[SÉRIE] Tokyo Girl Guide: reflexões sobre ser mulher em um dos melhores doramas de todos os tempos

[SÉRIE] Tokyo Girl Guide: reflexões sobre ser mulher em um dos melhores doramas de todos os tempos

Tokyo Girl Guide é um dorama de 11 episódios, com cerca de 20 minutos cada, disponível na Amazon Prime Video. Em cada um desses episódios, acompanhamos a protagonista Aya desde o momento em que ela sai de sua cidade natal (Akita), aos 23 anos, até chegar aos 40. Cada episódio representa uma fase no seu ciclo de vivências e suas ambições profissionais, amorosas e pessoais.

Suas fases são marcadas pelas mudanças de apartamento, passando por diversos bairros da capital japonesa. Ela começa sua jornada no bairro suburbano de Setagaya, indo para Ebisu, Ginza, Toyosu e Yoyogi. Em cada novo bairro, ela vive um novo relacionamento amoroso e precisa mudar o seu padrão de vida, fazendo-a buscar por diferentes empregos.

Tokyo Girl Guide já seria uma grande recomendação só pelo protagonismo feminino sem objetificação da mulher – algo que, infelizmente, é muito comum no entretenimento japonês. Mas há tanta riqueza e crítica social na trama que é difícil assistir sem depois refletir sobre as ações das personagens.

A história, em si, não poderia ser mais comum: uma mulher buscando a sua felicidade. No entanto, a forma como o tema é abordado é tão polifônico que sempre nos deixa em dúvida sobre o que seria melhor para ela – e para nós mesmas. Perguntas como “o que é felicidade para uma mulher?” e “como ser uma mulher de sucesso?” pairam em cada um dos episódios. E, para uma série de pequena duração, há diversos personagens significativos – tanto femininos quanto masculinos –, como a jovem encrenqueira Ryoko, a modelo da classe alta Mia, o jovem interesseiro Kohei e a chefe durona Anna. Esses e outros personagens são importantes agentes nas mudanças de rumo na vida de Aya.

Outro fator que chama muito a atenção é a quebra da quarta parede. Em vários momentos, personagens principais ou meros transeuntes olham para a câmera e falam o seu ponto de vista sobre a situação em questão. Nossas opiniões sobre diversos assuntos são colocadas em dúvida junto com as da protagonista a todo instante, dando profundidade à história e nos fazendo questionar escolhas e valores que nos parecem resolvidos.

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Um grande exemplo disso é quando Aya está casada e pensa em ter filhos. Ela é mostrada com outras três mulheres – que só aparecem nessa cena – falando como é bom não ter filhos do ponto de vista financeiro, profissional e pessoal. Nessa hora a protagonista fica apenas sorrindo e escutando, como se concordasse com tudo. É uma cena longa, com cerca de 4 minutos e, ao final, ela diz, em narração, que acha a opinião das mulheres um pouco azeda. Em seguida, aparece uma mãe, levemente desesperada porque dois dos seus três filhos não param de chorar. Mesmo assim, a mãe olha para a câmera e diz que se sente feliz por tê-los.

Outra cena incrível é quando Aya se lembra de algo que aconteceu em sua infância. Ela ganhou um presente do qual não gostou e diz chorando que não queria aquele, que queria um igual ao das amiguinhas. O pai não entende porque a menina não pode ficar com aquele e a mãe logo a consola: “é que as meninas são assim, sempre querem o que é das outras”. A frase pode soar mesquinha, mas traduz bem um dos valores ensinados às mulheres desde a infância: que a felicidade é ser como as outras mulheres são. Na mesma cena, Aya reflete que se a mulher está solteira, é pressionada a casar para ser feliz e, se está casada, é pressionada a ter filhos para completar a felicidade.

Tokyo Girl Guide

A história termina sem determinar se Aya é uma vitoriosa ou fracassada, se está certa ou errada. É a espectadora que decide. Ela mesma, no final, fala que não é uma princesa e que sua história não se trata de um conto de fadas com um final feliz. Podemos pensar que sua ambição a levou às desilusões que sofreu? Talvez. Que se ela tivesse ficado na sua cidade natal ou com seu primeiro namorado ou casada seria mais feliz? Talvez. Que se ela tivesse namorado um cara ao invés do outro o resultado teria sido diferente? Talvez. Ou talvez sejam apenas os filtros do que significa ser mulher.

A má notícia, no entanto, é que a série não tem legendas em português, apenas em inglês, coreano e chinês. De qualquer forma, recomendamos que você relembre suas aulas de inglês e assista-a. Temos certeza de que você não irá se arrepender!

Autora convidada: Mylle Silva é escritora, roteirista de HQs, professora de Escrita Criativa e idealista incorrigível. É autora da série de HQs “A Samurai”, do livro de contos “A Sala de Banho” e do livro teórico “Guia Básico e Prático para a sua próxima História em Quadrinhos”.

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