A força de Okoye e o brilho de Shuri mereciam mais do que o visto em Vingadores

A força de Okoye e o brilho de Shuri mereciam mais do que o visto em Vingadores

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Pantera Negra” é o filme que melhor trata as mulheres em todo universo cinemático da Marvel. Caso exista alguma dúvida, tire algumas horas para assistir qualquer outro filme feito até a produção de “Pantera Negra” e por fim, volte a assistir a obra épica de Ryan Coogler, e a questão será respondida sozinha. “Capitã Marvel“, focado numa protagonista feminina, foi possível apenas pelo sucesso da obra de Coogler. E mesmo em “Capitã Marvel”, temos apenas Carol Danvers (Brie Larson) e Maria (Lashana Lynch) como enfoque.

Já no filme de Coogler, somos presenteadas anteriormente por ele, com personagens de narrativa própria, cuja história, moral e motivações não eram intrinsecamente ligadas a um homem. Ou a aprovação dele. Pelo contrário: T’Challa (Chadwick Boseman) é incrível, completo e superior. Sua postura como homem e líder é de longe a mais segura e constante no mundo de heróis construído pela Disney.

A obra-prima nos presenteou com as incríveis mulheres de Wakanda, que vieram para representar diversos retratos da mulher negra. Para homenagear quem, por muito tempo, ficou injustamente apenas no lado de espectadora. Não é muito provável que se consiga analisar em dados o tamanho do impacto que o filme teve em larga escala, mas a onda de elogios, premiações e principalmente de efeito humano, deixou todas as racistas tentativas de boicote abaixo.

A genialidade da Princesa e a bravura da General

Shuri
Shuri (Letitia Wright). Imagem: reprodução

E dentre os muitos presentes que o filme nos entregou, dois deles em específico passaram a fazer parte dos próximos filmes dos Vingadores: Shuri (Letitia Wright) e Okoye (Danai Gurira). Princesa e General. A mente mais brilhante da terra e a general mais valente do MCU.

Ambas são mulheres extremamente independentes, cuja história é guiada pela força do próprio caráter. Apesar de serem apresentadas no filme título do “Pantera Negra”, sendo Wakanda um lugar que respeita e abraça as mulheres de maneira proposital e pensada, sua representação das mulheres e seus desígnios não existem apenas por existir. Cada uma delas desempenha uma função de destaque e cuja importância é vital para o desenrolar da história. O efeito foi positivo, um sucesso, pois suas personagens femininas permaneceram no imaginário do público mesmo depois de serem apresentados a ambos protagonistas e anti-herói com tanto carisma e poder.

Okoye (Danai Gurira)
Okoye (Danai Gurira) em “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

Acontece que, na obra, o poder é compartilhado. Respeitado. Shuri e Okoye conquistaram seu espaço por conta dos seus talentos únicos e em momento algum sua competência é questionada pelo fato de serem mulheres.

Além disso, as relações interpessoais de Wakanda se baseiam – mesmo que não totalmente – em um sentimento de atual ancestralidade e constante observância ao matriarcalismo. As mulheres do país são tratadas de igual para igual, não havendo nenhum resquício da determinação colonizadora de diferenciação baseada em gênero, como é especialmente representado por Shuri e Okoye ao longo da obra. O caráter evidentemente africano – em sua filosofia universalista do panafricanismo – de união e ubuntu é tão forte no filme que muitos até hoje o veem como uma espécie de utopia, que utiliza-se dos ensinamentos e tradições ancestrais, bem como da não diferenciação entre sexos e gêneros, para prosperar.

Shuri
Cena de “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

Shuri: intelecto, carisma e energia pulsante

Uma amostra de seu talento único e uma cena para se assistir com muito prazer, é aquela em “Guerra Infinita” onde Shuri, mesmo com poucos minutos em tela, mostra como a pesquisa de Tony e Bruce estava aquém de suas capacidades. Ela podia mais, melhor, e muito mais rápido. Foi de Shuri a missão para extrair a joia da alma sem comprometer a existência de Visão, e ela a teria concluído com muito louvor caso chegassem mais cedo ou Wakanda não fosse invadida por um exército alienígena.

