Melhores de 2021: Cinema

Melhores de 2021: Cinema

Pioneiras da música eletrônica, lendas do horror, paixões bizarras e muito mais. Confira a seguir a nossa lista de melhores do ano: cinema.

Indicação: Elisa Guimarães

Shiva Baby

Shiva Baby - melhores do ano: cinema

Longa de estreia da cineasta canadense Emma Seligman, Shiva Baby é um filme ao mesmo tempo engraçado, sufocante e desesperador. A trama se passa em uma shivá, uma cerimônia fúnebre judaica. Porém, o que menos importa ali é o morto. O que a protagonista Danielle (Rachel Sennott) precisa enfrentar não é o luto, mas a série de cobranças e comentários invasivos feitos por parentes e amigos da família ao longo da reunião – um pesadelo que, guardadas as devidas diferenças culturais, todas conhecemos muito bem.

A sinopse já basta para induzir um ataque de ansiedade: Danielle vai a uma shivá de um parente distante e, lá, dá de cara com seu sugar daddy, acompanhado da esposa e da filha, e com uma ex-namorada com quem tem uma relação conflituosa. Como se não bastasse, sempre que tenta se esconder em um cômodo, é surpreendida por algum tio ou vizinho perguntando o que ela faz da vida e “como vão os namorados?”.

Baseado em um curta realizado por Seligman em 2018, Shiva Baby saiu um pouco escondido no Brasil, na plataforma Mubi. É uma pena, pois em apenas 77 minutos, a diretora e a atuação impecável de Sennot criam uma das crônicas mais incisivas sobre sexo, família e relacionamentos dos últimos anos.

Indicações: Juliana Trevisan

Bingo Hell

Bingo Hell - melhores de 2021

Publicidade

Bingo Hell pode não ser um filme esperado em listas de melhores do ano, mas merece destaque por aqui. Com menos de 1h30 de duração, podemos garantir que é um entretenimento rápido, agradável e corajoso. O longa de estreia de Gigi Saul Guerrero chama atenção logo de cara pelas protagonistas: um grupo de idosos, principalmente mulheres.

A premissa aborda o processo de gentrificação de uma comunidade, uma ameaça maligna e uma heroína latina de mais de sessenta anos. Lupita (Adriana Barraza) e Dolores (L. Scott Caldwell) são melhores amigas que já lutaram muito, ajudaram várias gerações de Oak Springs e agora precisam derrotar a ameaça do novo comprador do bingo local. É encantador ver as mulheres fora do padrão hollywoodiano liderando a trama. Por isso, mesmo que digam por aí que o filme se perde um pouco ou é muito simples, merece estar na lista dos melhores do ano. 

Carro Rei

Carro Rei: melhores filmes de 2021

Longa de Renata Pinheiro, Carro Rei foi premiado em diversos festivais ao abordar o dilema humano entre o medo e o amor pelas máquinas, dialogando com a ascensão da extrema-direita no Brasil atual. Protagonizado por Uno (Luciano Pedro Jr.), com destaque para os papéis de Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), Mercedes (Jules Elting) e Amora (Clara Pinheiro), a distopia utiliza o carro como símbolo de poder e potência. Ao humanizar os carros, a trama objetifica os humanos e traz reflexões existenciais importantes referentes ao trabalho e à tecnologia. 

Indicação: Elisa Guimarães

Judas e o Messias Negro

Melhores de 2021: Judas e o Messias Negro

Lançado bem no comecinho de 2021, Judas e o Messias Negro é o segundo longa-metragem do diretor Shaka King. O filme conta a história do assassinato do líder dos Panteras Negras Fred Hampton (Daniel Kaluuya) pelo FBI, em 1969. Porém, em vez de fazer uma um thriller político ou uma cinebiografia padrão, King opta por contar a história por um ponto de vista inusitado: o do informante Bill O’Neal (Lakeith Stanfield), responsável por se infiltrar no grupo de Hampton para facilitar o trabalho do FBI.

Judas e o Messias Negro é um filme intenso, que, ao contrário de outras obras sobre figuras de esquerda do passado, não disfarça o alinhamento ideológico de seu protagonista. Os Panteras Negras eram um organização maoísta, e King não esse lado de Hampton em um esforço de torná-lo supostamente mais palatável para uma esquerda liberal. O longa é um filme muito bem posicionado, que não tem medo de dizer verdades duras sobre racismo, organização política e o Estado, mas sem esquecer a humanidade de seus personagens.

Publicidade

As atuações também merecem destaque. Vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, Kaluuya representa Hampton como um líder carismático e um homem apaixonado. Já Stanfield consegue transmitir até mesmo em seus menores movimentos o conflito interno de O’Neal, dividido entre a organização e um Estado que o vê como cidadão de segunda classe.

Indicações: Isabelle Simões

A Lenda de Candyman

A Lenda de Candyman - melhores do ano: cinema

Nia DaCosta é a diretora e corroteirista de A Lenda de Candyman, a continuação do clássico Candyman (1992), considerado pelo corroteirista Jordan Peele como “um marco para a representação negra no gênero terror”. O novo Candyman busca se aprofundar na origem da misteriosa lenda que aterrorizou Cabrini-Green, um projeto habitacional localizado em Chicago.

