O ecofeminismo em “Princesa Mononoke”

O ecofeminismo em “Princesa Mononoke”

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Os filmes de Hayao Miyazaki estão sempre recheados de analogias, além de contar com importantes protagonistas femininas. Em Princesa Mononoke não é diferente, onde obtemos um espetáculo de reflexões e metáforas, especialmente sobre o que pode ser chamado de “ecofeminismo”.

Os trabalhos do diretor são famosos por expressar a magia da infância, atrelando histórias fantásticas à críticas sociais. Neste longa em especial, as pautas expostas estão diretamente relacionadas ao cenário ambiental e a sua respectiva vertente do feminismo.

Contextualizando o Ecofeminismo

O ecofeminismo sendo uma epistemologia do movimento feminista, une conceitos ambientalistas e sociais, buscando assim o equilíbrio entre a busca da igualdade de gênero e a preservação do meio ambiente. O feminismo, ao contrário do que estereótipos e desinformações propagam, é frequentemente repensado pelas próprias mulheres que a ele aderem. Assim, ele está em constante mudança para se adaptar às reais necessidades da sociedade atual.

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O capitalismo – modelo político e econômico frequentemente criticado nos filmes de Hayao Miyazaki – é o ponto crucial dos debates ecofeministas. Tal modelo, não apenas gera consequências absurdas no meio ambiente, como também transforma em produto a ideologia feminista com propagandas de empoderamento que nem sempre atendem às pautas mais essenciais. O ecofeminismo, portanto, traz a ideia de que o feminismo não se baseia apenas nas mulheres como um todo, mas em lutas que nascem a partir de diferentes perspectivas. Em Princesa Mononoke isso é demonstrado magistralmente.

O empoderamento feminino e suas complexidades

A história começa quando um javali em fúria amaldiçoa e ataca Ashitaka, o príncipe de uma pequena aldeia. O menino parte então em uma jornada solitária e misteriosa em busca de uma possível cura para sua maldição. Junto com seu fiel escudeiro, o antílope Yakul, Ashitaka acaba encontrando uma vila mineradora liderada por Lady Eboshi. Ali também se fabrica armas. Pouco antes disso, Ashitaka vê uma menina caminhando com lobos, mas a mesma foge. Neste ponto, já temos as duas personagens do conflito central da trama: a menina San e Lady Eboshi.

Princesa Mononoke, de Hayao Miyazaki
Cena de “Princesa Monoke” | Imagem: reprodução

Em dado momento, ele percebe que aquela é a floresta que procurava, mas está sendo degradada pela vila de Lady Eboshi. Este talvez seja o ponto crucial desta análise: a complexidade da vilã.

Pessoas marginalizadas e ignoradas socialmente são aceitas na vila. Leprosos e mulheres que antes estavam sujeitas à prostituição, por exemplo. No entanto, uma mulher forte que acolhe os excluídos é a vilã? A partir de qualquer outra perspectiva, Lady Eboshi seria o modelo de mulher empoderada em qualquer mídia. Isso nos atenta para os perigos de não levar em conta pautas socioambientais quando se trata da representação feminina.

Neste caso, temos as questões ambientais pesando sobre a legitimidade do heroísmo da representação feminina, mas poderia ser outras questões sociais também. Há como exemplo, o feminismo negro, no qual questões raciais são levantadas mais a fundo. Todas essas interpretações e vertentes levam ao questionamento: até que ponto a mulher empoderada produzida pela mídia é válida para a sociedade que temos?

Lady Eboshi em Princesa Mononoke
Cena de “Princesa Mononoke” | Imagem: reprodução
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Essa complexidade de Lady Eboshi está ligada à importância da maldição de Ashitaka. O javali enfurecido foi um resultado direto de toda a violência cometida contra a floresta. Talvez por isso, Ashitaka serve como intermediador da guerra entre os humanos e seres da floresta. Tal personagem é detentor de uma parcela da raiva e, principalmente, do sofrimento dela. Ao mesmo tempo, ele entende como Lady Eboshi é boa para os moradores da vila.

Em certo ponto, um dos leprosos diz a Ashitaka:

“Meu jovem, como você eu conheço a raiva, a aflição e a fraqueza, mas você não deve querer se vingar em Lady Eboshi. Ela é a única que nos viu como seres humanos.”

Fazendo um paralelo com o longa “Parasita” do diretor Bong Joon-ho, Lady Eboshi é parasita mas também é parasitada. No sistema capitalista, ninguém está livre dessa relação, nem mesmo um protagonismo feminino. Por outro lado, temos San, a menina que foi criada com os lobos. Aqui, ela se mantém contra a humanidade, detestando as sociedades humanas por todo o mal que fizeram para a floresta. Dessa forma, San e Lady Eboshi são opostos extremos, enquanto que Ashitaka funciona como um remediador entre este conflito. Mas não apenas remedia o conflito da floresta com humanos; como também o de San e Lady Eboshi. 

À qual realidade a representação feminina de fato representa?

Cada uma das mulheres representa um lado nesse debate. Enquanto uma é determinada a trazer o progresso aos seus – ainda que isso custe a vida da floresta – a outra está determinada a aniquilar quem quer que seja, para proteger seu lar. A ideia é quase como discutir sobre os dois lados de uma mesma moeda.

Com duas personagens femininas fortes e com objetivos válidos, nos perguntamos qual modelo seria o correto, já que as duas divergem em tudo e guerreiam entre si. A resposta é que nenhuma das duas pode servir como um modelo enquanto tiverem uma rivalidade. Todo o conflito apenas se manteve porque nenhuma das duas quiseram entender uma a outra, suas necessidades e prioridades. Ouvir e apoiar são verbos indispensáveis para o feminismo. 

Ecofeminismo em Princesa Mononoke
Cena de “Princesa Mononoke” | Imagem: reprodução

A verdade é que nem mesmo Ashitaka deveria ser a chave para resolver os debates das duas mulheres. Elas representam suas respectivas lutas e divergências, e o diálogo deveria ser a ponte, não um papel masculino (ou embasado em qualquer tipo de masculinidade). Ashitaka, quebrando nossas expectativas, não é a solução para tudo. Não é o herói. Não é o mocinho. Ashitaka assiste, intervém e tenta. Mas no fim, apenas as mulheres podem resolver suas questões. 

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O que Princesa Mononoke traz é uma reflexão sobre os verdadeiros aliados e inimigos na luta por um mundo melhor e mais igualitário. Uma dura metáfora sobre a ganância da humanidade e sobre as conflituosas relações sociais nos dias de hoje. O filme é, em suma, uma obra que apresenta de maneira clara o significado e a relevância do ecofeminismo. 

Há uma frase síntese para essa análise e boa parte dos conceitos apresentados no longa, um trecho que Ashitaka diz a Lady Eboshi:

O seu inimigo não é o espírito da floresta!


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Autora

Elisa Silveira é uma estudante de Meio Ambiente apaixonada por muitas coisas, como Doctor Who, séries de comédia e literatura. Na maior parte do tempo está estudando ou escrevendo coisas; no tempo livre, sonha com mundos fantásticos.
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