E mesmo depois de ter sua tarefa interrompida, ela não se acua. A princesa se mostra também guerreira, indo para a batalha contra as forças de Thanos que instalam o caos em Wakanda. Uma princesa negra adolescente cuja genialidade jamais foi colocada em questão pelos seus. São de personagens assim que o cinema precisa, e que o meio cinematográfico da Marvel deveria investir em seu novo momento após o início de “Homem-Aranha: Homecoming“.

Shuri (Letitia Wright)

Shuri
Gif: reprodução

Letitia Wright é a atriz que interpreta a personificação daquela que roubou o show em Wakanda, e solene responsável pelo carisma que excede as telas. A intérprete entregou para Shuri um brilho a mais para contrastar com a seriedade do seu irmão, e por tabela, acabou conquistando a vasta maioria do público. Existem aqueles que amam T’Challa, outros Killmonger (Michael B. Jordan), outros são fãs de Okoye ou Nakia (Lupita Nyong’o). Mas em sua maioria, todos saímos dos cinemas querendo uma irmã como Shuri. Ou uma amiga. Ou alguém em nossas vidas que possa levar o astral, inteligência e compaixão que vemos na entrega total de Letitia.

Shuri, sem sombra de dúvidas, é alguém que merece ser partícipe dos próximos filmes da Marvel, na fase que está por vir. Existiram especulações, antes da estreia de “Vingadores: Ultimato“, que ela seria a nova Pantera Negra, visto o apagamento do seu irmão durante o genocídio de Thanos. Contudo, a mesma também foi apagada pela ação dele e voltou à vida apenas ao final de Ultimato, junto com T’Challa. Não seria uma expectativa fora da curva, porém, esperar que ela assumisse a posição. Sua contraparte nos quadrinhos já o fez, por exemplo. E definitivamente ela tem o brilho necessário para ser protagonista senão de um futuro Pantera Negra, de um filme ou narrativa própria.

Afeto e responsabilidade da Princesa do MCU

A Princesa de Wakanda nos traz ainda um relacionamento de cumplicidade e amizade verdadeira com o seu irmão. Os momentos divididos entre eles demonstra não haver nada que possa se colocar entre o Rei e sua irmã mais nova. E ainda assim, mesmo sendo a sua irmã mais nova, ele não hesita em depositar nela extrema confiança para chefia do setor tecnológico do seu país. Ele não hesita em usar as invenções de Shuri, em momento algum do filme é implicado que houve atrito por tamanha responsabilidade depositada nela.

Shuri
Shuri (Letitia Wright) e T’Challa (Chadwick Boseman) em “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

É apenas natural que alguém com o intelecto dela não seja desperdiçada atrás de muralhas protecionistas ou do não-protagonismo que muitos outros filmes da Marvel costumam entregar às suas mulheres. O diretor respeita, assim, o papel das mulheres negras na vida do Rei, sendo elas intrinsecamente conectadas ao coração de Wakanda, fazendo-a funcionar de modo orgânico. É mais do que respeito, mas uma homenagem às mulheres negras, e uma ode para as garotinhas de nossa geração, ou ainda por vir.

Força, lealdade e coração da maior guerreira de Wakanda

Ao lado de Shuri, o MCU nos trouxe a participação de Okoye nos filmes “Guerra Infinita” e “Ultimato”. A participação de Okoye é consideravelmente maior que a de Shuri, porém, ainda insatisfatória. Danai Gurira, atriz que a interpreta, é uma força da natureza. Sua presença em tela demanda atenção e respeito mesmo através de um mero olhar. E para aqueles amantes da atriz desde a época de “The Walking Dead”, testemunhar a estrela conquistando o amor de fãs ao redor do mundo inteiro, na maior franquia de filmes da história, é uma satisfação à parte. Danai tem desenvoltura exímia, física e na interpretação. Um olhar é o suficiente para saber quanto poder e obstinação ela possui.

