Legalidade: a história se repete e a resistência persiste!

Legalidade: a história se repete e a resistência persiste!

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Estreia hoje, 12 de setembro nos cinemas, o longa-metragem nacional “Legalidade“, que pega carona na onda de filmes documentários, históricos e de ficção realizados nos últimos quatro anos. Através da reconstrução de nossa história política social pregressa, o filme busca trazer luz aos recentes acontecimentos políticos de nosso país, influência de uma onda crescente de conservadorismo moral e endurecimento social em muitas camadas da sociedade brasileira.

Legalidade“, que conta direção de Zeca Brito e roteiro colaborativo com Leo Garcia, acompanha a história do Movimento Legalidade que aconteceu no Rio Grande do Sul, em 1961, e foi liderado pelo então governador do estado Leonel Brizola. No meio do movimento, um triângulo amoroso entre Cecília (Cleo Pires), Luis Carlos (Fernando Alves Pinto) e Tonho (José Henrique Ligabue) se forma e o filme passa a acompanhar sua história e os desdobamentos que impactam a vida desses personagens até os dias atuais.

O contexto histórico de “Legalidade”

Leonel Brizola é um político preocupado e envolvido com causas populares e tem grande carisma com a população. Quando Jânio Quadros renuncia seu mandato como Presidente da República, imediatamente militares e apoiadores de uma política mais dura e conservadora decidem impedir que João Goulart (vice-presidente do Brasil e cunhado de Brizola) retorne ao país de uma viagem à China e, dessa forma, assuma seu posto como Presidente. Decidido a intervir e fazer valer o que diz a Constituição, Brizola inicia uma campanha, apoiada por sindicatos, forças estudantis, populares menos abastados e alguns militares do estado, denominada “Legalidade”.

Cléo Pires e Leonardo Machado em cena de “Legalidade” (Imagem: divulgação/Boulevard Filmes)

O longa-metragem “Legalidade” é muito assertivo em reconstituir (com fortes pinceladas ficcionais) esse recorte de nossa história e nos revelar a importância de Brizola nesse momento pré Golpe Militar. É possível reconhecer ao longo do filme muito do viés moralista e a obsessão dos militares – e grande parte dos políticos de direita – com o comunismo, como presenciamos até hoje.

As semelhanças com nosso estado atual são muitas, o que revela que o estado democrático e a luta de classes sempre esteve na pauta da política brasileira, mas sempre foi encarada como uma ameaça à ordem e ao desenvolvimento de nosso país. Por esse motivo, quem quer que se levantasse contra o status quo, – pré estabelecido em nossa pátria mãe -, e lançasse mão de ideias que beneficiassem a camada mais carente da sociedade, era encarado como comunista ou apoiador da causa.

Claro que as coisas não eram e não são tão simples assim. Muitos foram e são os interesses em uma política que favorece minorias (e leia-se como minorias empresários, famílias abastadas, industrias, alguns políticos…), ou seja, aqueles que a rigor ganham a vida explorando a maioria da população para benefício próprio. Contudo, para ganhar força popular, políticos (desde sempre) lançaram mão do medo como forma de fortalecer discursos e retórica baseadas na ordem e no controle.

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Assim foi desde sempre e não seria diferente nos anos 60, quando os EUA faziam uma caça às bruxas buscando “erradicar” e, dessa forma, justificar suas ações (intromissões?) em vários países pelo mundo na batalha contra o comunismo.

Cena de “Legalidade” (Imagem: divulgação/Boulevard Filmes)

O comunismo como ideologia foi vendida como algo negativo; desenhou-se a ideia de que o comunista era aquele sujeito contrário à ordem, que utilizava de violência para tirar dinheiro e patrimônio de quem quer que fosse e que praticava atrocidades contra a população que não tinha como se defender. Ou seja, um criminoso.

No Brasil, em 1961, o país ainda tentava se equilibrar como democracia. Apesar da renúncia de Jânio, Brizola acreditava que, garantindo o retorno de Jango (João Goulart) e sua posse como Presidente da República, seria possível seguir como uma nação democrática e livre. Porém, em pouco tempo, qualquer chance de se manter o estado democrático ruiu e todo aquele que se levantasse contra a injustiça social ou pela “Legalidade”, ou seja, aquilo que garante nossa Constituição, era taxado de comunista e dessa forma obrigado a uma vida de clandestinidade, luta ou exílio. Assim aconteceu com Brizola também.

Triângulo amoroso em “Legalidade”

Paralelo à boa escolha por homenagear Brizola com um filme que, apesar de bem intencionado, teria muito mais a nos retratar, segue então a história do triângulo amoroso entre Cecilia, Luiz Carlos e Tonho, todos os personagens ficcionais de “Legalidade” que entraram nesse retrato para trazer humanidade e ilustrar o envolvimento de pessoas comuns nas ações do movimento encabeçado por Brizola.

Evidentemente que nenhum movimento de luta vive só de figuras ilustres e masculinas. Quantas personagens desconhecidas por nós foram responsáveis por grandes ações que mudaram nossa história? Quantas mulheres tiveram papel fundamental em revoluções? Impossível dizer! Mulheres, homens e crianças sempre se envolveram e influenciaram a política e a sociedade em todo o mundo, portanto, nada mais natural do que misturar a história de um ilustre político que se levanta pela “justiça” e a história de “ilustres” desconhecidos que se uniram a essa causa.

Cléo Pires como CecÍlia em “Legalidade” (Imagem: divulgação/Boulevard Filmes)

Acontece que o triângulo amoroso de “Legalidade” não convence. Falta química entre os personagens e carisma. Cléo Pires – que vive a personagem Cecilia – está belíssima no filme e prova que a beleza de uma mulher não tem relação com seu peso. A atriz revelou recentemente que tomava remédios para emagrecer e que, em função disso, teve muitos distúrbios de imagem. Por esse motivo, abandonou o uso de medicação, passou por tratamento terapêutico e assumiu seu corpo, recebendo, então, muitas críticas.

Cecilia, assim como Cléo, é uma mulher empoderada, voluntariosa e focada em seus propósitos. Usa e abusa de sua beleza e charme e não tem pudores em lançar mão de seus dotes físicos para conseguir seu intento, mas, apesar da beleza e charme da protagonista do filme, o romance entre o trio não decola e muitas vezes tivemos a sensação de estarmos assistindo à novela das 20h.

Entretanto,Legalidade” tem, visualmente, o modelo de folhetim, com um romance fraco e que desenvolve pouco seu conteúdo histórico. Enfim, não consegue garantir nem uma história de amor potente, tão pouco reflete a força e a luta daqueles que se envolveram com o Movimento Legalidade, e vale dizer o mesmo enquanto retrato histórico. Legalidade” opta por não se aprofundar na história e não consegue retratar o tamanho do movimento e seu real impacto no Brasil de modo geral. De qualquer forma, o cinema ganha cada vez mais força como meio de informação e reflexão, trazendo sempre à luz o conhecimento de nossa história e seus desdobramentos.

Movimento Legalidade (Imagem: divulgação)

A história é um processo cíclico e que se repete. Se quisermos entender nosso momento atual, devemos olhar para trás e buscar conhecimento e esclarecimento sobre quem são e quais os interesses que mobilizam uma minoria de pessoas que, através do medo, controlam toda uma sociedade. A cultura, a arte e educação são as únicas ferramentas que a sociedade tem contra a ignorância e a moralidade. Apoiar o cinema (nacional) também é uma forma de luta e de defesa da LEGALIDADE!


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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