Arquivo 81: transcendendo os limites da realidade

Arquivo 81: transcendendo os limites da realidade

A cena inicial de Arquivo 81 apresenta parcialmente o rosto de uma mulher implorando, em uma imagem instável e de voz distorcida, à câmera que ela segura em suas mãos, para que alguém a ajude. A interferência de imagem aumenta e a tela fica preta. Com a duração de alguns segundos, a cena inicial da série da Netflix prenuncia a ambientação da série em sua duração: desconforto, intimidação e obscuridade.

Em Arquivo 81, acompanhamos Dan Turner (Mamoudou Athie), um funcionário do Museum of the Moving Image, empenhado em restaurar as fitas cassetes de um programa antigo de televisão, que nunca chegou a ir ao ar, chamado The Circle [O Círculo] – uma alusão ao programa The Twilight Zone, popular nos anos 50 e 60.

Por conta de suas habilidades em restauração de mídias antigas, Dan recebe uma proposta de trabalho do enigmático Virgil Davenport (Martin Donovan), para restaurar uma coleção de videotapes de 1994 danificadas em um incêndio. Ao aceitar o emprego, Dan começa a trabalhar sozinho em um local isolado da sociedade, com a companhia apenas do conteúdo das fitas e da ocasional ligação à seu melhor amigo Mark (Matt McGorry), quando a recepção de sinal da área permite.

“Todos nós estamos procurando por algo”

Dan e Mark | Imagem: Netflix (reprodução)

O enredo de Arquivo 81 se passa justamente com a restauração das fitas: à medida que Dan vê os acontecimentos registrados nos vídeos, também conhecemos os horrores contidos nos dispositivos. Nas imagens de vídeo, o espectador é apresentado a uma mulher chamada Melody Pendras (Dina Shihabi), que se propõe a investigar mais sobre a história de um apartamento em Nova York, o Visser, com o propósito de uma visita de campo para sua pesquisa.

Melody passa a morar no local, entrevistando os moradores atuais em busca do conhecimento sobre o passado do prédio. De imediato percebe-se que algo deu errado: Melody é a mesma mulher que aparece na cena inicial da série, portanto, sabemos que algo desagradável aconteceu com ela.

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A trajetória de Dan descobrindo os conteúdos das fitas, com os borrões e granulados presentes nos vídeos – racionalmente explicados pelos danos sofridos pelo material e longevidade do mesmo – auxiliam na construção de uma atmosfera inquietante e perturbadora. Assim como o personagem principal, o público começa a questionar as explicações racionais, conduzindo-se para explicações sobrenaturais, onde as barreiras do que é real ou imaginário começam a se misturar, levando a uma pergunta essencial: ver é realmente acreditar?

Podcast e inspirações culturais de Arquivo 81

A série é inspirada no podcast de mesmo nome criado por Daniel Powell e Marc Sollinger, onde eles performam os personagens de mesmo nome. O podcast Archive 81 conta a história de um arquivista, Daniel Powell, que desaparece após aceitar um emprego com o Comitê Histórico de Habitação do Estado de Nova Iorque. Seu melhor amigo, Mark Sollinger, encontra numerosas fitas de áudio que Daniel estava arquivando; dentre elas, estão entrevistas com os residentes de um prédio na cidade. Atualmente, o podcast esta em sua terceira temporada e pode ser encontrado nas plataformas do Spotify e Apple Podcast.

Cena de Arquivo 81 | Imagem: Netflix (reprodução)

Arquivo 81 pertence ao subgênero de horror de found footage [imagens encontradas], porém a série brinca com aspectos de outros gêneros, como sci fi e thrillers, introduzindo a possibilidade de saltos temporais, rituais ocultos, astronomia e criaturas mitológicas. Além disso, são feitas alusões a grandes clássicos do gênero de horror, como O Bebê de Rosemary (1968), com os residentes do prédio Visser constantemente se intrometendo na vida de Melody e tendo atitudes suspeitas.

