[ENTREVISTA] Guerras do Tarot – O Caminho do Louco: O processo criativo do autor Alex Mandarino

[ENTREVISTA] Guerras do Tarot – O Caminho do Louco: O processo criativo do autor Alex Mandarino

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O Caminho do Louco é o primeiro volume da trilogia Guerras do Tarot, escrito por Alex Mandarino e publicado pela editora Avec. O Caminho do Louco traz uma história bem elaborada e personagens muito diferentes entre si. Se passando em um universo atual, os cenários variam por todo o mundo, incluindo Brasil, França e Escócia. Nele, existe um grupo chamado de Tarot, composto por pessoas “escolhidas” que representam cada um dos arcanos das cartas do baralho (Você pode conferir a resenha completa aqui). Nessa entrevista, Alex Mandarino contou um pouco sobre seu processo de escrita e como se deu a criação da história, que levou cerca de 14 anos para ser construída.

O Caminho do Louco

DN – Para começar, poderia falar um pouco de onde veio a ideia para Guerras do Tarot e o porquê da escolha de cartas de tarô?

Alex – Oi pessoal do Delirium Nerd. Muito obrigado mesmo pela oportunidade dessa entrevista. Bom, a ideia do Guerras do Tarot surgiu ainda lá em 2001, 2002. Os primeiros capítulos do livros foram escritos já naquela época. Depois teve um longo hiato e só voltei a escrever o livro em 2009, terminando finalmente em 2012. Mas os caps. 1, 22 e o epílogo foram escritos somente em 2015, após as revisões feitas pelo editor. Eu queria algo que me permitisse escrever sobre diversos temas que me são caros e importantes, sem que parecesse uma salada. Encontrei isso no tarot. Eu já jogava tarot para mim mesmo e alguns amigos e as cartas me fascinam porque contam uma história – diversas histórias, na verdade. Isso vale para uma tirada de tarot e também para o livro: os personagens-arquétipos me permitem contar diversas histórias diferentes, abordar vários estilos narrativos e até gêneros diferentes.

DN – Como é o seu processo de escrita?

Alex – Normalmente a primeira coisa que me vem é o final. A partir daí crio os personagens, que para mim são o elemento mais importante de qualquer história. Escrevo bastante em curtos espaços de tempo, ficando bastante tempo sem escrever entre cada um desses arroubos de escrita. Mas não saio da história: esses hiatos são utilizados para escrever cenas curtas, diálogos, trechos que mais tarde serão inseridos no texto final. E também para pesquisa, para definir melhor os personagens, reordenar algumas cenas e coisas assim. O importante é que, mesmo quando sem escrever, eu me mantenha no universo da história. Mas meu método de escrita é bem simples. Gosto de escrever de manhã bem cedo ou então de madrugada, tarde da noite. Preciso de silêncio para escrever, para escutar meu próprio “ritmo“. O ritmo é o segundo elemento mais importante para mim, depois dos personagens.

DN – Quanto tempo O Caminho do Louco levou para ficar pronto desde que a ideia da história começou a tomar forma?

Alex – Acho que respondi parte dessa pergunta na minha primeira resposta. O livro começou a ser escrito em 2001 e foi concluído somente em 2015, mas a maior parte desse tempo foi gasto com outras coisas que eu estava escrevendo (contos, artigos, traduções) ou com o processo de pesquisa do livro e delineamento dos personagens e da trama. O tempo gasto escrevendo mesmo deve ter sido de um ano e meio, no máximo. Muitas coisas entraram no meio do caminho: mortes na família, mudanças de emprego e de profissão, mudanças de casa, o começo da minha carreira como tradutor literário, contos que escrevi, a Hyperpulp (revista de contos fantásticos que edito e pode ser lida em www.hyperpulp.com), minha atividade com música eletrônica (faço parte dos projetos Chip Totec, Phunk Phreak e Terra Incognita, este último em dupla com a artista Leandra Lambert). Enfim, o Tarot esteve na minha mente por 14 anos (e ainda está aqui dentro, me enchendo de ideias), mas várias outras coisas pessoais e profissionais dividiram espaço com ele. Um caminho louco.

DN – Você já escreveu algum outro romance antes da trilogia ou está começando com ela?

Alex – Os livros da trilogia são meus primeiros romances. O Caminho do Louco é o primeiro deles. Já havia começado outros romances antes: o e-pifania, romance cyberpunk; e O Círculo de Ossos, série de romances de alta fantasia épica. Mas ficaram apenas nos primeiros capítulos. São os meus projetos futuros, após a conclusão da primeira trilogia do Tarot. Também pretendo escrever romances policiais fechados, off-Tarot, protagonizados pelo Superintendente Ciaran, um dos personagens da trilogia. Gosto de transitar por essa mistura de “alta” literatura, fantasia, romance policial, cyber e experimentos formais com a linguagem.

DN – Vi que você já publicou um conto em inglês. Como foi escrever em outra língua? Chegou a considerar a ideia de publicar o Guerras do Tarot originalmente em inglês?

Alex – Isso, o The Eye That Ate the Sky, que saiu na coletânea de horror norte-americana Miseria’s Chorale. É um conto que se passa na época do Brasil colonial, mostrando bandeirantes que encontram alguns dos nossos horrores das lendas nativas, como o boitatá. A pedido dos editores tentei imprimir um clima lovecraftiano à ambientação do Brasil colonial. Escrever em inglês é bem diferente, porque você naturalmente fica mais preso, não ousa tanto quanto ousaria escrevendo na sua língua nativa. Mas é uma experiência fascinante e pretendo repeti-la. Quanto ao Tarot, pensei em traduzi-lo para o inglês já enquanto o escrevia. Várias frases inclusive ganham mais de um sentido se traduzidas para o inglês. Isso é algo que me vem naturalmente. Adoro palavras, ritmo, construções, subtextos. Muitas das minhas escolhas de palavras em português são influenciadas pela possibilidade de uma futura tradução para o inglês. Acho isso divertido, porque o texto ganha mais de um subtexto.

