[SÉRIE] “Being Erica”: o retorno ao passado para superação do presente

[SÉRIE] “Being Erica”: o retorno ao passado para superação do presente

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“Being Erica” é uma série dramática – com um toque de comédia – canadense que teve sua estreia em 2009 e contou com 4 temporadas. A série criada por Jana Sinyor e estrelada pela atriz Erin Karpluk conta a história de Erica Strange, uma mulher de 32 anos que está insatisfeita com a sua vida. Embora tivesse uma juventude promissora, algo em seu passado a impediu de perseguir e alcançar seus objetivos. Após vivenciar uma experiência de quase morte, Erica é apresentada ao Dr. Tom, um homem que lhe oferece um processo de terapia nada convencional. Ainda que a oferta seja estranha, assim como tudo que gira em torno dela, Erica não tem nada a perder: precisa apenas se comprometer a não abandonar o tratamento. Receber esta ajuda, no fim, pode ser a única esperança para a vida de Erica.

Contém Spoilers

being-erica-resenha-02Na primeira temporada, o espectador é introduzido ao mundo da terapia de Erica através de episódios engraçados e também dramáticos, característica esta que se intensifica no desenvolver da série. Conforme a vida de Erica é aprofundada, mais a série foge do seu caráter cômico, passando a explorar os sentimentos ocultos dos personagens e suas escolhas de vida. Assim, a primeira temporada acaba diferindo das demais.

O método não convencional de Dr. Tom consiste em um regresso ao passado, durante o qual o paciente tem a chance de refazer suas escolhas conforme acredita ser o adequado. Os impedimentos são poucos: o evento deve estar numa lista de arrependimentos – novos itens podem ser adicionados a depender do que acontece – e não se pode evitar a morte de alguém. No início da série, então, Erica é induzida a listar seus grandes arrependimentos – os quais, acredita ela, são os principais responsáveis pelo seu fracasso – para que possa revivê-los e reforma-los. Entre eles, estão o baile de formatura, a perda traumática de sua virgindade e a morte de seu irmão mais velho.

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Cada episódio da primeira temporada tem a função de narrar um desses eventos e a tentativa de superação da protagonista. Ocorre que mudar o passado não significa alcançar o que se pretende. As consequências dos atos não dependem apenas das escolhas do ator, mas também dos demais envolvidos. É possível que se consiga a consequência desejada, que o presente permaneça igual ou mesmo que novos arrependimentos sejam criados. As escolhas de cada indivíduo não são escolhas isoladas, o que pode acarretar em variáveis imprevisíveis.

being-erica-resenha-03As demais temporadas focam no amadurecimento de Erica e no seu caminho para finalizar o processo e contribuir para o mundo. Não mais se limitam aos eventos listados por Erica, embora as modificações causadas pelo processo tenham consequências na vida atual da personagem e sejam relembradas uma vez ou outra. A terapia proposta por Dr. Tom se modifica – terapia em grupo, viagem para o futuro, viagem para o passado de outras pessoas, etc. –, e novas facetas dos personagens são apresentadas, de forma que eles se desenvolvam e explorem seus próprios passados. Assim, suas atitudes e escolhas diante da vida de Erica podem ser melhor compreendidas. Não obstante, novos personagens são introduzidos, o que dá dinâmica à vida da protagonista.

being-erica-resenha-07A protagonista é forte e enfrenta problemas cotidianos de uma mulher, como a necessidade de ser bem-sucedida não somente na carreira, como também no amor, o constante julgamento, a necessidade de se preservar, a necessidade de estar sempre atenta ao seu redor para não ser culpada pelo que lhe aconteça, entre tantas outras coisas. Todavia, isto não significa que ela seja uma protagonista retratada como sendo perfeita. Pelo contrário, Erica não é narrada como uma super-heroína. Erica erra inúmeras vezes, machuca, se deixa tomar pela raiva e pela violência, se deixa iludir, é fútil às vezes… Erica é apenas uma mulher como tantas outras, sem ser caracterizada como o extremo da perfeição ou da imperfeição.

“Being Erica” pode não ser uma série conhecida. Porém, quase todos que disponibilizam um tempo para vê-la concordam que é uma série excelente. O roteiro é circular e possui uma sensibilidade incrível. Embora não seja uma série pesada, possui uma carga emocional being-erica-resenha-08bastante forte, abordando assuntos dos mais variados gêneros, como gravidez na adolescência, homoafetividade, estupro, drogas, suicídio, e todas as consequências ruins que a quebra das expectativas podem gerar. Alguns destes assuntos fazem parte do passado da protagonista; outros fazem parte do passado de outros personagens. De todo modo, Erica, em seu processo terapêutico, é obrigada a trabalhar a forma como lida com isto e como segue em frente, porque, por mais que reescreva a sua história, não pode apagar os fatos de sua memória – nem apagar o que não teve interferência sua.

Reviver os erros pode ser doloroso quando se está diante de um mundo que constantemente julga as pessoas somente por eles. “Being Erica” mostra o quanto a sociedade se deixa definir pelo fracasso ignorando os méritos pessoais e o quanto é preciso superar isto para seguir em frente. Cada escolha “errada” é sentida como se fosse da vida de quem assiste. Cada arrependimento é tão ordinário que pode pertencer a qualquer um. E o que cada um faria se tivesse a chance de voltar e refazer seus passos? Como a série ressalta, esta é uma pergunta que todos deveriam se fazer com ou sem um processo terapêutico mágico. A resposta nem sempre está em alterar o que foi feito, mas em alterar a visão que se tem do presente.

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Enfim, “Being Erica” é uma série muito atual e que problematiza bastante, justamente porque trata da relação das pessoas com suas escolhas em diversos aspectos, sem se limitar a estereótipos ou análises rasas, e é uma série à qual mais pessoas deveriam assistir.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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