Suspiria (1977) também é um nome possível, principalmente pela trilha sonora produzida para Arquivo 81; o filme de Dario Argento é reconhecido por possuir uma sonoridade marcante, com vocalizações que assombram o espectador. Essa característica também está presente na série da Netflix, onde os compositores Ben Salisbury e Geoff Barrow conseguiram criar músicas carregadas de sussurros e cantos que contribuem para a construção da atmosfera estranha e desconfortável, como explicado pela showrunner Rebecca Sonnenshine em entrevista para a Entertainment Weekly.

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Watch the Season 1 Trailer of the brand new show, Archive 81. - Netflix Tudum
Melody Pendras e sua câmera. | Imagem: Netflix (reprodução)

Essas referências e combinações de diferentes gêneros não é uma surpresa, devido ao nome de James Wan dentre os produtores da série, diretor responsável por franquias de sucesso como Sobrenatural (2010) e Invocação do Mal (2013).

Rebecca Sonnenshine revigora o found footage

É essencial destacar, igualmente, o nome da showrunner Rebecca Sonnenshine, que já foi produtora e escritora de séries como The Boys e The Vampire Diaries. Em seu primeiro trabalho como showrunner, Sonnenshine não desaponta. Ela consegue criar uma série bem estruturada e que revigora um gênero como o found footage, explorado à exaustão com o passar dos anos.

Para além da óbvia e forte presença de mídias na série – as câmeras, as fitas, um personagem principal com formação em manter e restaurar esses arquivos, a tecnologia a seu dispor – Arquivo 81 também adiciona esses aspectos de uma nova forma nas aberturas dos oito episódios.

Com exceção do primeiro, onde a mensagem de Melody orienta a abertura, cada episódio possui alguns segundos de uma cena diferente: um comercial sobre um site onde é possível recriar sua árvore genealógica, um programa de resenhas de filmes, documentários sobre artistas e um cometa, um trecho de filme e um jornal de tv. Todas essas cenas se ligam com a narrativa de cada episódio, e ao final, percebemos que constroem uma história própria também.

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Dan no processo de restauração das fitas. | Imagem: Netflix (reprodução)

As atuações de Arquivo 81

As atuações de Mamoudou Athie e Dina Shihabi são outro ponto positivo de Arquivo 81. Os atores são capazes de demonstrar as personalidades de seus personagens satisfatoriamente. O espectador é absorvido para o conflito interno de Dan diante da possibilidade de acontecimentos sobrenaturais, apesar de suas tentativas constantes de manter a calma e a racionalidade.

Assim como é improvável não se sentir movido pela vulnerabilidade demonstrada pela bondade de Melody, disposta a ajudar as pessoas que encontra a todo momento, fazendo com que exista um clima de tensão provocado pela ingenuidade da personagem.

Além da atuação, Dina também faz um excelente trabalho de filmagem: grande parte das imagens que o espectador observa nas fitas de Melody, foram realmente gravadas pela atriz, como contou Sonnenshine em entrevista. A atriz aprendeu as técnicas de filmagem e realizou a gravação com uma câmera Hi8 genuína, contribuindo com uma realidade para as imagens difícil de ser editada artificialmente.

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A diretora Rebecca Thomas e a diretora de fotografia Julie Kirkwood nas filmagens de Arquivo 81
A diretora Rebecca Thomas e a diretora de fotografia Julie Kirkwood nas filmagens de Arquivo 81 | Imagem: Netflix (divulgação)

Apesar das limitações que um gênero como found footage possui – afinal, só é possível conhecer o que está contido dentro das filmagens de uma câmera -, Arquivo 81 consegue trabalhar bem esse ponto do gênero, sendo bem sucedido em fazer o espectador pensar no que não está sendo mostrado e com isso, imaginar o que pode estar à espreita.

Aquilo que é mostrado não condiz com a realidade total e ao questionar-se sobre o que está escondido, Arquivo 81 consegue construir e manter um clima de tensão durante toda sua duração. O espectador passa a questionar, assim como Dan, cada novo quadro de vídeo. 

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Historiadora e Pesquisadora de Cinema. Fã de horror, filmes, livros, hóquei e de um pug chamado Batata. Sempre pode ser encontrada com café.
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