[LIVROS] A Princesa Salva A Si Mesma Neste Livro: o rompimento com o estereótipo da princesa através da poesia

[LIVROS] A Princesa Salva A Si Mesma Neste Livro: o rompimento com o estereótipo da princesa através da poesia

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Eles dizem que só querem flores crescendo da minha boca“. No entanto, Amanda Lovelace revela que há muito mais para sair de seus lábios que apenas flores. O ideal da mulher princesa é substituído, em suas palavras, pela mulher guerreira. Sua poesia, da mesma forma que a de Rupi Kaur, desconstrói o mito da feminilidade a que as mulheres são submetidas desde a tenra idade. E, assim, recria sua própria história, aquela formada de superação em sua maior parte.

A norte-americana Amanda Lovelace, formada em literatura inglesa, cresceu rodeada por contos de fada. Absorveu em seu desenvolvimento as inúmeras histórias de princesas salvas por príncipes. A experiência, contudo, lhe mostrou que a vida nem sempre repete o conto. Nem sempre os príncipes farão algo para além da aparência da salvação. Muitas vezes serão eles os vilões de uma história. Amanda percebeu, posteriormente, que poderia ser mais do que uma princesa impotente. Ela poderia ser seu próprio cavaleiro. E poeticamente narra a história d’ A Princesa que Salva A Si Mesma Neste Livro.

Princesa, Donzela, Rainha

A história de uma princesa que virou donzela que virou rainha“. Dividido em quatro seções, o livro narra uma progressão no amadurecimento da protagonista. Em um primeiro momento, existe a menina e mulher que ainda não se deu conta de seu próprio poder. Ela enfrenta a solidão imposta, trancada na metáfora de sua torre.

Ela espera pelo dia em que alguém virá para salvá-la – do mundo que julga, dos relacionamentos tóxicos, de sua própria tristeza. E cada vez fica mais difícil suportar a prisão em que é colocada. E quantas mulheres ainda não permanecem nessas prisões? Quantas mulheres ainda não recebem torrões de sal como se fossem de açúcar, porque o mundo lhes diz que este é seu conto de fadas?

Aquela que se acreditava destinada a ser apenas princesa, encontra nos livros o refúgio para as dores cotidianas. É o princípio da construção de uma história que acabará pela sua própria desconstrução e por sua saga de salvação.

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As belas princesas

As narrativas dos contos de fadas sempre apresentam o estereótipo da “bela princesa”. Muitas vezes, as protagonistas também carregam no nome a padronização da aparência. Quem nunca ouviu falar da Bela e sua paixão pela Fera? Ou da princesa, que embora se chame Aurora, apresenta o adjetivo bela no título de seu conto? Mesmo nas releituras que trabalham a questão da aparência, como no caso da Feiurinha de Pedro Bandeira, a beleza é requisito para o protagonismo.

A aparência destoante – também qualificada como feia – pertence quase sempre às antagonistas. São as bruxas, a personificação do que é considerado ruim. Podem ser mais velhas, encurvadas, narigudas, gordas (como a Úrsula de A Pequena Sereia), com pintas e verrugas. Comumente, contrastam com o padrão apresentado pelas princesas – sempre belas, jovens e descritas como puras.

E não diferentemente da ficção se desenvolve a ideia de corpo padronizado na sociedade contemporânea. E como dizer a um indivíduo que ter um corpo diferente do padrão estabelecido pela mídia (que não coincide com o real padrão de corpos), seja ele mais gordo ou mais magro, não afasta alguém do merecimento de uma história feliz?

Enfrentar os contos de fadas, por Amanda Lovelace, não é apenas enfrentar a impotência atribuída às princesas, mas romper com todos os estigmas que o papel apresenta. Significa tomar as rédeas da sua vida através da aceitação de quem você é.

De princesa para princesa

Outro ponto dos contos de fadas é a rivalidade entre mulheres. Das histórias de sucesso, poucas são aquelas em que o antagonista é um homem. E em conjunto com o padrão de beleza discutido, cria-se a ideia de que mulheres nasceram para disputar o mundo entre si. Uma não pode vencer enquanto a outra não for destruída – em uma concepção próxima a da Rainha Má de A Branca de Neve. Nem sempre a ideia da oposição de mulheres será verificada apenas na disputa por um parceiro. Pelo contrário, muitas vezes a lógica machista também está enraizada no seio familiar.

É preciso aqui fazer uma ressalva. Nenhuma mulher está a salvo dos pensamentos condicionados. A desconstrução é um processo demorado. Não é automaticamente que o oprimido toma consciência da integralidade da opressão. Então, mesmo indivíduos do sexo feminino podem reproduzir condutas machistas.

