“Café e Baunilha” é tudo o que você NÃO quer assistir e muito mais

“Café e Baunilha” é tudo o que você NÃO quer assistir e muito mais

É comum, ao iniciar uma resenha, ambientar o futuro leitor sobre a temática geral que aquela história aborda ou discutir a sinopse do produto resenhado. No entanto, em Café e Baunilha, produção japonesa, não há cenário para apresentar. Além disso, o protótipo de sinopse, disponível entre os sites, é tão superficial que não há o que falar sobre.

Portanto, o que é possível extrair de alguns portais que comentam sobre o dorama é que se conta a história de amor entre Risa (Fukuhara Haruka), a jovem inocente de 21 anos que se mudou para Tóquio a fim de estudos, e o Sr. Fukami (Sakurada Dori), o empresário bem-sucedido, charmoso e misterioso de 30 e poucos anos.

Mas também é possível ampliar essa sinopse. Podemos, também, dizer que Café e Baunilha aborda as diversas maneiras de assediar uma mulher. Ensina como não contar uma história de “amor” ou demonstra como piorar o desenvolvimento de personagens que, desde o princípio, já sabíamos que seriam péssimos – e não pela personalidade do personagem e sim por imaginar que dessa produção não sairiam bons resultados em nenhum cenário.

Em seguida, vamos apresentar os motivos pelos quais não vale a pena assistir a esse popular dorama – sua popularidade provavelmente advém de tão ofensivo que ele é – e refletir um pouco de como a abordagem de assuntos tão sensíveis (assédio e tentativas e ameaças de estupro) pôde ser feita de maneira tão maldosa e irresponsável.

Uma das várias vezes que Risa é assediada em Café e Baunilha
Uma das várias vezes que Risa é assediada em Café e Baunilha | Imagem: powerfulket

A inconsistência do – ou falta de – roteiro em Café e Baunilha

Se tem uma palavra que é capaz de definir essa produção, essa palavra é aleatória. Tudo que acontece nessa história é de maneira aleatória, solta e que não faz sentindo algum com os acontecimentos anteriores. Inclusive, a maneira como o casal protagonista se conhece demonstra exatamente isso: Risa, logo nos primeiros minutos do dorama, é assediada por um grupo de colegas da faculdade e, em uma maneira de despistar tais colegas, adentra em um café perto dali. Logo em seguida, é abordada novamente por outro homem e também é assediada. Sr. Takami surge, do nada, para salvá-la.

A partir daí, os dois acabam indo a um restaurante chique em que Risa acaba passando mal com a bebida – e Fukami a socorre novamente, levando-a para casa a fim de ajudá-la a se recuperar. Feito isso, quando Risa acorda, ele se diz apaixonado por ela e que a ama perdidamente, então a pede em namoro. Tudo isso aconteceu em 12 horas (ou menos); ela, aleatoriamente, aceita o pedido de namoro e a história de amor dos dois inicia.

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Apesar de Risa já ser maior de idade e morar sozinha, o que poderia ser algum indício de maturidade, a protagonista de Café e Baunilha se mostra bem ingênua e manipulável e o personagem de Dori, o Sr. Fukami, é conhecido pelo público fã de doramas como “o Christian Grey japonês”, uma vez que ele é o responsável pela “iniciação sexual” de Risa.

Talvez, apenas talvez, esse seria um plot interessante de acompanhar (seja pelas possíveis problematizações em cima ou, quem sabe, a maneira como ele poderia desenvolver esse lado da personagem). De qualquer maneira, assim como todas as camadas do dorama, esse enredo, além de superficial, recebe um desenvolvimento péssimo, de mau gosto.

Cena de Café e Baunilha
Café e Baunilha I Imagem: divulgação

Em momento algum, dentro dos dez capítulos de Café e Baunilha o passado dos personagens é apresentado ou é explicado algum traço da personalidade de algum deles, muito menos dos protagonistas. A origem da riqueza de Fukami? Não sabemos. A história de Risa ou sua trajetória até a faculdade? Também não. Na verdade, não é comentado nem o que Risa cursa.

