Top Of the Lake: China Girl – a crítica abolicionista se revela aos poucos

Top Of the Lake: China Girl – a crítica abolicionista se revela aos poucos

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Pessoas inteligentes costumavam fazer filmes… hoje elas fazem TV!”  Foi a declaração da diretora Jane Campion para seu perfil no The Guardian. E se a segunda temporada de sua série produzida pela BBC, Top of the Lake é alguma pista, é de que a cineasta está coberta de razão: a transição da diretora da telona para a telinha além de não afetar na qualidade de seu conteúdo, agora proporciona uma liberdade criativa e crítica que o cinema há muito vem podando.

[CONTÉM SPOILERS DA 1ª E 2ª TEMPORADA]

Top of the Lake não trata de temas simples. Na primeira temporada acompanhamos a saga da detetive Robin Griffin (Elisabeth Moss), que voltando a sua cidade natal na Nova Zelândia se depara com um caso de uma menina de 12 anos grávida. A misoginia presente na pequena comunidade praticamente rural da Nova Zelândia rodeia o espectador com personagens de homens violentos que adicionam tensão à trama de Robin — que sofreu um estupro coletivo aos 16 anos de membros da comunidade que nunca foram propriamente julgados, engravidou de um dos seus algozes e pôs a própria filha para adoção — que depara frequentemente com o abuso moral e sexual dentro de seu espaço de trabalho enquanto tenta resolver o caso da menina Tui (Jacqueline Joe). Jane Campion não nos poupa de mostrar como os homens atrapalham.

China Girl
Top of the Lake: China Girl, episódio 2.

Na primeira temporada ficamos sabendo que a gravidez de Tui é decorrente de uma rede de abuso de menores que tem vínculo com a própria polícia. Robin trabalha praticamente sozinha e encontra apoio apenas em um grupo de mulheres que se instalam em uma propriedade para fugir da violência dos homens da região. A mensagem que fica no fim da primeira temporada é que apenas mulheres se importam e lutam pelo direito de outras mulheres, o que por si só, já é uma mensagem feminista.

Nas na segunda temporada, Top of the Lake: China Girl, Jane foi além em sua crítica e apontou para sistemas e instituições específicas: a prostituição, o racismo, a pornografia, gravidez por barriga de aluguel e o mercado de bebês e como todas essas questões estão relacionadas nas sociedades contemporâneas.

Vivendo agora na Austrália, Robin se depara com um caso da morte de uma garota asiática encontrada dentro de uma mala na praia, pejorativamente chamada de “China Girl” por um dos policiais da equipe de Robin. O nome pega, e durante a investigação, tudo aponta para um bordel da região. A Austrália, assim como a Nova Zelândia, aprovou em 2003 leis de legalização da prostituição no país, tornando legal para cafetões e donos de bordéis lucrarem com a exploração sexual de mulheres. O bordel, como tem sido comum nesses lugares, é habitado em sua maioria por mulheres imigrantes da região do Pacífico, que falam pouco inglês, são pobres e vivem em péssimas condições.

O dono desse bordel, Puss (David Dencik), por questões de narrativa imagino, calha de ser o namorado mais velho da filha abandonada de Robin, Mary (Alice Englert), que foi criada por uma família australiana e tentou procurá-la sem sucesso quando tinha 12 anos. Mary, agora aos 17, passa por uma crise adolescente se revoltando contra a mãe adotiva interpretada por Nicole Kidman, que se separou de seu marido para viver com outra mulher, provocando a ira da filha, que debocha da mãe e seu feminismo. A vulnerabilidade de Mary perante Puss — que usa do poder de seu discurso acadêmico afetado para justificar sua vida de dono de bordel e manipular a namorada adolescente — cria uma tensão constante do perigo que a menina corre se relacionando com esse homem suspeito e normalizando a vida em bordéis.

China Girl
Top of the Lake: China Girl, episódio 1.

A relação das meninas do bordel com seus compradores também é explorada, expondo como o consumo de pornografia entre rapazes e homens jovens contribui para uma visão sobre o sexo feminino que estimula a prática da compra de sexo. “Cinnamon”, como é chamada a garota morta, tem uma relação com um rapaz que é seu “cliente”, um jovem que consome pornografia diariamente com seus colegas, e na busca por uma conexão verdadeira, se apaixona pela prostituta do bordel que ele frequenta. A objetificação do corpo feminino é natural entre o garoto e seus amigos, o que não torna surpresa que eles tenham dificuldade em se relacionar com mulheres em geral. Jane Campion pontua esses momentos com silêncios e olhares. O racismo também é visível, e a classificação diferenciada que mulheres asiáticas têm nesse mercado é bem explícita pela diretora.

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A relação de Robin com a maternidade e com a filha adolescente reforça a máxima da primeira temporada: apenas mulheres se importam com outras mulheres. Apesar das tentativas de Julia (Nicole Kidman) de apoiar e orientar a filha adotiva, e do pai que, mesmo com boas intenções acaba (como quase todo homem em Top of the Lake) não oferecendo muita ajuda, Mary encontra em Robin um apoio emocional necessário para o momento de crise que ela vive, enquanto a mãe biológica entra em contato com o amor e o cuidado pela menina perdida e junta forças para ajudá-la a sair da situação abusiva com Puss.

É sempre bom ver a conexão feminina resultar em uma quebra de barreiras e superação de obstáculos em narrativas envolventes. Assim como a ligação de Robin com Tui na primeira temporada é capaz de modificar as condições de vida em que elas vivem, Robin e Mary juntas também impedem que Puss seja capaz de estragar essa nova família que se formou.

Miranda (Gwendoline Christie) também tem um papel importante na crítica social que a série faz sobre romantização da maternidade. Obcecada pela possibilidade de ser mãe, Miranda vai atrás da maneira mais desesperada de se conseguir um filho quando não há possibilidade de engravidar: buscar uma barriga de aluguel imigrante, que precise do dinheiro e concorde fazer a transação ilegalmente.

O comércio de bebês paridos por mães imigrantes têm crescido nos países Anglofônicos, em que muitos casais ou pessoas solteiras brancas frustrados com as tentativas de fertilização in vitro, investem seus dinheiros em mulheres que são tratadas como incubadoras ambulantes: servindo biologicamente quem pode pagar por sua pobreza. A trama nesse caso, faz uma reviravolta inesperada com a participação de Puss, que por seus meios antiéticos e ilegais dá um golpe nos pais que pagaram pelo procedimento mas não receberam seus bebês.

De modo geral, Top of the Lake: China Girl é um tapa de realidade. Como uma sociedade extremamente misógina que enxerga o corpo e capacidade reprodutiva das mulheres como uma mercadoria pode causar traumas, violência e suicídio e acarretar destruição nas mais íntimas das relações. A única solução para acabar com esses sistemas de opressões estruturais é aboli-los de uma vez. Neste sentido, Jane Campion, de fato, está deixando a TV mais inteligente!

Texto publicado originalmente em QG Feminista.

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Feminista Raíz
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