Outro ponto a ser ressalvado diz respeito à idealização da maternidade. A atribuição de uma vocação materna natural conduz ao pensamento de que toda mulher será uma mãe exemplar. Ou de que toda mulher amará seus filhos incondicionalmente. Nada, contudo, confirma esse pensamento. É apenas uma história repassada culturalmente. Nem toda mulher amará incondicionalmente sua prole, do mesmo modo que nem todo homem. E ainda que ame seus filhos e filhas, poderá errar com eles. Afinal toda mulher é também um ser humano como qualquer outro. E toda mulher é, também em parte, socialmente condicionada.

Toda mulher é gerada por outra, que também pode ter vivido os sonhos frustrados de ser princesa e que pode reproduzir um padrão. Para romper com esse padrão e construir uma história mais feliz, muitas vezes será preciso romper também com os ensinamentos provenientes desse relacionamento.

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A donzela (im)potente

Da mesma forma que encontra refúgio nos livros, a princesa coloca sua esperança na fantasia de que, algum dia, um príncipe surgirá para lhe salvar. E, então, o personagem aparece. Mata os dragões. Resgata a princesa da torre. Ela apenas não sabia que a sua prisão mudava de nome.

O sistema quer nos convencer de que ele próprio pode nos salvar. Coloca vilões e salvadores em papéis que apresentam a mesma lógica opressora por trás. O que guia o sofrimento da menina é o mesmo padrão machista que posiciona um homem no papel de único ser capaz de salvá-la. Assim, repete continuamente que tudo dará certo quando a princesa encontrar o príncipe que a ame. Mas nem todo romance está livre da dor.

Agora uma donzela, ela já está um pouco mais madura. Não quer dizer que tenha superado todas as dores de sua época de princesa. No entanto, já vive intensamente outras dores e amores. É aqui que ela conhece a dor da perda. E também é aqui que ela conhece a dor do amor.

A perda faz parte da vida. Às vezes é preciso deixar que algo parta para encontrar a felicidade. E às vezes é preciso aceitar que algo partiu. Em sua trajetória como donzela, o eu lírico perde vários entes queridos. A morte assombra tanto quanto a vida. Mas também perde a ideia de que o ato heroico está no outro. Nenhum amor, de qualquer modo, salvará ninguém que não lute por si. A perda leva à desmistificação do outro como herói. E nem de dor apenas é feita. Algumas perdas são tão bem liberdade.

A rainha que coroou a si mesma

Num salto de coragem, a princesa pula da torre e aprende que pode voar. Esperou duas eras para entender que ninguém lhe daria as asas de que precisava para fugir. E, finalmente liberta, tomou sua coroa e lutou por seu final feliz.

A libertação começa pela desconstrução do passado. Ciente do mundo, a rainha tem o poder de perdoar mais do que de condenar. Acima de tudo, de perdoar a si. Revisita, então, as dores de seu passado, para que possa destravar os vestígios das correntes que a prendiam à torre. E para que possa sentar em um trono que não seja formado de mentiras.

Empaticamente, revisita seu relacionamento com outras mulheres. O primeiro é o de sua mãe. Vê o relacionamento com ela para fora da esfera particular, mas como resultado da vida que as duas tiveram em um mundo de dor. Enxerga-a não como a heroína – ou como a causa de sua dor – como enxergara em momento anteriores. Enxerga-a como uma mulher que também sofreu.

Depois, analisa seus relacionamentos com outras mulheres, em uma sociedade que opõe irmãs. Até que chega aos seus relacionamentos com os homens. Vê-se em busca de amores mais reais do que os vivenciados anteriormente. Amores que não sejam outros nomes para abuso. Amores que não usurpem o seu trono, mesmo que não matem seus dragões. Porque apenas ela pode matá-los.

Você, eu, nós, o mundo

A última parte é composta de poemas construídos como um legado. Depois de revisitar a sua própria história, a poetisa se dirige ao leitor. Com seus pensamento, resume as mensagens que extraiu de sua saga, mas também vai além delas. Explora a sociedade, explora os sentimentos. Explora um mundo que mascara o abuso, que implica dores a quem apenas deseja viver. Explora a visão de uma princesa que salva a si mesma deste mundo. E que ainda busca seu final feliz.

Quando

alguém

se oferece para

salvar você

faça disso

a missão

para

salvar a si mesma.

– acredito em você.


A Princesa Salva a Si Mesma Neste Livro

Amanda Lovelace

Editora Leya

208 páginas

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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