Aliás, não há nenhuma “liga” entre os dois que seja possível explicar se aquele sentimento é legítimo: não há troca de olhares, dificilmente Risa se apresenta confortável ao toque de Fukami, todas as abordagens “apaixonadas” ou sensuais entre os dois se consiste com Fukami pressionando Risa a fazer algo. Caso ela resista – ou não responda – é declarada como uma “má garota” e diversas vezes se diz que ela “merece ser punida”.

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Entretanto, é notável comentar que a Risa não reage de maneira nenhuma a essas investidas; não grita recusando ou faz algum charme como se fosse um jogo de sedução. Na bem verdade, a personagem se mostra confusa ou apática a qualquer investida do protagonista. E tudo isso torna ainda mais confuso – e grotesco – de entender como ela pode se apresentar tão recíproca aos sentimentos de Fukami.

Além de não esboçar quaisquer emoções, Risa também não demonstra nenhum traço relevante de personalidade (se está incomodada, com raiva, se gosta de algo assim ou de outra forma) ou atitude. É como se fosse uma personagem vazia, eternamente confusa com as coisas.

O assédio romantizado no dorama Café e Baunilha
Cena de Café e Baunilha | Imagem: powerfulket

Assim como a namorada, Fukami também deixa a desejar na possível personalidade irresistível: nada que possa explicar seu passado – um dos motivos para ele ser tão atraente – é explicado. Alguns personagens coadjuvantes, e ele próprio, defendem que ele era alguém “frio”, “insensível” e que não valorizava as pessoas, portanto, foi necessário Risa surgir em sua vida para que ele mudasse de atitudes. A questão é que é apenas falado, nada é apresentado para comprovar isso, o que torna essa possível evolução do personagem fraca.

E a coisa desanda um pouco mais quando a mãe do personagem surge, a fim de reparar a relação fragilizada com o filho – e, como era de se esperar, não é explicada a razão da possível briga entre o dois. Mas então, para seguir a falta de senso do dorama, ela convida o próprio filho para se tornar um acompanhante de luxo em sua balada. Ele, por mais que odeie a mãe, aceita. E ainda mais, Risa se disfarça de segurança para proteger o namorado.

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Cena do dorama Café e Baunilha
Café e Baunilha I Imagem: divulgação

Contudo, essa sua atitude foi capaz de mobilizar o coração da futura sogra e, em razão disso, ela aprovou a futura nora. Assim, a relação entre mãe e filho não se torna perfeita, mas fica menos odiosa.

Todos os eventos que ocorrem em Café e Baunilha são assim: surgem do nada, sem fundamento e, ainda assim, desestabilizam os personagens naquele episódio – mas somente. Nos capítulos seguintes, não há referência ao que ocorreu antes e é como se todo capítulo novo colocasse a história no início.

O casal irresistível, mesmo que não tenham carisma ou personalidade

Café e Baunilha: o casal irresistível, mesmo que não tenham carisma ou personalidade
Risa (Fukuhara Haruka) e Yoshiki (Ogoe Yuki) em Café e Baunilha I Imagem: divulgação

A aleatoriedade da história não se prende somente ao relacionamento sem sentido do casal. Além de Fukami e dos colegas da faculdade, Risa conquistou o coração de Yoshiki (Ogoe Yuki) em uma conversa de 10 minutos e poucas falas; assim como o namorado de Risa, ele jurou amor eterno e que lutaria por ela – mas esse enredo se encerrou por aí; ele e Risa não tiveram química e a demonstração de interesse não veio de nenhum dos lados.

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Continuando à disposição inabalável de Risa, ela também conquista o interesse de Akutsu (Kuroba Mario), um dos sócios de Fukami. Mas nesse caso específico, ele se atrai por Risa em razão de sua rivalidade com Fukami: o Sr. Akutsu (como Risa o chama) decide conquistá-la a qualquer custo, nem que seja um beijo forçado e com ameaças diretas de machucá-la. A propósito, não é explicada a razão dos dois rapazes se odiarem, o sentimento apenas existe.

