As câmeras nunca mentem… Certo? Entrevista com o demônio (Late night with the devil), dirigido por Cameron Cairnes e Colin Cairnes, se centra na crise da TV como representação do real e na capitalização do sofrimento. Tempo é dinheiro, e cada segundo conta para decifrarmos Jack Delroy.
Os demônios na sala de estar
Anos 70 nos Estados Unidos. Após os crimes envolvendo a família Manson em 1969, explodiu no país um momento de pânico coletivo: todo jogo, música e filme estava sujeito a ser relacionado a rituais satanistas na mídia. O sucesso de empresários e artistas era associado a pactos com o diabo. O Brasil também chegou a presenciar parte desse delírio (ah, a história dos discos da Xuxa!).
O que contribuiu para esse cenário é algo que mais de 90% das famílias possuem em suas salas: a televisão. Desde que os aparelhos televisivos se popularizaram, muita coisa mudou: alguns diziam que a TV mataria os neurônios das crianças, criando uma geração de alienados; outros desenvolveram teorias de controle mental através de propagandas — alô, Arquivo X, temporada 3!
Mas o que é notável é a mudança em relação ao nosso consumo de mídia: o audiovisual teve que competir com o showbusiness, e muitas coisas se transformaram. Além de tudo, por que ir ao cinema se as matérias exibidas nos programas eram quase tão fantásticas quanto um novo filme de John Carpenter?
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E se?
Entrevista com o Demônio se dedica a criar essa estética televisiva através das brincadeiras com a proporção da tela – de 4:3 a 16:9 – e o cenário típico de um programa de TV. No entanto, o que mais se aproxima de uma estética narrativa é o fato de constantemente nos dividir. Ao longo do filme, passamos de crentes a descrentes em questão de segundos.
A cada desafio imposto pelo programa, um grande “e se…” se forma, e não seria exagero dizer que isso gera uma euforia própria da magia do cinema. Para um filme de terror comercial, é curioso, porém, o tempo gasto para nos apresentar Jack Delroy – interpretado pelo incrível David Dastmalchian. Mas isso não é por acaso: o que fascina mais a nós, humanos, senão outros humanos?
O exorcismo de Lilly “Rose”
No trailer e em outros materiais de divulgação, a grande “atração” do filme é Lilly (Ingrid Torelli). Em especial o momento em que um espírito obsessor toma conta de seu corpo.
Mas mesmo essa cena é quase um anti-clímax. Afinal, o filme apresenta longas explicações sobre o programa, o “Night Owls”, o apresentador, a proposta do especial de Halloween, Christou (Fayssal Bazzi), o vidente, o culto estudado pela doutora June (Laura Gordon). Tudo é dado de maneira racional e “mastigada” ao público — seja este público nós, ou a plateia do programa. E… bem, não é possível temer o que entendemos, certo?
Na crítica de outro filme de terror recente, Imaculada, falei sobre a dificuldade de escapar da tradição: seja nas técnicas ou nos temas tratados. Entrevista com o demônio, porém, é um exemplo interessante de como brincar com aquilo que já está consolidado no imaginário popular.
Através da metalinguagem e da explicação do texto por meio de um narrador ou personagem, cria-se espaço para novos tipos de sustos e medos. Como pensar em possessão demoníaca sem se lembrar da jovem e inocente Regan de O Exorcista? Ou melhor: como pensar em exorcismo sem pensar em homens de preto com uma cruz na mão e uma mulher vulnerável e violenta?
As mulheres exorcizadas no cinema de terror

A associação de mulheres, especialmente mulheres jovens, ao exorcismo é o meio que a força de uma mídia capitalista encontra para continuar a caça às bruxas. Assim, para entender o que torna este filme divertido, apesar de tratar de um tema tão consolidado no cinema de terror, é preciso voltar-se para as representações femininas no longa.
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Esposas e amantes: mulheres do diabo!
Há algo além da “névoa” de explicações factíveis do filme: há algo do mundo escondido nas “gravações” do programa, e tento aqui encontrar essas pistas de como os papéis de gênero são representados nessa mídia liberal estadunidense.
Como qualquer homem de negócios que precisa se manter popular, Jack Delroy precisa ser fiel, engraçado e atraente. Ele precisa manipular as narrativas sobre si. Ele manipula uma narrativa dentro da narrativa dinâmica do programa: o telespectador nunca tem controle, é apenas uma ilusão. Como é ilusão seu comprometimento nos relacionamentos afetivos. Ele faz tudo por dinheiro e por manter sua imagem!
É um personagem exemplar da identidade estadunidense. June, porém, é uma mulher da ciência que rapidamente abre mão da razão porque tem uma queda por Jack. Lily, por sua vez, é controlada, ora por June, ora por um espírito. Isso sem falar de Madeleine (Georgina Haig), a esposa cujo sofrimento é alvo de espetacularização no programa do marido.
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Seja em um programa de TV dos anos 70 ou em um filme de terror de 2024, as representações femininas ainda não conseguem se desvencilhar de lugares típicos e machistas. Já é hora de deixar para trás a ideia de que o audiovisual precisa representar o que existe no mundo. Este ainda é um filme que não consegue aproveitar as possibilidades de criação de um novo mundo para mudar as representações femininas que apresenta.
Enfim, a verdade!
No entanto, mesmo se mantendo aquém na representação de mulheres na mídia, Entrevista com o Demônio nos inclui e, por isso, é tão bom de se ver: somos levadas a um espaço fora do espaço da TV. A um mundo em que nenhuma regra de lógica do mundo material se aplica.
Esse é o maior terror de todos: um mundo de mentirinha. Em essência, os filmes de terror são tão atraentes por serem mentiras que não conseguimos entender como mentiras. Ilusões que temos dificuldade de identificar como tal.

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Durante todo o filme, os personagens debatem sobre truques e concluem que as câmeras nunca mentem. Mas, nesse mundo dominado por uma mídia corrupta que precisa de mais audiência, mais dinheiro, só o que as câmeras fazem é mentir.
Entre efeitos práticos e bordões clássicos de programas de TV, o filme diverte, e muito. Há sempre um jogo com o limite entre nós e Jack; a câmera, a tela e os produtos finais. Quando entramos no ar, não é o mundo que está projetado na tela, mas a tela que projeta o mundo em nós.
Por hoje, é só, pessoal! Desejo a todos uma boa noite… se for possível…





