Ms. Marvel: Kamala Khan e como a representatividade importa

Ms. Marvel: Kamala Khan e como a representatividade importa

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O encadernado n°1 da primeira fase (2014) da atual Ms. Marvel, Kamala Khan, foi lançado no Brasil em janeiro de 2016, pela Panini Comics, editora responsável pelas publicações regulares da Marvel aqui no país, e abarca as primeiras cinco edições americanas da história.

Escrita por G. Willow Wilson, desenhada por Adrian Alphona e colorida por Ian Herring, o enredo conta como Kamala Kahn assumiu o “manto” antes pertencente a Carol Danvers (atualmente chamada de Capitã Marvel). Criada por Wilson, Sana Amanat e Stephen Wacker, a personagem apareceu pela primeira vez em 2013, em um cameo ao fundo das histórias da Capitã, em Captain Marvel vol. 7 #14, ganhando sua revista em 2014.

Kamala Khan

Kamala Khan, como seu nome pode ter indicado, não é de ascendência norte-americana, mas sim paquistanesa, tendo nascido nos EUA e sido criada em meio à cultura e religião tipicamente islâmicas, e esse é um dos elementos mais interessantes dessa primeira trama. A trajetória da transformação da adolescente em heroína é contada a partir de sua rotina como aluna (na escola ou nos estudos o Corão), como amiga e como membro de uma família (lugar de desafios entre gerações e costumes, onde a ascendência paquistanesa entra em confronto com os hábitos de uma adolescente sendo criada nos EUA).

Tudo isso permite que a leitora se identifique em algum nível com Kamala, que além de tudo, é uma verdadeira fã de super-heróis. Essa estrutura já é utilizada com maestria pela Marvel há vários anos nas histórias do Homem Aranha (tendo que ser o jovem nerd franzino Peter Parker e ao mesmo tempo esconder sua identidade, especialmente de sua tia May), o interessante aqui é que ela é usada não com um adolescente, branco, e do sexo masculino, Kamala está lá para representar os outros leitores, em um mundo que fica cada vez mais clara a importância de se sentir representado.

Ms. Marvel

Kamala é uma Inumana, e seus poderes são manifestados após entrar em contato com a  névoa Terrígena. O momento em que ela adquire seus poderes é por acaso, estando em um lugar em que não deveria, dentro de um contexto de atrito entre ela e seus pais; logo que isso acontece, Kamala Khan acaba se imaginando como sua heroína favorita: Ms. Marvel.

Por causa de seus poderes de maleabilidade da forma corpórea, ela acaba imitando a aparência de Danvers. Kamala Khan passa, então, a descobrir e utilizar seus poderes, em um primeiro momento sozinha, e depois, por circunstâncias além de sua vontade, com o auxílio de seu melhor amigo Bruno, que acaba precisando da ajuda da garota por causa de seu irmão. Juntos eles criam um traje adaptado para ela, um que consiga acompanhar suas mudanças físicas para que ela não se distraia com a preocupação de manter as roupas.

>> Veja Também: Ms. Marvel: como a Geração Y pode salvar o mundo (vídeo)

Quando Kamala decide se tornar a nova Ms. Marvel, ela encara sua nova identidade não como uma cópia de Danvers, mas sim como uma nova heroína, com suas próprias características, sem o cabelo loiro, a pele branca e os olhos azuis: Khan usa seus próprios traços, deixando claro que quando poderia parecer com qualquer um, ela escolhe parecer consigo.

Kamala Khan

Para além do enredo em si, o trio Wilson, Alphona e Herring consegue controlar muito bem a narrativa visual, dando espaço para as diferenças neste quesito também. Os personagens são propositalmente feitos em diferentes tamanhos, formatos e cores, mostrando a diversidade de um bairro dentro de uma cidade populosa (e, consequentemente a diversidade presente no cotidiano de todas nós).

O traço único de Alphona dá um aspecto diferente até mesmo aos Vingadores, que aparecem brevemente em momentos de “fantasia” na mente da garota. A estética colabora também no diálogo que o título procura ter com um público específico: podendo ser lido e apreciado pelos mais variados públicos, Ms. Marvel é uma das HQs da editora que quer alcançar o público feminino mais jovem.

Apesar de ser um jogada de mercado, não é necessariamente algo ruim. Significa que a Marvel como editora está interessada em fazer conteúdo para diferentes públicos, sem subestimá-los, trabalhando com uma preocupação em manter a qualidade conferida a títulos maiores e/ou mais antigos.

Ms. Marvel teve uma boa recepção pelos fãs e pela crítica, tendo concorrido em 2015 à 5 Eisner Awards (o “Oscar” dos quadrinhos), e levado um Hugo Award de Melhor Graphic Story, e rendido um Joe Shuster Award para o desenhista Adrian Alphona e um Angoulême International Comics Festival para Alphona e Wilson, como uma série de HQ.   


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Bat-fã, que ama cachorros, quadrinhos, chocolates e coisas velhas. Formada em História pela Universidade de São Paulo; tem como metas de vida trabalhar com arquivo histórico e HQs (de preferência ao mesmo tempo), e convencer sua irmã mais velha de que a Canário Negro venceria em um combate corpo a corpo contra a Caçadora.
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