Natsuki (Kita Noa) e Akutsu (Kuroba Mario) no dorama
Natsuki (Kita Noa) e Akutsu (Kuroba Mario) I Imagem: powerfulket

Assim como Risa é alvo de olhares, Fukami também é apresentado como um pretendente irresistível. Em razão da sua postura inabalável, roupas oversized, carreira bem definida e o passado tão misterioso que sequer é explicado, ele se torna extremamente atraente. Tão atraente que a melhor amiga de infância de Risa, Natsuki (Kita Noa), apaixona-se por ele após um esbarrão na rua; o amor instantâneo é tão grande que ela pede à Risa para ter um encontro com Fukami, apenas para ter a oportunidade de viver esse amor por algumas horas – Risa aceita, mas fica enciumada e logo encerra a saída entre os três.

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Em seguida, Yuki (Hama Shogo) é apresentado como o secretário silencioso e perfeccionista de Fukami – e, da maneira dele, é subordinado ao patrão. Diversas vezes ele surge, aleatoriamente, a fim de proteger Risa – afinal, Fukami é, além de misterioso, rico e amado, perseguido por várias pessoas que logo todos teriam o objetivo de atingi-lo através de Risa.

No entanto, o possível maior plot twist de todo o dorama é Yuki se apresentar apaixonado pelo patrão. É interessante a presença de um personagem LGBTQI+ em Café e Baunilha, mas é somente o que ocorre também. Fukami questiona o sentimento, Yuki afirma e a cena termina.

Yuki (Hama Shogo) e Sr. Fukami (Sakurada Dori) em Café e Baunilha
Yuki (Hama Shogo) e Sr. Fukami (Sakurada Dori) em Café e Baunilha I Imagem: divulgação

Assédio, sequestro e tentativas de estupro: de alívio cômico a declaração de amor

O maior desserviço de Café e Baunilha se mostra na maneira irresponsável, indelicada e totalmente desnecessária que o assédio é apresentado na história. Seja gatilho para Fukami demonstrar heroísmo sobre Risa, seja para “estimular” a sensualidade ou sexualidade de Risa ou, pior, como alívio cômico.

São inúmeras vezes que Risa sofre assédio e tentativas de abuso – e além de não reagir, ela responde com tentativas de querer orgulhar Fukami. Risa deseja demonstrar que é forte para ele e nunca para tentar proteger a si mesma em razão de estar sendo ferida.

Risa e Sr. Fukami: uma relação abusiva
Risa e Sr. Fukami em Café e Baunilha I Imagem: divulgação

Primeiro, a maneira como Fukami trata a mocinha: ela nunca deu abertura para qualquer investida dele. Diversas vezes ela se mostra desconfortável à sua abordagem, é extremamente tímida e ainda assim é coagida a tomar atitudes vinculadas ao sexo que ela não se sente confortável.

E mesmo que seja evidente seu desconforto, Fukami admite que essa resposta de Risa seja um charme de “menina má”, que secretamente ele queira esse joguinho. Continuando com esse comportamento problemático, o protagonista admite que deseja ser a única pessoa na vida de Risa, sendo somente ele a quem Risa possa confiar. Então, em uma jogada antiquada, doentia – e brega, inclusive –, ele a marca com um chupão como um registro de posse.

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De maneira semelhante, outro personagem que tem comportamentos perturbadores com Risa é Yuki. Após sabermos que o mesmo é apaixonado por Fukami, é possível interpretar que tais atitudes seriam maneiras de proteção ao chefe – mas, ainda assim, nada é capaz de justificar o quão problemáticas são as coisas que ele faz à protagonista.