Dora Milaje
Dora Milaje em “Pantera Negra”. Imagem: reprodução
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E não para por aí, pois Okoye não apenas acompanha T’Challa em sua devoção ao trono de Wakanda, como também torna-se amiga pessoal dele. É uma mulher que coloca a lealdade acima de tudo, mas sempre com um senso de justiça. Pertence à líder das Dora Milaje, também uma das cenas mais icônicas nesses onze anos de MCU: o momento onde ela não hesita em falar que sim, iria contra o seu amor por W’Kabi (Daniel Kaluuya), seu par romântico, se fosse em defesa de Wakanda. Do que é justo. A cena é uma daquelas que você pode apenas fechar os olhos e relembrar fotograficamente, de tamanha paixão colocada pela atriz e maravilhoso impacto enquadrado pelo diretor.

A maior guerreira de Wakanda, como dito pela própria Nakia, faz parte do time de Vingadores que Natasha (Scarlett Johansson) convoca para permanecer protegendo o Universo de qualquer atividade fora do comum. E antes, em “Guerra Infinita”, ela permanece como protetora fiel de T’Challa o tempo inteiro, para depois participar de uma das cenas mais empolgantes na batalha – cena esta que funciona muito melhor do que o aglomerado de mulheres colocadas juntas em cena na batalha em “Ultimato”. É muito mais fluída. Okoye, Natasha e Wanda (Elizabeth Olsen) poderiam ter até repetido o momento no novo filme. Talvez fosse melhor.

Okoye
Okoye e Natasha em “Guerra Infinita”. Gif: reprodução

O apagamento feminino nos Vingadores ataca outra vez

Mas os filmes centrados nos Vingadores não conseguem acompanhar o que Ryan Coogler construiu em sua obra premiada pelo Oscar. Lá, em “Pantera Negra”, vemos cenas nada comuns no restante do MCU: mulheres interagindo com mulheres a respeito de toda sorte de assuntos, mulheres seguindo ordens de mulheres, mulheres protegendo mulheres. É uma homenagem à mulher negra, sendo elas que nos entregam os laços femininos mais verdadeiros e fortes da saga de super-heróis. Nakia (Lupita Nyong’o), Shuri, Okoye e a Rainha Mãe (Angela Bassett), tem um relacionamento claramente profundo, que não depende de ninguém para funcionar.

São mulheres que nunca ficam atrás dos homens, sendo colocadas em posição de destaque, anguladas com respeito e sem a sexualização dos corpos e curvas, que encontra-se presente em personagens como a Viúva Negra, ou os decotes exagerados de Wanda Maximoff, já alvos de reclamação da própria atriz. O tratamento feminino em Pantera foi imensamente melhor do que o entregue às mulheres pelos irmãos Russo ou por Joss Whedon.

Nakia (Lupita Nyong’o)
Nakia (Lupita Nyong’o) em “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

Portanto, quando analisamos a participação das duas integrantes de Wakanda em Vingadores, fica um dissabor. Queríamos mais. As mulheres negras, principalmente, mereciam mais. Duas das melhores personagens construídas pelo MCU são colocadas em participações que podem ser consideradas apenas pontas, participações especiais. Tudo bem que foram introduzidas muito depois no universo, mas outros personagens que apareceram tardiamente tiveram destaque: Dr. Stranger (Benedict Cumberbatch) sendo um deles. E para os que afirmam que o Doutor é essencial para construção do plot, podemos dizer que Shuri, por exemplo, não poderia ter ficado viva e auxiliado Stark (Robert Downey Jr) e Banner (Mark Ruffalo) com a tecnologia necessária para os saltos temporais? Poderia. Temos consciência de que ela está a par e ainda mais avançada em diversos campos do que os demais cientistas.

Existem explicações no campo da suposição para tanto, mas arriscamos dizer que, assim como Capitã Marvel, talvez Shuri solucionasse as questões mais rápido, e o filme seria encurtado. Há, porém, a explicação mais propagada pelo público: os filmes deveriam homenagear a “primeira fase” e o primeiro elenco fixo de Vingadores da Marvel. Tudo bem, mas isso não pedia para que uma personagem tão amada pelo público tivesse sua presença reduzida a uma mera aparição num momento da guerra. A audiência se afeiçoou tanto ao elenco de Wakanda, que na hora onde as mulheres aparecem ao lado de T’Challa e à frente do exército, a resposta dentro dos cinemas foi bem audível. A presença de Shuri seria sim, muito bem-vinda durante Ultimato.

