volta, Jane faz um acordo com a Dra. Harrison (Catherine Carlen) e cede sua posição de personalidade primária.

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Com exceção de Jane, as personalidades de Kay representam a força contrária à qualquer tipo de mudança que existe em nossas próprias mentes. Enquanto a garota tenta melhorar, algo dentro dela resiste e quer que ela permaneça para sempre em sua zona de conforto. O problema é que essa zona pode ser confortável, mas também é extremamente prejudicial.

Diane Guerrero como Kay
Kay sai para passear na superfície (Imagem | Reprodução)

Como não consegue encontrar o equilíbrio entre o desejo de mudança e as próprias limitações, Kay resolver abrir mão de vez das outras personalidades. O problema é que abandonar as nossas defesas nos coloca em uma posição de vulnerabilidade extrema, que pode nos levar ao colapso nervoso e fazer com que aflore um lado da nossa personalidade que raramente é o nosso favorito. No caso de Kay, o colapso é literal, representado pelo túnel destroçado do subterrâneo, e a personalidade que emerge é a da controladora Dra. Harrison.

Ainda é cedo para dizer com certeza o que aconteceu no Subterrâneo. Kay não apareceu novamente após o retorno das outras personalidades e a série não revelou o que há do outro lado da parede de pedras. Fica no ar, também, como a viagem no tempo afetará Jane, que deve voltar na quarta temporada substituída pela Dra. Harrison, mas sem saber direito quem é. Contudo, seja qual for a resolução, Jane certamente não será mais a mesma daqui em diante. Talvez literalmente.

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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