[CINEMA] Estamira: “Eu sou a visão de cada um”

[CINEMA] Estamira: “Eu sou a visão de cada um”

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Marcos Prado produz em 2006 “Estamira“, um documentário sobre a singular figura de uma catadora de lixo neuroatípica que mora no Rio de Janeiro.

” Eu não sou um robô sanguíneo, eu não sou um robô.”

Estamira tem 63 anos e vive sob a condição de um distúrbio mental provocado pelas provações as quais passou na vida. Aliás, a vida de Estamira foi só provação, o que faz com que nos perguntamos ao final do documentário. Existiu na vida de Estamira alguma espécie de liberdade? Existe na vida das mulheres oprimidas e dilaceradas pelo patriarcado alguma chance de ser livre?

A vida de Estamira foi como a psicologia descreve: situação-limite. Quando pequena sofreu pela morte do pai. Sofreu estupro praticado pelo avô a ela e a sua mãe. Aos 12 é levada a um bordel pelo mesmo para se prostituir. Aos 17 conhece o primeiro marido com quem experimenta o primeiro relacionamento abusivo, foge, casa-se novamente, outro relacionamento abusivo, ainda mais cruel, porque agora é forçada a internar sua própria mãe, algo que nunca se perdoo por ter feito. Quando começa a trabalhar no lixão experimenta mais outras duras provações: é estuprada novamente, duas vezes, clama por deus para que pare, enquanto ouve do estuprador pra se calar e para esquecer deus.

“Onde já se viu uma coisa dessa, a pessoa não pode andar nem na rua que mora, nem trabalhar dentro de casa…Que deus é esse? Que Jesus é esse?… Quem já teve medo da verdade largou de morrer? Quem anda com deus dia e noite, noite e dia na boca, ainda mais com deboche, largou de morrer?”

Lênin fala que:  “a verdadeira escolha livre é aquela na qual eu não escolho apenas entre duas ou mais opções no interior de um conjunto prévio de coordenadas, mas escolho mudar o próprio conjunto de coordenadas”. Estamira não pode mudar o sistema de coordenadas, assim como nós sozinhas não podemos mudar o sistema que nos oprime estruturalmente desde o nascimento. Estamira escolheu uma opção dentre o sistema de coordenadas, fugiu, foi marginalizada, viveu na miséria. Tudo isso condicionada pelas experiências as quais milhares de mulheres são submetidas simplesmente pelo fato de serem mulheres.

Vemos em Estamira um processo de enlouquecimento causado não por acaso, mas sim fruto de uma opressão sistemática e pontual durante toda a sua vida. A submissão do seu corpo, da sua mente, das suas crenças. Tudo isso fruto da cultura que vê na mulher uma espécie de argila, a ser tratada e moldada ao bel prazer de quem a possui. Ouso falar aqui que a única opressão a qual Estamira não foi submetida foi a que concerne ao conceito de normalidade. Ora ela carrega o cometa e cometa nada mais é que “comandante natural”.

estamira

“Vocês é comum, eu não sou comum, só o formato é comum.”

Dá pra assistir online no link abaixo.


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Autora

17 anos, procurando saber o que fazer. Enquanto isso, dorme, escreve e problematiza umas coisinhas.
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