Anthony (Yahya Abdul-Mateen II) é um artista visual que visa conquistar seu espaço em um mercado majoritariamente branco e elitista. Ao ter contato com a lenda de Candyman, o personagem começa a investigar os pormenores da história. No entanto, tal curiosidade se torna uma obsessão nada saudável, servindo ao mesmo tempo de inspiração para o seu próximo projeto artístico.

Quanto mais Anthony investiga a lenda, mais a atmosfera do longa se torna densa, obscura e quase claustrofóbica. Dessa forma, ficamos anestesiadas diante do mistério, assim como Anthony, compreendendo sua busca desenfreada. Já Brianna, interpretada por Teyonah Parris, merece destaque por trazer um papel importante no desenrolar da trama, sem cair no clichê (comum em filmes de horror) da personagem que entra em situações perigosas sem pensar nos riscos.

O filme de Nia DaCosta aborda racismo, violência policial, elitismo, além de trazer um dos desfechos mais marcantes do cinema de horror negro – e uma das melhores cenas cinematográficas deste ano.

Sisters With Transistors

Sisters With Transistors - melhores filmes de 2021

Sisters with Transistors é um documentário da diretora Lisa Rovner, exibido pelo In-Edit Brasil em junho deste ano. A obra conta a história de mulheres pioneiras da música eletrônica, trazendo artistas das primeiras décadas do século 20, como Bebe Barron, Pauline Oliveros, Maryanne Amacher, Eliane Radigue, Delia Derbyshire, Daphne Oram, Laurie Spiegel, Suzanne Ciani, Wendy Carlos, entre outras.

O documentário demonstra que tais compositoras foram essenciais para criação e o desenvolvimento da história da música eletrônica. Elas desafiaram sozinhas as barreiras do machismo e abriram caminho para diversas compositoras que conhecemos hoje. É emocionante acompanhar a jornada de cada uma delas, onde presenciamos os relatos de suas descobertas e a paixão pela música.

Ao assistir Sisters with Transistors é inevitável não questionar quantas invenções e descobertas poderíamos ter em todos os campos se os homens não tivessem excluído as mulheres desses espaços. Mais que um documentário, Sisters with Transistors é uma carta de amor para que todas essas artistas jamais sejam esquecidas ou apagadas da história. Portanto, é um dever conhecer e falar sobre os trabalhos dessas pioneiras.

Nessa playlist do Spotify você pode conhecer alguns dos trabalhos das artistas citadas no documentário.

Noite Passada em Soho

Noite Passada em Soho - melhores do ano: cinema

Dirigido e corroteirizado por Edgar Wright, com roteiro de Krysty Wilson-Cairns, Noite Passada em Soho conta a história de Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem tímida e apaixonada pela música e moda dos anos 60, que passa horas em seu quarto ouvindo canções antigas. Após crescer e viver no interior pacífico da Inglaterra, Eloise recebe a oportunidade de estudar moda em Londres e com isso se aproxima do seu maior sonho: se tornar uma grande designer de moda.

Ao mudar-se para a capital, Eloise passa a ter dificuldades de se adaptar nessa Londres eletrizante e barulhenta. No entanto, a personagem continua fiel ao seu propósito. Porém, a vida da protagonista muda totalmente quando ela se depara com uma mulher misteriosa, interpretada por Anya Taylor-Joy, que parece ter saído direto dos anos 60. A partir desse momento, eventos estranhos começam a ocorrer na jornada de Eloise. 

Noite Passada em Soho é um horror urbano que traz referências da estética cinematográfica do terror italiano dos anos 70. A predominância do neon vermelho e azul cria uma atmosfera nostálgica e onírica, onde não sabemos ao certo se a personagem está sonhando ou se os eventos ocorreram de fato. O filme também quebra o estereótipo da personagem feminina que está enlouquecendo e trazer uma história sobre eventos – mais reais do que poderíamos imaginar – de jovens mulheres que buscam atingir seus sonhos em um mundo masculino e opressor. 

Titane

Titane, de Julia Ducournau - melhores filmes de 2021

Não é a primeira vez que a diretora e roteirista francesa Julia Ducournau causa desconforto com um filme. A diretora do longa-metragem Raw, que também mexeu com a cabeça e estômago do público no Festival de Cannes em 2016, retorna com o premiado Titane, um body horror que desafia todas as barreiras desse subgênero do horror. O ganhador da Palma de Ouro em Cannes de 2021, mostra que temos diretoras e roteiristas mais do que competentes para narrativas grotescas, o que, infelizmente, foi ignorado por muito tempo nos principais festivais cinematográficos.

Em Titane, Ducournau nos conta a história de Alexia (Agathe Rousselle), uma mulher apaixonada por carros que se envolve numa bizarra jornada de assassinatos. O filme ressignifica a utilização da imagem da mulher enquanto objeto sexual para a venda de automóveis, apresentando uma protagonista que busca o seu próprio prazer de maneiras nada convencionais, nos fazendo lembrar das personagens femininas de Em Minha Pele (2004), de Marina de Van, e Trouble Every Day (2001), de Claire Denis. As atitudes de Alexia nos causam repulsa e desconforto, atingindo o extremo do body horror.

Ame ou odeie tal subgênero, Titane nos mostra que narrativas de mulheres sinistras precisam de mais reconhecimento no mercado cinematográfico. O filme estreará no streaming MUBI dia 28 de janeiro de 2022.

Autora:

305 textos

Site sobre cultura e entretenimento, que destaca o protagonismo feminino e analisa a representação feminina nas obras.
Todos os textos
Follow Me :