DN – Quais as maiores dificuldades que encontrou enquanto escrevia o livro?

Alex – Achar tempo para escrever. Nos primeiros anos eu ainda estava sob o efeito da armadilha de achar que é preciso um momento ideal para escrever. Só que esse momento nunca vem, em momento algum da sua vida. É um preciosismo e uma auto-ilusão. Superei isso nos anos seguintes, mas o trabalho diário ocupa muito do meu tempo. Então há, sim, um obstáculo temporal de ordem prática, palpável. Meu trabalho como funcionário público (que é o que paga as minhas contas) me toma nove horas diárias. Fora isso ainda uso as horas livres para traduzir (que é o que também paga as minhas contas). Sou o tradutor da série Discworld, de Terry Pratchett, no Brasil, e também já traduzi autores como Grant Morrison, China Miéville, Dan Chaon, William Gibson, Aliette de Bodard, figuras que brincam com a linguagem. Gosto de traduzir autores considerados “difíceis“. Mas, claro, esses dois ofícios tomam a maior parte do meu tempo. Então encontrar horas para escrever romances, contos, editar uma revista e fazer música é uma narrativa fantástica por si só. Quanto ao ato de escrever o livro em si, o que achei mais difícil foi encontrar o tom certo para o protagonista, André Moire. A pesquisa de locais, horários, conceitos, etc, também me tomou (e ainda toma) boa parte do tempo de escrita do Tarot.

DN – Qual dos personagens você particularmente gosta mais? E por quê?

Alex – Gosto muito de Pat O’Rourke, a Sacerdotisa. Acho que a visão de mundo dela é a mais parecida com a minha, dentre os personagens do livro. Também adoro o Mago e o Carro, que são divertidos de escrever e me permitem experimentar com a forma e a linguagem. E também do Ciaran, que surgiu meio que de repente. Ele não estava nos meus planos e nem no outline original do livro, mas quando comecei a escrever um dos capítulos lá veio ele, como se tivesse vontade própria. Acabou sendo ótimo, porque me permitiu brincar com os elementos do romance policial e ainda por cima cumpriu o papel de personagem que tem o ponto de vista do homem comum, mais próximo ao leitor. Adoro vários dos coadjuvantes, também.

DN – Poderia falar um pouco dobre o objetivo do grupo, de elevar a consciência da humanidade? O que veio primeiro, o Tarot ou o objetivo deles?

Alex – Acho que as duas coisas vieram ao mesmo tempo, ou pelo menos no mesmo encadeamento de ideias. Com isso o grupo pretende levar a humanidade para o próximo nível do game, fazer a raça humana finalmente se desapegar de alguns de seus traumas, inclusive de alguns traços traumáticos que foram úteis ao homem em períodos mais primitivos de sua história. Resta saber se o Tarot está certo em desejar isso.

DN – Poderia falar um pouco do que nos aguarda para os próximos livros?

Alex – No segundo livro, O Laço do Enforcado, que sai no final desse ano, André Moire encontrará vários dos outros Arcanos: a Justiça, os Amantes, o Hierofante, a Roda da Fortuna, a Força, o Carro, o Diabo. Moire passará por novos locais, como Nova York, California, África do Sul, Japão. O grupo tentará encontrar um dos Arcanos que faltam, o Enforcado. Mas o Enforcado quer ser encontrado? Enfim, o livro terá novos locais, novos problemas, novos inimigos, novos Arcanos Menores e, principalmente, novas revelações. É mais sombrio que o primeiro.

DN – E para finalizar, pode falar um pouco sobre a criação das personagens femininas? Teve alguma dificuldade a mais em criar elas?

Alex – Eu adoro escrever personagens femininas, acho que são mais multidimensionais e ricas. Adorei escrever a Sacerdotisa, por exemplo, que foi uma personagem cuja voz me veio com muita facilidade. Tive muito mais dificuldade para escrever o Louco, o protagonista. Também gosto de escrever a Imperatriz, Natacha Lalique. E gostei tanto da primeira Torre, Romina Contreras, que ela deve ser a protagonista de um dos contos fechados que vamos lançar em breve, de graça, para os leitores. Teremos alguns contos mostrando o passado ou o presente de alguns dos Arcanos (entre eles Romina, a Sacerdotisa, as motoqueiras do Morrigan Crows Motorcycle Club). O Laço do Enforcado tem personagens femininas que têm sido uma delícia escrever, como a Roda da Fortuna. Fui criado por uma família de mulheres bem fortes e sempre tive mais amigas mulheres do que homens, então essa parte me é bem divertida de escrever. Ah, gostaria, por fim, de convidar os leitores a assinar minha newsletterNela adiantarei trechos dos livros que vêm por aí, além de dar dicas de escrita criativa, organização e fluxo de trabalho, além de comentar sobre notícias de alguns dos temas do livro: tecnologia, games, meio ambiente, arte, quadrinhos, literatura. Acho que vai ser uma viagem bem intrigante.

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Guerras do Tarot O Caminho do Louco

O Caminho do Louco – Volume 1. – Série Guerras do Tarot

Autor: Alex Mandarino

Editora AVEC

296 páginas

Onde comprar: Amazon


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Autora

25 Posts

Apaixonada por livros de capa dura, filmes com bastante drama, histórias em quadrinho, jogos de estratégia e essas coisitas mais. Sempre começa a escrever mais textos do que é capaz de terminar. Formada em desenvolvimento de sistemas, fã de Tolkien e criadora do Dragões Encaixotados.
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