Shuri
Cena de “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

Mesmo com todas as possibilidades de aproveitamento em cena da personagem, hoje, mais inteligente do Universo Marvel, bem como de uma de suas guerreiras mais fortes, uma escolha foi feita. Escolha esta, entretanto, que não é exatamente surpreendente, apesar de claramente insatisfatória.

Ora, seja na vida real seja na ficcional, as mulheres não brancas, especialmente as negras, enfrentam situações recorrentes de preterimento. Nesse caso, tal ação se deu por decisão dos roteiristas e diretores ao jogar para escanteio duas personagens tão interessantes quanto importantes à história; reforçaram, portanto, o já impregnado papel social de cidadãs de segunda classe dessas mulheres negras, sendo ignoradas como personagens dignas de mais de alguns minutos em tela ou mesmo como verdadeiras peças de mudança na sociedade e, no caso, na luta intergalática.

Mudanças, futuro do MCU, e (finalmente!) a vez da diversidade

É impossível mensurar a dimensão emocional e o impacto que as personagens de Wakanda trouxeram para todas as mulheres negras que tiveram a experiência de assistir o filme. É impossível, como mulher branca, medir o valor de uma experiência que não foi feita pensando no não-negro, e não há nada de errado com isso; não há absolutamente nada de errado em um filme não ser feito pensando em brancos, homens e naquilo que Hollywood adora vender como “padrão”. É uma obrigação, porém, daqueles que se adequam de alguma forma ao “normativo”, não apenas aceitar e respeitar a existência e representação alheia, mas de também agir para potencializa-la, uma vez que este mesmo padrão foi inventado, imposto e endossado pelo comportamento racista de parte da população.

Os boicotes ao filme são exemplo do quão frágil pode ser a masculinidade branca — ela não aguenta que algo não seja direcionado, ou vendido para si. Ratificando esse comportamento, boicotes também foram feitos à Star Wars por sua diversidade, e Capitã Marvel por sua protagonista feminina que pedia nada além de não ter uma comitiva exclusivamente composta por homens brancos. Imagine se todo filme não direcionado a determinado grupo sofresse boicote dos demais. Não sobrariam muitos filmes de homens brancos héteros fazendo sucesso por aí. Se todos os grupos excluídos da mídia mainstream não fossem mais consumir mídias onde não fossem representados, não é exagero supor que haveria uma queda considerável na forma e frequência com a qual esses produtos culturais padronizados chegam até nós.

Okoye em Pantera Negra
Okoye em “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

E por isso mesmo, o sucesso de Okoye e Shuri tem de ser celebrado, relembrado, e críticas tem de ser feitas ao fato de suas participações serem bem reduzidas nos filmes seguintes, o que faz permanecer o já conhecido papel secundário que parece reservado aos mesmo indivíduos, não importa a trama. Isso porque a Marvel tem uma página nova diante de si. Uma página que ela pode preencher com representatividade, com aceitação, abraçando o público que tanto lhe apoiou a despeito de não se ver na frente. Blockbusters tem força para alcançar o mundo inteiro, e o MCU não pode andar para trás ou estagnar num mundo de heróis onde a representação faz apenas uma ponta.

Existe um mundo real onde crianças e adolescentes estão esperando por mais. O legado que o MCU deixou até agora foi revolucionado apenas com o advento de “Pantera Negra”, e seu impacto será visto por gerações. Que a escolha certa seja feita, e muita representatividade ainda venha por aí. Por todos aqueles que tiveram de ficar apenas no lado do espectador nas poltronas de cinemas, e por todos aqueles que buscam na cultura uma inspiração para suas vidas.

Shuri
Gif: reprodução

Esse artigo foi escrito em conjunto pelas redatoras Nathalia de Morais e Camille Legrand.


Edição realizada por Isabelle Simões.


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