Assim como Fukami, Yuki surge de maneiras variadas a “socorro” de Risa. Com abordagens assustadoras e desnecessárias, ele declara ameaças: caso não desista de Fukami e o deixe em paz, Yuki deverá tomar atitudes radicais para proteger o chefe e seu patrimônio.

Portanto, pelo que é possível entender na cena abaixo, essas atitudes seriam o processo para violentá-la. Risa, contudo, recusa-se a deixar Fukami e que o amor dos dois será maior que isso. A reposta da protagonista é o suficiente para Yuki desistir do ato.

Yuki e Risa em Café e Baunilha
Yuki e Risa em Café e Baunilha I Imagem: powerfulket

Por um lado, vemos o quão doentia é essa abordagem, uma vez que diálogo e apresentação de fatos (demonstrar que o relacionamento com o chefe poderia trazer problemas a empresa e segurança de ambos) poderia ser o argumento decisivo ou simplesmente aceitar que ambos ali são adultos e responsáveis pelas próprias atitudes.

Por outro, é absurdo acreditar que Risa merecia sofrer tamanha violência apenas porque o chefe de Yuki é apaixonado por ela e ambos estão em uma relação – teoricamente – feliz. E mais complexo de compreender é que Risa se opõe a essa ameaça não porque sua integridade física está sendo agredida, mas sim porque o relacionamento dela com o namorado é questionado.

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A cena abaixo é introduzida como um quadro cômico no dorama. Risa é apresentada na tela em uma posição subordinada, com rosto curvado para baixo e entende-se que o corpo também. Ela repete não muitas vezes e pede para Yuki parar. Em seguida, Yuki aparece com o corpo ereto, afirmando que não adianta Risa negar o que ele está fazendo e se ela insistir será prejudicada.

A cena seguinte explica que, na verdade, ambos estavam discutindo para ver quem iria servir o café da manhã, o que sugeriria um efeito de humor na cena, devido à quebra de expectativa causada, já que se esperava um contexto sexual entre os dois.

Yuki e Risa: o abuso em forma de alívio cômico
Yuki e Risa em Café e Baunilha I Imagem: powerfulket

A questão é que é impossível aquilo ser engraçado. Risa, naquela posição indicada na cena, repetindo não diversas vezes, com Yuki recusando a fala de Risa, apresenta um cenário de imposição em que a personagem deveria aceitar aquilo, se não seria (ainda mais) punida e se configuraria como abuso. É uma cena desconfortável que “brinca” com a ideia de assédio e abuso e todo mundo sabe, do oriente ao ocidente, que isso não é engraçado.

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Café e Baunilha é popular pelo seu elenco prestigioso e, ainda mais, por seu roteiro cruel e ofensivo. Não seria de se surpreender que a maneira como toda essa problemática foi exposta de maneira enjoativa se fosse uma produção da primeira década do século 21 (2001-2011). Contudo, é chocante saber que ousaram produzir algo tão ruim (tanto de conteúdo como abordagem) em 2019.

No ano do lançamento, os assuntos sobre direitos da mulher, a maneira como as personagens femininas são trabalhadas, abuso e assédio sexual eram assuntos exaustivamente abordados na mídia e por isso essa produção é tão ruim. Portanto, tal obra pode servir muitos gatilhos para quem for assisti-lo, mas caso esteja em um bom dia, é possível garantir muitas risadas com o show de absurdo que é este dorama.

Raríssimas as vezes em que Risa se mostrou confortável com Fukami em Café e Baunilha
Raríssimas as vezes em que Risa se mostrou confortável com Fukami I Imagem: powerfulket

Revisão por Gabriela Prado.

Escrito por:

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Ket tem 23 anos, é formada em Letras - Língua e Literatura Portuguesa, pela UFAM. Nasceu e criou-se em Manaus, onde ainda mora. Não é capaz de conceber uma realidade em que as mulheres não sejam livres, uma vez que sua vida inteira viveu em um lar matriarcal. Gosta de histórias tristes, é fascinada pela cultura Sul-coreana e chora com animes.
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