[QUADRINHOS] O Árabe do Futuro – Uma Juventude no Oriente Médio 1978-1984 (resenha)

[QUADRINHOS] O Árabe do Futuro – Uma Juventude no Oriente Médio 1978-1984 (resenha)

“Nascido na França em 1978, filho de pai sírio e mãe bretã, Riad Sattouf viveu uma infância peculiar. Ele tinha apenas três anos quando o pai recebeu um convite para lecionar em uma universidade da Líbia. Em Trípoli, o menino entrou em contato com uma cultura completamente distinta e precisou superar o estranhamento diante de novos costumes — experiência que se repetiria pouco depois na Síria, quando o pai foi trabalhar lá.

Com o olhar inocente de uma criança, Riad oferece um importante relato sobre os contrastes entre a vida plácida na França socialista de Mitterrand e os regimes autoritários na Líbia de Kadafi e na Síria de Hafez al-Assad. A partir de suas próprias lembranças e sensações, o autor descreve como foi adaptar-se a realidades tão díspares e mostra detalhes de sua vida em família e da relação com outras crianças.

O árabe do futuro é um relato literário pleno em forma de graphic novel: com traço simples e narrativa fluida e descontraída, Riad fornece ao mesmo tempo uma análise antropológica do embate entre o Ocidente e o mundo árabe e um autorretrato de sua própria infância plural.” – Editora Intríseca

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O Árabe do Futuro é uma história que expõe o universo e os costumes do oriente médio entre 1978 e 1984, na região da França socialista de Mitterrand e os regimes autoritários da Líbia de Muamar Kadafi e da Síria Hafez al-Assad, contados pelas memórias e sensações da infância do próprio autor. Uma análise antropológica em forma de quadrinhos com um tom tragicômico.

Confira esse trecho retirado de uma entrevista de Riad Sattouf para O Globo:

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“Você quis construir um relato baseado exclusivamente em sua memória?

Tenho muitas lembranças da minha infância, que remontam longe no tempo. E parti unicamente destas memórias, não perguntei coisas para a minha família. Quando me refiro à época em que tinha dois ou três anos, me recordo da situação, do clima, da emoção, mas não dos diálogos. Então recompus diálogos, numa forma um pouco romanesca, para tornar legível. Mas parti, sim, só de coisas que tinha na minha cabeça. Lembro muito bem, por exemplo, de meu pai lendo o “Livro verde”, de Kadafi, e de minha mãe zombando dele. Basta abrir o livro em qualquer página, é trágico e cômico. E recomponho a história partindo de acontecimentos reais. Queria fazer algo fiel ao que tenho na cabeça. As lembranças de quando se é criança não se referem apenas a ações, mas a sensações, odores, luzes, sons. Queria fazer um relato completo disso, das coisas fortes que sentimos quando se é criança.”

Na história, Riad é filho de mãe francesa, nascida na Bretanha e de pai sírio, na região de Homs. O casal se conheceu no começo de 1970 em Paris, na Universidade Sorbonne, onde o pai fazia uma tese sobre história contemporânea fornecida pelo estado francês.

O pai de Riad recebeu excelentes propostas de emprego, como uma oportunidade de trabalho na Universidade de Oxford, porém, a obsessão do pai em manter a família perto das suas origens faz com que o patriarca mude com ela para lecionar em Trípoli, na Líbia, onde as condições de vida eram precárias e não existia o direito à propriedade particular, por exemplo.

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Quando eles se mudam para a Síria, o pequeno Riad passa a sofrer bullying xenofóbico dos primos, devido à sua “aparência exótica”, sendo um menino branco, de cabelos loiros, o protagonista era chamado de judeu pelos parentes.

O que eu mais gostei na HQ foi a forma como o autor abordou o olhar estrangeiro sobre culturas alheias. A sensação do não pertencimento a determinado local, com pessoas e costumes completamente diferentes, me fez lembrar da obra Persépolis, de Marjane Satrapi. Com realismo, o autor expõe preconceitos e indiferenças causados pelo fanatismo e cegueira religiosa, abordando temas como islamofobia, xenofobia e antissemitismo. Não escapa nem o patriarca de Riad, arauto do pan-arabismo, que embora defenda arduamente a importância da educação árabe para evitar o obscurantismo religioso, têm atitudes e pensamentos machistas e preconceituosos – como em um momento na HQ que chega a comparar o vilão símio Doutor Gori, da série japonesa Spectroman, aos negros, quando a atitude é repreendida pela mãe de Riad.

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Na mesma entrevista feita pelo jornal O Globo, Riad Satouf, ao ser questionado sobre a preocupação com o aumento do antissemitismo, da islamofobia e da xenofobia, relata que durante uma manifestação pró-Palestina na Praça da República, viu pessoas que desenharam a suástica e gritavam expressões antissemitas. E que se contasse esse fato dos quadrinhos, seria disto que falaria, para questionar o leitor sobre o significado de tudo isto para a sociedade. Riad aponta que há um verdadeiro risco fascista na Europa, que se dissimula: passa pelo ódio à mídia, pela recusa em se acreditar que a imprensa é independente, pelo ódio à política e à democracia, ao direito das mulheres.

É uma leitura que recomendo para quem deseja entender mais sobre os conflitos do oriente médio, pois na HQ ele não defende um determinado lado, apenas desconstrói e expõe como a cegueira religiosa somada com o autoritarismo de um governo ditatorial pode ser extremamente nociva para um povo. A Intrínseca prepara para esse ano a segunda parte da série, que vai retratar o primeiro ano de escola do autor.


Riad Sattouf, ex-colaborador do jornal Charlie Hebdo, além de ser quadrinista, é autor de 17 livros e também atua como roteirista e diretor de cinema. Seu primeiro longa-metragem, Les Beaux Gosses (2009), ganhou o César de melhor filme e foi indicado à Câmera de Ouro (Caméra d’or) em Cannes. Por O Árabe do Futuro, recebeu em 2015, pela segunda vez, o prêmio principal do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême.


Editora Intrínseca

Capa comum

24,6 x 16,8 cm

160 páginas

Onde comprar: Amazon

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Escrito por:

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora e Social Media. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Gosta de Harry Styles e cantoras melancólicas.
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