“A Pele que Habito” e a misoginia disfarçada em um médico louco

“A Pele que Habito” e a misoginia disfarçada em um médico louco

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O filme “A Pele que Habito”, de 2011, é dirigido pelo espanhol Pedro Almodóvar e baseado no livro “Tarântula”, do escritor francês Thierry Jonquet. Na época de seu lançamento recebeu diversos prêmios, e atualmente se encontra disponível no catálogo da Netflix.

[CONTÉM SPOILERS]

A sinopse conta a história de Robert Ledgard, um famoso cirurgião plástico interpretado por Antonio Banderas. Sua esposa, Gal, sofre um acidente de carro, e acaba sendo salva por Robert, porém ficando coberta de queimaduras. Os espelhos são retirados da casa onde vivem, mas Gal acaba visualizando seu reflexo em uma janela, atirando-se pela mesma e morrendo na frente de sua filha, Norma. Completamente perturbada, a garota necessita de tratamento psiquiátrico pelos anos seguintes.

Durante uma tentativa de ressocialização, seu pai a leva a uma festa onde conhece Vicente, um rapaz que consome substâncias ilícitas e tem um histórico de atividades que desconsideram regras. Norma é estuprada por ele, o que piora seu quadro já debilitado, e, posteriormente, também a leva a cometer suicídio.

Quando percebe o que aconteceu com sua filha, Robert persegue Vicente, captura-o e passa a mantê-lo em cativeiro. Como forma de “punição”, realiza uma cirurgia de vaginoplastia enquanto o estuprador está inconsciente, e o utiliza como cobaia para sua nova pele humana artificial, finalizando o processo quando este recebe um rosto igual ao de sua falecida esposa. Basicamente, o castigo por ter abusado de uma garota foi: transformar-se em uma mulher para que também possa ser abusado. Porque, afinal, nada pode ser mais terrível do que estar aprisionado em um corpo feminino, sendo objetificada e obrigada a pertencer aquele homem todos os dias. Eis a parte que incomoda, o modo como nasce Vera, semelhante a um “Frankenstein” moderno e misógino.

Todos os dias mulheres são ridicularizadas e mortas por questões de dominação masculina. Vicente, em sua condição forçada de transgênero é agredido de maneira física e psicológica, como resultado de ter um corpo feminino em uma sociedade machista e heteronormativa. E por que me perturba que um abusador sinta na pele o que é ser abusado? Porque ser mulher não é punição, mas sim resistência.

O método de justiça escolhido para o filme pode ser assemelhado à castração química, sugerida por alguns membros de nosso Congresso, onde o homem é castigado pelos seus atos, porém não direcionado para identificar a mulher como ser humano que exerce seu direito de dizer não.

É preciso que se entenda a necessidade de uma representação feminina positiva na mídia, respeitada e valorizada tanto quanto os homens. Mesmo que Almodóvar tenha utilizado propositalmente o cirurgião Robert com tendências psicóticas e chocantes, ainda assim não é possível se manter confortável vendo ser mulher como forma de represália. A liberdade sob o próprio corpo segue sendo uma das principais lutas das mulheres, e espera-se que seja essa a sua definição.


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Acadêmica de jornalismo, feminista, problematizadora e apaixonada por cultura pop. Sonha em viajar o mundo, atualmente viaja nos pensamentos.
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